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Luiz Melodia Uma Pérola Negra

Januário Garcia:

O decano dos fotógrafos afrocentrados

Por: Ierê Ferreira

 

Lélia Gonzalez:

Mulher negra na história do Brasil

Por: Ana Maria Felippe

 

17° Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Outras Diásporas Zózimo Bulbul

Editorial:

Completamos um ano de existência, entregando histórias e imagens que foram o tempero de seis edições ao longo dessa temporada.

Com vinte oito páginas em cada edição e, um site com reportagens muito bem elaboradas, nossa revista se tornou um documento essencial com o objetivo de destacar e promover a cultura negra, publicando trajetórias e contribuindo para o fortalecimento da luta contra o racismo.

Por isso, agradecemos a todos os colaboradores deste trabalho independente e feito com muito amor e dedicação.

Obrigado.

 

Agora, de mangas arregaçadas, entramos em 2025 cheios de homenagens em nossas páginas e já na primeira edição do ano, a capa é o negro gato Luiz Melodia e sua incomparável obra musical e temos também o decano dos fotógrafos afrocentrados, Januário Garcia.

 

Lélia Gonzalez é a Mulher Negra na história do Brasil. Artigo de Ana Maria Felippe e para fechar com chave de ouro nossa primeira edição do ano temos uma mostra do que rolou no 17° Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Outras Diásporas Zózimo Bulbul.

 

Sejam bem vindos e façam uma

boa viagem em nossas páginas.

 

Editor e fotógrafo: Ierê Ferreira

Colunista convidada: Ana Maria Felippe

Colunista e revisora: Sylvia Arcuri

Colunista: Iara Brandão Ferreira

Produtora: Daniele da Silva Araújo

O Negro Em Cena

Januário Garcia em noite de autógrafos  com a companheira Ana Maria Felipe. Fotos: Ierê Ferreira

Januário Garcia:

o decano dos fotógrafos afrocentrados.

Aqui, viemos falar de um Mestre, militante e amigo que, por muitas vezes, nos recebeu com ideias e pensamentos lógicos sobre a fotografia que estávamos praticando, nos levando a entender a importância de enxergarmos e potencializarmos a imagem da comunidade negra, fortalecendo a luta contra o racismo.

Januário Garcia nasceu em Belo Horizonte, em 1943. Filho de Geralda da Mata Garcia e Januário Garcia. Foi um dos quatro filhos de uma família pobre, moradora da periferia da capital mineira. Seu pai morreu quando ele tinha 4 anos, sendo então criado, até os 12 anos, pela mãe que também faleceu ainda muito jovem, aos 36 anos.

Com essa perda, Januário resolveu sair pelo mundo sem destino. Chegou ao Rio de Janeiro com 13 anos e foi morar nas ruas e em um abrigo público da cidade.

Levado ao Serviço de Amparo ao Menor (SAM) aos 16 anos, Januário foi voluntário da Tropa de Paraquedas do Exército aos 17, onde fez curso de Infante Paraquedista e completou o ensino fundamental e médio. Foi, nessa ocasião, que comprou sua primeira câmera fotográfica Olympus para fotografar os colegas nos treinamentos no quartel e nas missões.

Após sair do quartel e sobreviver de outras atividades, Januário retornou à fotografia na década de 1970, iniciando sua carreira profissional, com o incentivo de Ana Maria Felippe, sua esposa. Formou-se em Comunicação Visual pela International Camaramen School e fez estágio no Estúdio Gamma sob orientação do fotógrafo George Racz, complementando a sua formação com cursos de extensão, entre eles: arte visual, história da arte e videomaker.

Fotografou para jornais alternativos e prestou serviços como freelancer para a grande imprensa, começando pela Tribuna e, com o tempo, para as demais redações: O Globo, Jornal do Brasil, O Dia, A Notícia, Revista JB e algumas publicações da Editora Bloch.

 

Em noite de autógrafos na companhia de Daude, Zezinho Andrades, Claudio Jorge, Benedita da Silva , Aduni Benton, Lene Devictor, Delanir Cerqueira, Carlos Medeiros, Altay Veloso, Estudantes e companheiras de militância. Com a Jornalista Luciana Barreto e o fotografo Milton Guran.

