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A Marcha das  Mulheres Negras

Por: Ierê Ferreira​

O Cinema de

Emílio Domingos em entrevista

O Quilombo da Cia dos Comuns

Por: Ierê Ferreira

“Simplesmente porque sou a filha da dona Lecy”

Por: Iara Brandão Ferreira

Editorial

Chegamos a nova edição com o poder e a inteligência das mulheres negras que cantam e também denunciam as forças que não querem a paz, já dizia Leci Brandão homenageada na capa desta revista que também traz retratos da Marcha das Mulheres Negras.

 

Vamos saber um pouco mais sobre “O Cinema de Emilio Domingoes" na entrevista.

E fechamos a nossa trilogia teatral com O Quilombo da Cia dos Comuns.

 

Sejam muito bem-vindos e façam uma boa viagem.

 

Editor e fotógrafo: Ierê Ferreira

Colunista e revisora: Sylvia Arcuri

Colunista: Iara Brandão Ferreira

Colaboradora: Daniele da Silva Araújo

 

Revista O Negro Em Cena

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O Negro Em Cena

A Marcha das Mulheres Negras

Texto e fotos: Ierê Ferreira

A face negra da marcha mais digna em sua luta é linda e possui a força de um exército cheio de poder! Candace, nesses momentos, chora ao ver que suas batalhas não foram em vão. É pela ancestralidade, pela bisavó, avó, mãe, filhas e netas. É por todos nós que as mulheres negras marcham, cantando orações, poesias e rezas que as dão mais poder, construindo novas utopias e propondo alternativas ao modelo de desenvolvimento que temos hoje.

“São todas descendentes e herdeiras da luta e da resistência negra contra o criminoso sistema de escravidão que sequestrou, estuprou e matou tantas Cláudias e Marielles, e ainda não acabou.”

Se a luta continua, é nesta infantaria que devemos nos alistar, voluntários e solidários, somando força e energia, carregando essa bandeira e aprendendo a ser um filho, um pai, um avô, um amigo melhor. Um soldado firme na missão.

A Marcha das Mulheres Negras foi idealizada em 2011 no Encontro Ibero-Americano do Ano dos Afrodescendentes, que aconteceu em Salvador, e promovida por várias entidades ligadas ao movimento negro. O objetivo é aglutinar o máximo de organizações de mulheres negras, assim como outras instituições do Movimento Negro e da sociedade que apoiam a equidade sociorracial e de gênero.

 

fonte: http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/marcha-das-mulheres-negras#:~:text=A%20Secretaria%20de%20Educa%C3%A7%C3%A3o%20Continuada,racial%20no%20%C3%A2mbito%20do%20MEC.

 

A manifestação no Rio de Janeiro é organizada pelo Fórum Estadual de Mulheres Negras - RJ e conta com a participação de diversos coletivos.

Retratos da Marcha

O Negro Em Cena

O Cinema de Emílio Domingos

Por Ierê Ferreira

 

Emílio Domingos é carioca, cineasta, pesquisador, roteirista, cientista social e produtor.

Emílio atua principalmente na área de documentários.

Graduou-se em Ciências Sociais pela UFRJ com ênfase em Antropologia Visual, Cultura Urbana e Juventude. Mestre pelo Programa de Pós Graduação em Cultura e Territorialidades da UFF e é curador e mediador do Documenta-se Cineclube. Atualmente, é professor da disciplina: Pesquisa, Argumento e Roteiro na Pós-graduação em Cinema Documentário da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) e pesquisador associado ao GRUA, Grupo de Reconhecimento de Universos Artísticos/Audiovisuais, da UFRJ. Também foi curador da Mostra Internacional do Filme Etnográfico e do Festival Visões Periféricas.

