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O Editor

Ierê Ferreira começou a se interessar pela arte da fotografia muito jovem, quando o seu pai, também fotógrafo, resolveu presenteá-lo com uma PRÁTICA MTL 3. Com a câmera na mão, buscou aprimoramento técnico no SENAC, considerada a principal escola de fotografia do Rio de Janeiro na época. A fotografia tornou-se uma paixão, e uma opção de vida, que o levaria a trabalhar e a criar projetos em prol da inclusão social, principalmente das comunidades negras. 

1992-1993 - Aparecem suas primeiras fotos nos jornais dos bairros da Zona da Leopoldina. Colaborador no jornal do Grupo Cultural Afroreggae, o Afroreggae Notícias.  1996- Fotos publicadas no jornal Nação Brasil, de perfil centro-esquerda, voltado para as questões sociais e de meio ambiente.

Integrou o time de fotógrafos da revista Black People distribuída nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.  1997- Tornou-se fotógrafo oficial do Grupo Cultural Afroreggae

e responsável pela edição fotográfica da Cartilha de Práticas Educativas lançada pelo Afroreggae

em parceria com a FASE. Iniciou a prestação de serviços para diversas ONGs, fotográfoupara o Jornal do CEAP, da Agenda Social Rio, do Jornal da Cidadania e da revista Democracia Viva (IBASE).  1999- Fez o registro fotográfico da turnê do Afroreggae na Holanda, onde o grupo participou do Festival Mundial da cidade de Tilburg, e apresentou-se no Roots Fest. Este evento, realizado no Teatro Municipal de Amsterdã. Ao retornar desta viagem, Ierê Ferreira inaugurou uma exposição com as melhores fotos da turnê na Semana de Arte educação da Fundição Progresso, no Rio de Janeiro. Tornou-se coordenador do departamento de imagens e arquivo do Grupo CulturalAfroreggae e fez as fotos still dos clips da banda Afroreggae. Assinou a direção musical do projeto Imagem e Movimento e a direção-geral do projeto Caldo de Cultura. No circuito dos shows e espetáculos, fotógrafo das bandas

Fanzine, As Sublimes, Ebony Voz, Farofa Carioca, e da turnê dos trinta anos de carreira da cantora Sandra de Sá. Fotógrafo dos espetáculos teatrais Frankstein, (grupo TUERJ ), Madame Satã e O Incrível Encontro (Grupo SETE), A Roda do Mundo, Candaces, e Bakulo(Cia dos Comuns).  Em 2003, 2004 e 2005- Fez a cobertura do carnaval na Marquês deSapucaí para a assessoria especial de eventos da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Fotógrafo oficial do projeto Conexões Urbanas, criado pela assessoria especial de eventos da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e Grupo Cultural Afroreggae

. Editor de fotografia do livro Da Favela para o Mundo de José Junior, do Grupo Cultural Afroreggae

. Curador da exposição do mesmo nome onde as suas fotos se destacaram no Rio de Janeiro e em Brasília.  Colaborador da revista AFIRMA. Uma publicação on-line, dedicada à cultura negra. Responsável pelo registro fotográfico do projeto Escolas de Paz da UNESCO — Órgão das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura — no Rio de Janeiro.  2006- Participou com destaque da exposição de 12 anos do Grupo Cultural Afroreggae. Participou com destaque da turnê Inglesa dabanda

Afroreggae nas cidades de Londres, Oxford e Manchester. Autor da foto de capa do II CD da banda Afroreggae (Nenhum Motivo Explica a Guerra/2006).  2007- Com a jornalista Carla Oliveira criou e produziu Primeiro Fórum Cultural Negro em Cena, evento que contou com os relevantes apoios da Rede Globo, Fundação Palmares, Prefeitura do Rio de Janeiro, Petrobrás e Furnas.  Foi colunista da revista Agito Rio, idealizador do projeto Samba Identidade Nossa e é o fotografo oficial do Centro

Afrocarioca de Cinema onde fez a direção de fotografia do curta-metragem Um Poema ParaSolano

dirigido pelo grande cineasta Zozimo Bulbul em homenagem ao poeta Solano Trindade pelo seu centenário. O filme foi exibido no (2.º Encontro de Cinema Negro Brasil África) noCine Odeon

, Rio de Janeiro em novembro de 2008.  Fotografou a inauguração do Teatro TomJobim e durante dois anos seguiu fotografando os espetáculos no mesmo teatro.  2010- Participou do

FESMAN Festival Mundial de Cultura Negra em Dakar no Senegal com o CineastaZózimoBulbul

e o grupo teatral (Ciados Comuns).   2011- Dirigiu o curta-metragem Fragmentos, com imagens feitas no Senegal.  Fez câmera no documentário Samba no Buraco do Galo do diretor

Rudá Mucillo, Partido Auto Filmes.  No dia 20 de novembro de 2011 inaugurou na Escola de Artes Calouste Gulbenkian mais uma edição da exposição fotográfica O Negro Em Cena as fotos ficaram expostas até maio de 2012.  Participou da exposição Herança Africana junto com os fotógrafos, Zezinho Andrades, Vantoém Pereira Junior, Januario Garcia e Walter Firmo!  2012 e 2013

Ierê Ferreira trabalho no Arquivo da Cidade e produziu 9 edições do projeto o Luau do Samba, evento que conquistou o público carioca e os turistas! 2014 — Inaugurou a exposição Samba Identidade Nossa na Galeria Bar Imaculada Conceição e na Casa Porto região portuária do Rio de Janeiro.   Participou do 7.º Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul e da segunda edição do projeto Herança Africana e foi o primeiro fotografo a ser homenageado no Rio Mapping Festival maior festival de vídeo mapping

da América Latina.   Deu aulas de Fotografia no Senai Laranjeiras e no Centro Afrocarioca de Cinema.  Em 2017 — Fez fotografia de still no filme Tempo Ê , filme que aborda a vida e a obra do cantor e compositor Zé Luiz do Império e virou personagem do filme Papo de Fotografia e Samba do cineasta Paulinho Sacramento. O filme foi exibido no 10.º Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul .

Em 2018 mais de trinta fotos de Ierê Ferreira foram selecionadas e incluídas na exposição Rio de Samba Resistência e Reinvenção que esteve em cartaz durante um ano no MAR Museu de Arte do Rio! No mesmo ano fez o still do filme Shackal. A Lenda do Rap Está de Volta, do cineasta Paulinho Sacramento, Ogun Filmes. Entre 2018 e 2019 trabalhou no Sindicato dosMetroviários do estado do Rio de Janeiro na função de fotógrafo e câmera na produção de conteúdo institucional.   2019 – Fotografou o curso de cinema Narrativas Negras promovido pelaFlupem parceria com a Rede Globo, expos em frente ao Cais do Valongo 40 retratos no projeto INSIDOUT com o fotógrafo francês JR em parceria com a FLUP (Feira Literária Das Periferias. Participou com o artistaLaerte Heredia da exposição Música Visual de curadoria de Paulinho Sacramento na casa Saravá Bien. Produziu o projeto Afroimaginarte

na casa Sarava Bien. Foi o Câmera para os filmes de campanha do candidato a vereador Paulinho Sacramento ( PT-RJ ) e da candidata a vereadora Monica Cunha ( PSOL- RJ).  

Ierê Ferreira é Fotógrafo, editor desta revista, produtor cultural e professor de fotografia. 

 

Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

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