 Fotos: Ierê Ferreira

Depois de montar seu estúdio, foi trabalhar com publicidade, encontrando as tradicionais barreiras que um negro precisa superar. Durante todo tempo que fotografou para publicidade, o único fotógrafo negro que encontrou, nessa área, foi Walter Firmo e tinha, ainda, uma referência do fotógrafo, José Medeiros. Trabalhou por muito tempo atendendo a várias agências no Rio de Janeiro. Com extenso trabalho nas áreas de publicidade, música e documentação de afrodescendentes em âmbitos social, político, cultural e econômico, Januário Garcia participava de importantes espaços de memória, arte e cultura do povo negro.

No mercado fonográfico, fotografou capas de discos icônicos como: “Alucinação” de Belchior; “Urubu” de Tom Jobim; “Eu Nasci a 10 Mil Anos Atrás” de Raul Seixas; “Perfil” de Chico Buarque; “ Essa Tal Criatura” Leci Brandão; Muito” Caetano Veloso e A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes, entre outros.

Os trabalhos de Januário foram expostos em países como: Canadá; México; Bélgica; Senegal; Togo; Nigéria; Estados Unidos e Japão. Aqui, no Brasil, fez várias exposições e sempre que podia participava das projeções que produzíamos em bares e eventos culturais na cidade.

Foi amigo pessoal de Abdias Nascimento, Zózimo Bulbul e, em especial, de Lélia Gonzalez a quem também prestamos homenagem nesta edição.

Januário Garcia também atuou como presidente do IPCN Instituto de Pesquisa das Culturas Negras, foi membro do Conselho Memorial Zumbi e coordenador do Centro Cultural José Bonifácio, atualmente MUHCAB - “Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira”. É autor de mais de 100 mil fotos ao longo da carreira.

Publicou fotos nos livros; 25 ANOS DO MOVIMENTO NEGRO, DIÁSPORAS AFRICANAS NA AMÉRICA DO SUL e HISTÓRIA DOS QUILOMBOS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.

 

Hoje, parte do seu acervo encontra-se sob os cuidados do IMS “Instituto Moreira Salles”.

Eu tive a honra de, por vezes, visitá-lo para conversarmos sobre os nossos projetos e aprender mais com ele, com suas fotografias e seus pensamentos afrocentrados.

Januário Garcia faleceu na noite de 30 de junho de 2021, em decorrência da COVID-19, deixando quatro filhos e um legado de imagens e pensamentos que seguem vivos em nossos corações e mentes.

Texto e fotos: Ierê Ferreira

Fonte da pesquisa: Wikipédia

Vantoem, eu e o nosso decano Januário Garcia. Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

O Negro Em Cena

​Lélia Gonzalez: Nulher Negra na História do Brasil

Por: Ana Maria Felippe

Lélia Gonzalez nasceu "de Almeida", em Belo Horizonte-MG, em 1º de fevereiro de 1935. Tinha 59 anos quando faleceu, em 10 de julho de 1994, no bairro de Santa Teresa, na cidade do Rio de Janeiro.

Quando Lélia era criança, sua família instalou-se no Rio, na favela do Pinto, bairro do Leblon, ao lado do Clube de Regatas do Flamengo, onde jogava (e depois foi técnico) seu irmão, Jaime de Almeida (nascido em 1920), por quem nutria enorme admiração e nos passos de quem seguiu torcendo pelo Flamengo e gostando muito de futebol. Logo depois, a família mudou-se para o subúrbio, para uma casa em Ricardo de Albuquerque. Pela localização da residência, se percebe que Lélia viajou muito no trem suburbano da Central do Brasil, junto com o "povão" (como dizia), principalmente quando estudou no Colégio Estadual Orsina da Fonseca (ao lado do terminal da Central do Brasil, no centro da cidade) e no Colégio Pedro II (na Av. Marechal Floriano, também próximo a Central do Brasil).

Lélia era a penúltima de 18 irmãos/ãs; filha de pai negro (Acácio Joaquim de Almeida), ferroviário, e mãe índigena (Urcinda Seraphina de Almeida). À medida que irmãs e irmãos iam constituindo novas famílias, Lélia cuidava da mãe, já residindo na Tijuca, até o final dos anos 1960, quando Dona Urcinda faleceu. Casou-se aos 28 anos, para assumir definitivamente o sobrenome Gonzalez.