Como diretor, realizou os longas: Favela é Moda, vencedor do prêmio Melhor Longa-metragem Documentário de Voto Popular no Festival do Rio (2019); Deixa na Régua, vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cinema do Rio (2016); A Batalha do Passinho; vencedor da Mostra Novos Rumos do Festival do Rio (2012); L.A.P.A., Melhor Filme no Festival Câmera Mundo, na Holanda (2008).  Dirigiu 14 curtas, além dos videoclipes Alteração (ÉA!) de BNegão e os Seletores de Frequência; Para Onde Irá Essa Noite, Cira, Regina e Nana e Músico, de Lucas Santtana; e Dali de Marcelo Yuka. Para a TV, foi Diretor Geral da série “Enigma da Energia Escura” (GNT), na qual também dirigiu o episódio “Eu Falei Faraó – Cultura e Resistência” e o longa “Black Rio! Black Power!”, sobre os bailes de soul dos anos 1970 no Rio de Janeiro.

Fonte: http://osmosefilmes.com.br/site/?page_id=584

 

Nós, da Revista O Negro Em Cena, queremos saber mais sobre as suas produções cinematográficas.

No filme L.A.P.A., você entrevistou e acompanhou um pouco a trajetória dos personagens, em diversos ambientes e condições com luzes diferentes. Nesse projeto você trabalhou com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça ou tinha um planejamento roteirizado e uma equipe?

Emílio:

O L.A.P.A teve uma preparação e escaleta. Já conhecia o universo do filme porque eu frequentava a Lapa, a festa Zoeira, a Batalha do Real, então estávamos falando de algo muito próximo a mim. Conhecia aquelas pessoas e os assuntos e dessa maneira conseguimos organizar, pensar quais seriam os personagens e ações. Teve todo um planejamento mesmo, não foi só câmera na mão e ideia na cabeça. Todos os filmes possuem equipe, gosto de trabalhar com equipe reduzida. No L.A.P.A trabalhamos com dois amigos, fotógrafos excelentes: o Paulo Castiglione e o Thiago Scorza.

 

Revista O Negro Em Cena:

Sabemos que a maioria dos seus projetos tem a música como elemento estrutural das histórias dos seus personagens e você como lida com a música no seu dia a dia?

Quais dificuldades você encontrou para inserir a música em seus filmes e como você escolhe os temas para as cenas?

Emílio:

Realmente, os meus filmes têm muita relação com a cultura, com a música. Eu gosto muito de música. Fui DJ por 13 anos, numa festa (a Phunk!), tive banda, etc. Tenho uma relação grande com música, coleciono discos, escuto muito no dia a dia. Mas, em relação aos filmes, eu não fico pensando em inserir música. Elas já fazem parte do que está sendo filmado. Então as coisas se complementam. A imagem e o som. Não coloco músicas aleatoriamente. Na maioria dos filmes, as músicas estão sendo tocadas, fazem parte do ambiente. No caso dos filmes mais recentes, Black Rio! Black Power! e Chic Show, inserimos porque tem relação direta com o que está sendo filmado: músicas que tocavam nos bailes da época.

 

Revista O Negro Em Cena:

No longa Favela é Moda, os personagens estão em busca de seus sonhos que é figurar no mundo da moda rompendo as barreiras dos preconceitos. Você acredita que favela é moda? O que você acha da afirmação: a favela venceu?

 

Emílio:

A moda é o universo em que esses personagens se expressam e a relação que têm com a moda é intensa e bonita. É a forma de se relacionar com o mundo, de expressar o pensamento e o jeito de ser.

O título tem uma certa ironia de que favela é moda, na verdade é uma brincadeira, porque o nome da agência é Jacaré Moda. Existe um certo modismo falar da favela nos últimos anos. Muita gente que a ignorava passou a querer filmá-la. Tivemos a onda dos favela-movies que abordavam esse território sobre o aspecto da violência. Mas acho que o filme tem uma densidade para além do duplo sentido. Mostra como uma agência oriunda do Jacarezinho se posiciona diante do mercado da moda. Acho que essa frase “ a favela venceu” é genérica. Geralmente expressa uma vitória individual. Não é muito adequada, porque a gente vive e vê a realidade das favelas que é muito difícil. Falta de saneamento básico, de luz, de água, enfim, são condições muito adversas. Essas conquistas individuais são importantes, mas não representam conquistas coletivas.