Nas escolas e nas faculdades (graduou-se em História/Geografia e Filosofia) era reconhecida pela dedicação e inteligência. O catedrático Tarcísio Padilha logo percebeu a capacidade daquela aluna negra e convidou-a para ser sua assistente, no curso de Filosofia, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e, mais tarde, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Como educadora, Lélia lecionou em muitas escolas de nível médio, em faculdades e universidades. Foi professora no Instituto de Educação, no Colégio de Aplicação (UERJ), na rede estadual de ensino.

Segundo a amiga Ana Maria Felippe, era uma das fotos de que ela mais gostava. Acervo pessoal

Pela inteligência e conhecimento que demonstrava na argumentação e por sua capacidade de comunicar e instigar alunos e alunas à reflexão, a professora negra foi muito bem recebida em escolas confessionais, tendo sido, também, professora convidada no Centro de Estudos de Pessoal, do Exército Brasileiro, por alguns anos.

No final dos anos 1960 e início de 1970, Lélia era uma assumida mulher negra: "Essa questão do branqueamento bateu forte em mim e eu sei que bate muito forte em muitos negros. Há também o problema de que, na escola, a gente aprende aquelas baboseiras sobre os índios e os negros; na própria universidade o problema do negro não é tratado nos seus devidos termos."

Foi em 1982 que Lélia escreveu "Lugar de negro", junto com Carlos Hasenbalg. E por que demoraria 12 anos para gritar, por escrito? Porque só em 1982 Lélia teria firmado na escrita que "O lugar natural do grupo branco dominante são moradias amplas, espaçosas, situadas nos mais belos recantos da cidade ou do campo e devidamente protegidas por diferentes tipos de policiamento: desde os antigos feitores, capitães do mato, capangas, etc., até a polícia formalmente constituída. Desde a casa-grande e do sobrado, aos belos edifícios e residências atuais, o critério tem sido sempre o mesmo. Já o lugar natural do negro é o oposto, evidentemente: da senzala às favelas, cortiços, porões, invasões, alagados e conjuntos "habitacionais" (cujos modelos são os guetos dos países desenvolvidos) dos dias de hoje, o critério também tem sido simetricamente o mesmo: a divisão racial do espaço?"

Antes de mostrar na escrita, Lélia mostrava na palavra, na oralidade. Na verdade (para usar uma expressão corrente em sua linguagem), sua proposta sempre foi falada. Quando compreendeu teoricamente a questão da opressão e da exclusão, Lélia continuou fazendo exatamente a mesma trajetória teórica e intelectual que seguia anteriormente, mas, nesse momento, ela se dedica à leitura dos pensadores negros, da história do povo negro, das rainhas negras, lendo e refletindo noite adentro. 

A inteligência e a desenvoltura teórica - que continuou exercendo institucionalmente, como professora na Pontifícia Universidade Católica, até o final da vida, tendo sido eleita Chefe do Departamento de Sociologia, um mês antes - foi posta a serviço da realidade e da necessidade do povo negro e, em especial, das mulheres negras. Lélia passa a ser a grande referência teórica do Movimento Negro (principalmente do novo MN, nos anos 1970, que ajudou a fundar). É a primeira intelectual negra no país. É nessa condição que está citada no Dicionário "Mulheres do Brasil", na Enciclopédia Encarta Africana e, em "Mulheres Negras do Brasil. É nessa condição que tornou-se referência como matrona para grupos de mulheres negras, bibliotecas, salas de leitura, prêmios, escolas, jornadas, seminários, dentre outros, conforme consta na indicação das homenagens em seu site oficial www.leliagonzalez.org.br.

Lélia Gonzalez teve uma trajetória, permanente e irrestrita, na direção do conhecimento. Lia, elaborava e falava. Lia e falava nas línguas espanhola, francesa e inglesa. Pela fala, olho no olho, ela sabia que conhecimento buscar em sua riquíssima bagagem teórica (Filosofia, História, Teoria da Comunicação, Proxemia, Psicologia e Psicanálise, Antropologia, Sociologia, Teoria da Arte e Estética, Teoria dos Objetos, Política e Hermenêutica) para fazer com que o/a interlocutor/a compreendesse a questão "crucial". Ou, no embate político com brancos e brancas, ela buscava o contrapé teórico para dissuadir "brilhantemente" o/a adversário/a teórico/a ou ideológico/a. Sua capacidade de interpretação se mostrou na crítica às ideologias e à hegemonia de dominação (de lógica machista, branca e européia) que sempre forçou o povo negro ao lugar de submissão, de menor condição e capacidade.

Lélia não tinha paciência para a elaboração escrita, nos moldes acadêmicos. "No meu caso, fiz um tipo de escolha, que foi a militância de rua, participando de organizações negras, de seminários. Na medida em que nós, os intelectuais negros orgânicos, somos tão poucos, realmente existe um grande leque de atividades para poder responder às exigências que nos são colocadas.

O universo de conhecimento que Lélia trazia, forçosamente determinado por ela para a transformação do real, muito mais tem a ver com a oralidade africana de Griot, do que com a academia ocidental. Lélia representou uma Griot que conta histórias verdadeiras para seu povo. Ela falava e ensinava não só para preservar a história, mas, principalmente, para resgatar as genealogias, as origens e as tradições de seu povo, para que esse povo compreendesse a lógica da discriminação e alcançasse a consciência, resgatando o orgulho de si mesmo, para a superação da condição de exclusão em que havia sido colocado.

Foi na defesa desse povo que, dentre outras atividades, participou de seminários nacionais e internacionais que duraram, pelo menos, de 1975 a 1989. A necessidade de implementação e transformação, foi reconhecida pela atriz e política Ruth Escobar (presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher - CNDM, do qual Lélia era membro) que a indicou publicamente, em editorial do jornal Folha de São Paulo, para ocupar a vaga do Ministério da Cultura, em 1985.

Entre traduções de livros de filosofia, textos de palestras e "Lugar de Negro", Lélia deixou "Festas Populares no Brasil" premiado na Feira Internacional do Livro, de Leipzig, Alemanha, na categoria "Os mais belos livros do mundo", além de panfletos político-sociais, partidários, engajados, de muita reflexão. Seus escritos, simultaneamente permeados pelos cenários da ditadura militar e da emergência dos movimentos sociais, são reveladores de sua capacidade intelectual e identificam sua constante preocupação em articular as lutas mais amplas da sociedade com a demanda específica dos negros, das mulheres e dos homossexuais. A preocupação com os excluídos vai nortear suas campanhas para cargos públicos, em 1982 (PT, 1a suplente como Deputada Federal) e em 1986 (PDT, suplente de Deputada Estadual), tendo como principais referências as liberdades individuais e as transformações sociais.

Lélia sempre acreditou que uma sociedade solidária e fraterna é possível. Para isso, compreendia como necessário que, além do engajamento na luta política mais ampla, os grupos não dominantes, excluídos do poder, deviam produzir seu próprio conhecimento. Foi em razão disso que se dedicou ao estudo das culturas humanas, especialmente da cultura negra. 

Ressalte-se que muitos de seus escritos e falas (grande parte de sua obra compõe-se de palestras gravadas ou textos), conjugando ciência e política (como poucos brancos e brancas podiam fazer) atuando contra o racismo e outras formas de preconceito, contribuíram para a formação acadêmica e cidadã de muitos dos que com ela conviveram direta ou indiretamente.

Na militância, Lélia participou da criação do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN-RJ), do Movimento Negro Unificado (MNU), em ámbito nacional, do Nzinga Coletivo de Mulheres Negras-RJ, do Olodum-BA, dentre outros. Depois de sua morte, muitos grupos apareceram no país, lançando seu nome, em homenagem. O Movimento Negro tem montado o Quilombo Lélia Gonzalez e Milton Santos nos vários encontros do Fórum Social Mundial. São muitas as referências que continuam sendo feitas a Lélia Gonzalez, em ámbito internacional e nascional. No subúrbio de Olaria (no Rio) o governo do estado deu o nome Lélia Gonzalez a uma escola de nível médio. Raquel Andrade Barreto, mestre pela Pontifícia Universidade Católica-RJ, defendeu a dissertação "Enegrecendo o feminismo ou Feminizando a raça: Narrativas de Libertação em Angela Davis e Lélia Gonzalez" (2005), além de Elizabeth Viana que defendeu dissertação de mestrado na UFRJ, sob o título "Relações raciais, gênero e movimentos sociais: o pensamento de Lélia Gonzalez (1970-1990)" (2006).