Infelizmente, a realidade da favela continua sendo dura. É importante pensarmos em transformações estruturais, em conquistas de direitos básicos, sem tirar o reconhecimento das pessoas que conseguem conquistas individuais, porque são simbólicas também.

Revista O Negro Em Cena:

Depois de todos esses anos de experiências com filmes que lidam diretamente com a cultura popular das favelas e periferias, você ainda acredita que este cinema pode derrubar os muros, sem apelar para a violência que a sociedade espera e quer entre nós?

 

Emílio:

É importante mostrar o cotidiano do nosso povo de maneira afirmativa, para além desses estereótipos de violência, que tentam imprimir. A violência existe, ela permeia essa realidade, mas acho que a vida das pessoas é muito mais ampla do que isso. A maioria avassaladora da favela não é de pessoas violentas.

Acho que os que detêm o poder armamentício na favela é que são violentas. Que detêm um negócio e que nesse duelo com a repressão do Estado, da polícia, nessa guerra, acabam gerando um momento de muita tensão dentro das favelas, mas as favelas são habitadas por moradores, por pessoas que têm muita criatividade na vida e que levam a vida com muito esforço, acho que é importante mostrar isso no cinema brasileiro que precisa mostrar os brasileiros, a população brasileira, e boa parte dela está na favela criando formas de sobrevivência e de se relacionar em sociedade, então é uma forma de pensar o Brasil, pensar a favela e a realidade das pessoas que moram nela.

 

Revista O Negro Em Cena:

No longa Deixa na Régua, você trabalha com planos fechados, entrando bem na intimidade dos personagens, essa abordagem encontrou resistências ou fluiu com tranquilidade?

 

Emílio:

O Deixa na Régua foi um grande desafio, é um filme realmente muito íntimo em que fomos construindo a relação com os frequentadores do salão. Tivemos que escolher os três salões filmados, um trabalho de pesquisa grande, que durou três anos. O filme é resultado dessa intimidade e amizade que se criou durante o período, dessa relação com os barbeiros que ajudaram muito nessa mediação com os clientes. No início eu fui muitas vezes aos salões sem câmera antes de começarmos a filmar. Chegar num salão com uma câmera é delicado. De certa maneira é estabelecer uma quebra no hábito das pessoas, conseguir aquela naturalidade foi bem difícil, os primeiros dias de filmagem eram difíceis, mas com a mediação dos barbeiros e com o apoio dos clientes que admiram esses barbeiros, conseguimos filmar e ter essas pessoas “atuando” de maneira espontânea, foi um grande

desafio. No período das últimas filmagens, as pessoas estavam super à vontade, mas não tínhamos mais orçamento para filmar.

 

Revista O Negro Em Cena: 

No Filme Batalha do Passinho, o personagem Gambá foi cruelmente espancado ao sair de um baile  e infelizmente não resistiu. Como você encarou essa questão tão delicada?

 

Emílio:

O Batalha do Passinho surge de um encantamento com essa cultura, com essa arte, da percepção de como ela estava modificando a vida daqueles jovens, do quanto eles estavam envolvidos com aquilo. O passinho revelava toda a sofisticação da dança e dessa cultura, originada nas favelas que é o funk. Foi um baque muito grande, um baque pessoal, perder o Gambá que era um dos protagonistas do filme ao lado do Cebolinha, me deixou muito desesperançoso, ocorreu três meses após o início das filmagens. Pensei em desistir de fazer o filme, mas graças ao apoio de várias pessoas, tanto da minha equipe quanto dos dançarinos, demos continuidade ao filme. Essa solidariedade foi muito importante, porque perder o Gambá foi bem desanimador, foi muito difícil voltar a filmar. Não tinha como não tocar nesse assunto no filme. O documentário pretendia mostrar a vida e a arte de quem faz o passinho. Essa vida é sempre permeada, para quem mora aqui no Rio de Janeiro, pela violência, o filme é atravessado por isso. Tínhamos que falar da barbárie que aconteceu com ele e que acontece diariamente com centenas de jovens negros de favela. Então eu não queria, mas não tinha como deixar de tocar nesse assunto. Tínhamos perdido alguém que era próximo e que simbolizava uma esperança de mudança de vida através da arte.