Um pouco do pensamento de Lélia Gonzalez:

Construção da identidade:

O importante é procurar estar atento aos processos que estão ocorrendo dentro dessa sociedade, não só em relação ao negro, ou em relação à mulher. Você tem que estar atento a esse processo global e atuar no interior dele para poder efetivamente desenvolver estratégias de luta. ...só na prática é que se vai percebendo e construindo a identidade, porque o que está colocado em questão, também, é justamente uma identidade a ser construída, reconstruída, desconstruída, num processo dialético realmente muito rico. 

Frente Negra Brasileira /e/ a consciência racial no centro urbano:

O primeiro grande movimento ideológico pós-abolição, a Frente Negra Brasileira (1931-1938), buscou sintetizar ambas as práticas (assimilacionismo e prática cultural), na medida em que atraiu os dois tipos de entidade para o seu seio.

Por aí, dá para entender também o sucesso de sua mobilização. Afinal, ela conseguiu trazer milhares de negros para os seus quadros. Precedida pelo trabalho de uma imprensa negra cada vez mais militante, a FNB surgiu exatamente no grande centro econômico do país que era, e é, São Paulo.... Com isso estamos querendo ressaltar o seu caráter eminentemente urbano, uma vez que é o negro da cidade que, mais exposto às pressões do sistema dominante, aprofunda sua consciência racial.

As Escolas de Samba:

O golpe de 1964 implicaria na desarticulação das elites intelectuais negras, de um lado, e no processo de integração das entidades de massa numa perspectiva capitalista, de outro. As escolas de samba, por exemplo, cada vez mais, vão se transformando em empresas da indústria turística. Os antigos mestres de um artesanato negro, que antes dirigiam as atividades nos barracões das escolas, foram sendo substituídos por artistas plásticos, cenógrafos, figurinistas etc. e tal... Os "nêgo véio" da Comissão de Frente foram substituídos por mulatas rebolativas e tesudas. Os desfiles transformaram-se em espetáculos tipo teatro de revista, sob a direção de uma nova figura: o carnavalesco.

A responsabilidade na militância /e/ Candeia:

Papo vai, papo vem, ele (Candeia) nos presenteou com o folheto do enredo para o próximo carnaval: Noventa Anos de Abolição [para a Escola de Samba Quilombo, fundada por ele, junto com Lélia e outros/as, em 1975]. Fora escrito por ele, Candeia, "baseado nas publicações de Edson Carneiro, Lélia Gonzalez, Nina Rodrigues, Arthur Ramos (...), Alípio Goulart"... Surpresa e emocionada, disse-lhe que ainda não tinha um trabalho publicado digno de ter meu nome ao lado daqueles "cobras" (afinal, um artiguinho aqui, outro acolá, e de tempos em tempos, não significava nada). Ele retrucou, dizendo que sabia muito bem do trabalho que eu vinha realizando "por aí" e que isso era tão importante quanto os livros dos "cobras'. E foi aí, então, que me incumbiu de representar o Quilombo no Ato Público (contra o racismo). "Não importa o que você diga, que eu assino embaixo".

Pela primeira vez, para mim, alguém me fazia refletir sobre a responsabilidade que se tem quando se começa um trabalho "por aí".

O aparecimento do Movimento de Mulheres Negras:

Em 1975, quando as feministas ocidentais se reuniam na Associação Brasileira de Imprensa para comemorar o Ano Internacional da Mulher, elas ali compareceram, apresentando um documento onde caracterizavam a situação de opressão da mulher negra. Todavia, dados os caminhos seguidos por diferentes tendências que se constituíram a partir do "Grupão", esse grupo pioneiro acabou por se desfazer e suas componentes continuaram a atuar, então, nas diferentes organizações que se criaram.