 

Revista O Negro Em Cena: 

Black Rio Black Power, talvez seja o seu filme de maior audiência e versa sobre um movimento de auto-afirmação do negro no Brasil através da música negra americana que foi descurtinada pelo ativista Dom Filó e aliados em plena ditadura militar. Qual a importância desse filme na sua carreira e como ele pode influenciar nas políticas de combate ao racismo?

Emílio:

Black Power é um filme que resulta de muitas pesquisas. Me interesso pelo funk e hip hop há muito tempo. Me envolvo, é uma coisa que faz parte da minha vida, não só como estudo, mas como cotidiano. O Black Rio! Black Power! trata desse período inicial da cultura dos bailes aqui no Rio de Janeiro. O Dom Filó é uma figura fundamental, ele e sua equipe Soul Grand Prix, tiveram um trabalho muito significativo. Têm uma importância enorme no desenvolvimento da cultura dos baile de soul music, fizeram uma verdadeira revolução, influenciaram com uma mentalidade de afirmação do negro, durante a ditadura militar, nos anos 1970, um período de muita repressão. E tomaram a indústria fonográfica, tiveram grande força, sofreram golpes e apagamento. Havia uma grande lacuna em termos de registros dessa história, e o filme tenta ser uma contribuição para recontá-la. Acredito que o público, ao ver o filme, fica sensibilizado com a história do negro no Brasil. Com a perseguição, violência sofrida e o racismo cotidiano. Acho que o filme fala disso, mostra o quanto a população negra sempre tentou se organizar. É um filme que mostra a força da coletividade dos bailes, para além da festa. Mostra o baile como um espaço de resistência. Espero que realmente o filme possa influenciar de alguma forma. Só o fato de informar já é uma contribuição. É importante que a geração atual conheça sua história. o Black Rio marcou e transformou muito do que veio depois em relação ao Brasil contemporâneo, em relação à história do negro.

 

Revista O Negro Em Cena:

Você acha que as políticas públicas de hoje são favoráveis às produções populares da sétima arte?

 

Emílio:

Fazer cinema no Brasil nunca foi fácil, eu sou quase uma exceção à regra, assim como muitos companheiros, cinema historicamente é uma arte de pessoas que têm condições econômicas muito distintas da minha, que vem de uma origem social distinta da minha, então é difícil falar que está favorável às produções populares, porque tem muita gente tentando fazer filmes. Os editais são bem difíceis, competitivos e

muitas vezes esses temas que filmo não são tidos como importantes. Há uma democratização no sentido que alguns editais pontuam o fato dos diretores serem negros e da equipe ser formada por mulheres, etc, então há uma busca por um equilíbrio nisso, mas ainda é muito desigual.

 

Revista O Negro Em Cena:

Quais são seus planos sequência para os próximos anos e, na sua visão, qual será o futuro do cinema brasileiro a médio prazo?

 

Emílio:

O cinema vive um momento extremamente delicado, principalmente quem faz filmes independentes, mas há uma certa esperança no ar, já que existe uma expectativa em relação à cota de tela que foi aprovada e que deve ser exercida em breve. Uma expectativa de que tenhamos mais filmes brasileiros nas salas de cinema, acho que isso deu uma certa esperança. Mas continua sendo muito difícil produzir filmes no Brasil, ainda é um período de incerteza. Amo fazer cinema, e enquanto for possível, vou continuar.

 

Desde já agradecemos, desejamos sucesso e AXÉ GRANDÃO sempre. 

Fotos  do arquivo  de Emilio Domingos

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O Negro Em Cena

“Simplesmente porque sou a filha da dona Lecy”

 

Na revista O Negro em Cena desse mês me proponho a descrever a trajetória de Leci Brandão, artista que eu conheci através dos sambas que ouvia quando criança junto com o meu pai e através do acervo fotográfico concebido por ele no projeto “Samba identidade nossa”. Nossa homenageada da vez é cantora, compositora e deputada estadual, que vai completar 80 anos neste setembro de 2024. São muitos anos de uma trajetória de luta não apenas em prol da cultura negra, mas pelas mulheres negras deste país. Leci Brandão é uma inspiração para muitas mulheres negras, por isso, escolhemos o mês dos seus 80 anos para exaltar essa figura tão importante para nós.