Os anos seguintes testemunharam a criação de grupos de mulheres negras (Aqualtune, 1979; Luiza Mahin, 1980; Grupo de Mulheres Negras do Rio de Janeiro, 1982) que, de um modo ou outro, foram reabsorvidos pelo Movimento Negro. Todas nós, sem jamais termos nos distanciados do MN, continuamos nosso trabalho de militantes no interior das organizações mistas a que pertencíamos (André Rebouças, IPCN, SINBA, MNU etc.), sem, no entanto, desistir da discussão de nossas questões específicas junto aos nossos companheiros que, muitas vezes, tentavam nos excluir do nível das decisões, delegando-nos tarefas mais "femininas". Desnecessário dizer que o MN não deixava (e nem deixou ainda) de reproduzir certas práticas originárias de ideologia dominante, sobretudo no que diz respeito ao sexismo, como já dissemos. Todavia, como nós, mulheres e homens negros, nos conhecemos muito bem, nossas relações, apesar de todos os "pegas", desenvolvem-se num plano mais igualitário cujas raízes, como dissemos acima, provêm de um mesmo solo: a experiência histórico-cultural comum. Por aí se explica a competição de muitos militantes com suas companheiras de luta. Mas, por outro lado, por aí também se explica o espaço que temos no interior do MN. E vale notar que, em termos de MNU, por exemplo, não apenas nós, mulheres, como nossos companheiros homossexuais, conquistamos o direito de discutir, em congresso, as nossas especificidades. E isto, num momento em que as esquerdas titubeavam sobre "tais questões", receosas de que viessem "dividir a luta do operariado".

Fotos do Arquivo Januário Garcia /Instituto Moreira Salle

O texto escrito por Ana Maria Felippe esta baseado nas seguintes referências:

1 - O Pasquim (Entrevista), n° 871, 20 a 26/3/1986.

2 - Editora Marco Zero. Até onde podemos saber, a editora não existe mais.

3 - Lélia chegou a ver o modo especial como o "grupo branco", mais tarde, passou a se proteger com o fechamento de ruas, guardadas por vigilantes em guaritas.

4 - Referência explícita a Gilberto Freyre: "Casa Grande e Senzala" e "Sobrados e Mucambos". Lélia conheceu bem os escritos de Gilberto Freyre e não poupava a crítica direta ao "racismo cordial" que consta em sua obra.

5 - O Lugar de Negro, p. 15

6 - No vivido, Lélia sempre teve consciência do que era a opressão e a exclusão.

7 - Nos referimos ao Movimento Negro dos anos 1970 como "novo", para lembrar as lutas anteriores, como a Frente Negra Brasileira - 1931-1938, e o Teatro Experimental do Negro - 1944.

8 - SHUMAHER, Shuma; VITAL BRAZIL, Érico. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2000.

9 - MSN Encarta - African American History - Gonzales, Lélia - "uma mulher afro-brasileira que foi pioneira na política brasileira e nos círculos acadêmicos, no que se refere às causas das mulheres e dos negros. ... É uma figura proeminente na vida intelectual do Brasil nos anos pós 1950. ... destacada como "professora negra"...

Lélia Gonzalez e Angela Davis nos Estados Unidos, em 1984.Acervo pessoal

Ativista dos direitos das mulheres no Brasil, Gonzales realçava a importância da educação para o desenvolvimento das mulheres negras...." (Gonzales, conforme grafado na enciclopédia)

10 - SHUMAHER, Shuma; VITAL BRAZIL, Érico. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2007.

11 - da entrevista concedida à revista SEAF (Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficos), republicada em forma de depoimento, como homenagem, na UAPÊ REVISTA DE CULTURA N.o 2 - "EM CANTOS DO BRASIL" Editora Uapê , março 2000.

Foto: Cezar Loureiro

O Negro Em Cena

O Negro Em Cena

17° Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Outras Diásporas Zózimo Bulbul

Em 2024, O Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Outras Diásporas Zózimo Bulbul chegou com potência máxima, celebrando mais uma edição deste evento que, ao longo dos anos, se tornou uma referência na valorizacão de olhares negros resistentes, proporcionando trocas, conexões e reconhecimento.

Evento de abertura do 17° Encontro de cinema negro chegou com uma representação de Exú, no Cine Odeon, Ailton Krenak, Ana Maria Gonçalves, Laza, Cheick Oumar Sissoko, Biza Viana, Rahmatou Keita e Anice Lawson. Fotos: Ierê Ferreira

Vitor José, Antônio Pitanga, Biza Vianna, Benedita da Silva, Imagem do público, Crianças e pipas com o rosto do cineasta Spike Lee. Ana Maria Gonçalves com os cineastas Joel Zito Araújo e Luiz Antônio Pilar e imagem do telão, equipe, cineastas e público na Cinelândia e no Odeon.

O Negro Em Cena

Com mais de 120 obras de cineastas de vários países, além de atividades formativas em espaços culturais de excelência como o Cine Odeon, Museu do Amanhã e Museu de Arte do Rio o encontro cresceu e está cada vez mais forte e cumprindo o objetivo sonhado pelo seu criador Zózimo Bulbul que era “a valorização da cultura africana num intercâmbio de conhecimentos.

Acredito que o Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Outras Diásporas Zózimo Bulbul sempre foi e sempre será um portal mágico de idas e vindas nas trocas de ideias imagéticas de narrativas costuradas pela sétima arte. Sou um cidadão Afrocarioca de Cinema graças aos ensinamentos do mestre Zózimo Bulbul. Parabéns a toda a organização do maior encontro de cinema negro da America do Sul.

Imagens  do público no Odeon, as apresentadoras do encontro Ella Fernandes, Dani Ornellas a percucionista Andrea Café e Pâmela Carvalho. A equipe de pesquisa do LEC-UFF e o coordenador Júlio Cezar Tavares.

Os homenageados: Ana Maria Gonçalves, António Pitanga, Ailton Krenak e Cheick Oumar Sissoko.

Fotos: Irei Ferreira

O Negro Em Cena

Luiz Melodia Uma Pérola Negra

Ao pesquisar o significado do nome Luiz, o primeiro resultado que apareceu foi GUERREIRO FAMOSO OU CELEBRE. Então vamos celebrar Luiz Melodia e a sua poesia.

Quem não respirar ar, ar

Com a força da certeza

Vai voar, vendaval

Bata com a cabeça.

Assim dizia o poeta na música “Bata com a cabeça” do álbum Mico de Circo de 1978 gravadora Som Livre.

Luiz Carlos dos Santos nasceu no Rio de Janeiro em 07/01/1951. Mais conhecido como Luiz Melodia, foi um ator, cantor, e compositor de MPB, rock, soul, blues e SAMBA. Filho do sambista e compositor Oswaldo Melodia, de quem herdou o nome artístico, cresceu no morro do São Carlos, no bairro do Estácio, região periférica da Pequena África.

Lançou seu primeiro LP em 1973, Pérola Negra.

 

Tente passar pelo o que estou passando

Tente apagar este teu novo engano

Tente me amar, pois estou te amando

Baby, te amo

Nem sei se te amo

Tente usar a roupa que estou usando

Tente esquecer em que ano estamos

Arranje algum sangue

Escreva num pano

Pérola Negra, te amo, te amo!

 

No "Festival Abertura", competição musical da Rede Globo, conseguiu chegar à final com sua canção "Ébano".

 

Meu nome é Ébano

Venho te felicitar sua atitude

Espero de te encontrar com mais saúde

Me chamam Ébano

O novo peregrino sábio dos enganos

Seu ato dura pouco tempo se tragando

Eu grito Ébano

O couro que me cobre a carne não tem planos

A sombra da neurose te persegue há quantos anos?

Começou sua carreira musical em 1963 com o cantor Mizinho, ao mesmo tempo em que trabalhava como tipógrafo, vendedor, caixeiro e músico em bares noturnos. Em 1964 formou o conjunto musical Os Instantâneos, com Manoel, Nazareno e Mizinho. Melodia passou a adolescência compondo e tocando sucessos da jovem guarda e bossa nova, com o grupo que tinha formado com amigos. Essa experiência, juntamente com a atmosfera em que vivia do tradicional samba dos morros cariocas, resultaram em uma mescla de influências que renderam a Luiz Melodia um estilo único, que chamou a atenção de um assíduo frequentador do morro do Estácio, o poeta Wally Salomão, além de Torquato Neto.

Através de Wally, Gal Costa acabou conhecendo um de seus compositores prediletos, o que resultou na gravação de “Pérola negra” no disco “Gal a todo vapor” de 1972. Pouco depois era vez de “Estácio, Holly Estácio”, ganhar sua interpretação na voz de  Maria Bethânia. Foi nesta época que o artista assumiu então o nome de Luiz Melodia apropriando-se do sobrenome artístico de seu pai Oswaldo e lançou, no ano seguinte (1973), seu primeiro e antológico disco “Pérola Negra”. Sua postura, porém, mantinha a mesma irreverência e inquietude da do garoto que tocava iê-iê-iê nos berços de samba carioca, que lhe rendeu um estilo musical inconfundível, assim como críticas que o consideravam um artista “maldito”, ao lado de nomes como Fagner e João Bosco, que afirmou:

“Não éramos pessoas que obedeciam. Burlávamos, pode-se dizer assim, todas as ordens da casa, da gravadora; rompíamos com situações que não nos convinha. Sempre acreditei naquilo que fiz e faço.”

Luiz Melodia, Trik e Seu Jorge,

Músicos: Rodrigo Jesus, Huberto Araújo, Luiz Melodia, Netinho Albuquerque, Alexandro Cardoso, Alexandre Maioneze, Silvério Pontes, Charles da Costa e Renato Piau. Eu e Melodia, Omara Portando, Mart'nália e Maria Bethânia.

Fotos: Ierê Ferreira

Sua carreira acabou por consolidar-se no disco seguinte, “Maravilhas contemporâneas” (1976). Naquele disco, o poeta chegou com a música congênitos.

 

Se a gente falasse menos

Talvez compreendesse mais

Teatro, boate, cinema

Qualquer prazer não satisfaz

Palavra figura de espanto, quanto

Na terra tento descansar

Mas o tudo que se tem

Não representa nada

Tá na cara

Que o jovem tem seu automóvel

O tudo que se tem

Não representa tudo

O puro conteúdo é consideração

 

Nas décadas seguintes, Melodia lançou diversos álbuns e realizou shows no Brasil e na Europa. Em 1987, apresentou-se em Chateauvallon, na França, e em Berna, Suíça. Em 1992, participou do "III Festival de Música de Folcalquier", na França, e, em 2004, do Festival de Jazz de Montreux, à beira do Lago Leman, onde se apresentou no Auditorium Stravinski, palco principal do festival.

Em 2015, ganhou o 26º Prêmio da Música Brasileira na categoria Melhor Cantor de MPB.

Único filho homem de Oswaldo e Eurídice, descobriu a música ao ver o pai tocando em casa. Apesar da precoce afinidade com a música, Luiz acabou contrariando seu pai, que sonhava vê-lo formado como doutor. No início ele não o apoiava, mas, não adiantava, até porque as coisas foram acontecendo e quando seu pai faleceu, Luiz sabia que tinha perdido um grande fã. Hoje, a poesia do Melodia sustenta relações de amores de novelas com todos os seus ingredientes.

O Negro Em Cena

Eu vi na rua

O seu coração sozinho

Estava bem no meu caminho

Eu não pude evitar

Tava fraquinho

Suplicando por carinho

Cravejado de espinhos

Uma cena de chorar

 

Trecho de Cura, canção de Luiz Melodia

 

Já conhecido do público e tendo alcançado seu espaço no cenário da MPB, Luiz Melodia lançou em 1980, o disco “Relíquias” e em 1985, fez uma releitura com novos arranjos para sucessos como “Ébano” e “Subanormal”. Já no registro intimista e intenso de “Acústico ao vivo” (1999), Melodia passeia novamente por sua obra, agora através da espontaneidade de um disco gravado durante sua turnê nacional, considerado sucesso de público e crítica.

18090 Betania no Vivvo Rio_edited.jpg
36209 Melodia no Tom Jobim_edited.jpg

Se alguém quer matar-me de amor

Que me mate no Estácio

Bem no compasso, bem junto ao passo

Do passista da escola de samba

Do Largo do Estácio.

O músico nos deixou na madrugada do dia 4 de agosto de 2017 e foi na quadra da Escola de Samba Estácio de Sá que eu e meu amigo Paulinho Sacramento fomos juntos a outros fãs cantar suas canções para ele seguir em paz para o Orum.

Luiz Melodia cumpriu sua missão com Louvor.

O Negro Em Cena

Vim de lá

Vim da praça mistério da raça, cachaça pra se beber

Se beber, qualquer um

No enredo da graça nós somos cachaça pra se beber

Se beber, lá do sul

Eu frequento Ipanema, sistema, cachaça pra se beber

Se beber

No sonho dos meus sonhos

Quando eu sonho, o mundo está pra se acabar

No fato, no relato

Quando eu faço, o mundo está pra se acabar

Quem não pisa na terra, não sente o chão

Luz é vida, é pulsação

Fotos: Ierê Ferreira

 

Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

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