Nascida em 12 de setembro de 1944, Leci foi batizada com o mesmo nome de sua mãe, dona Lecy de Assumpção Brandão. Sua mãe era servente em escolas públicas e, boa parte das vivências que Leci teve na infância estavam ligadas ao trabalho de sua mãe. Ela conta um pouco de sua relação com a mãe e a importância que ela tem na sua carreira em uma música que compôs em homenagem a ela, lançada em 2008. Nos últimos versos da música, ela diz:

“E se tenho educação

e se hoje estou aqui

Simplesmente porque sou a filha da dona Lecy

e se eu for a sensação

E o sucesso explodir

eu jamais vou deixar de ser filha da dona Lecy”

 

A influência musical de Leci em sua vida teve origem em seu pai, Antonio Francisco da Silva, cuja paixão por discos de vinil abrangia uma vasta gama de estilos, desde ópera até samba e chorinho. Aos domingos, reuniam-se para explorar essas diversas musicalidades, o que deixou uma marca profunda em seu gosto musical desde a sua infância. O pai de Leci Brandão também era funcionário público, trabalhava no setor administrativo do Hospital Souza Aguiar, no centro da cidade. Mesmo sendo uma família pobre, seus pais tinham empregos estáveis, o que garantia o sustento e alimentação da família. 

Como seus pais trabalhavam fora de casa, até os seus quatro anos Leci foi cuidada por uma vizinha portuguesa - dona Esther - que apresentou a ela um pouco da cultura de seu país. Durante esse período, moravam em uma “casa de cômodos” na rua Senador Pompeu, perto da Central do Brasil. As casas de cômodo, chamadas, geralmente, de “cortiços”, eram casas que eram divididas por várias famílias, na qual cada uma delas habitava/alugava um dos quartos. Nessa configuração, a família de Leci possuía muitos vizinhos.

Quando saíram desse endereço, foram morar na Abolição, bairro da zona norte carioca, mas como dona Lecy trabalhava na Escola Municipal Equador, em Vila Isabel, era nesse bairro que a cantora passava a maior parte do tempo, seja estudando na mesma escola que sua mãe trabalhava, ou sendo cuidada por sua avó, que morava no mesmo bairro. A família enfrentou diversas mudanças de moradia, incluindo períodos residindo em casas cedidas dentro das escolas que sua mãe trabalhou, como a Escola Equador, a Escola Municipal Arthur Azevedo (na Pavuna) e a Escola Municipal Nicarágua (em Realengo). Na escola de Realengo, ajudou sua mãe com tarefas como limpeza de salas de aula e vendas de lanches para sustentar a família.

Foi como estudante da escola Equador que Leci Brandão teve a sua primeira percepção sobre o racismo, aos 11 anos. Sua mãe descobriu que a menina havia ganhado um concurso de redação e poderia ter ganhado uma medalha do embaixador do Equador no dia em que a escola homenageou o país que a nomeava, mas o prêmio foi entregue ao segundo lugar.

Alguns professores da escola preferiram dar o prêmio para uma menina branca, filha de uma das docentes da escola, e não para a menina negra, filha da servente. Como “compensação”, a professora que lecionava na turma que Leci era aluna, a colocou como guarda-bandeira no dia do evento.

Após concluir o Ensino Fundamental, Leci ingressou no Colégio Pedro II, uma das mais tradicionais instituições públicas do país até hoje. Lá, estudava no turno da noite e, como a escola era bastante elitizada na época, era a única aluna negra de sua turma. Usou sua habilidade musical para se integrar com os demais alunos, que vinham de uma realidade social completamente diferente da dela, criando paródias de músicas populares para as eleições do grêmio estudantil e compartilhando suas preferências musicais com os colegas de turma. Leci usou a música como uma ponte entre diferentes realidades sociais, buscando seu espaço em um ambiente muitas vezes hostil, desigual e racista. Aos 19 anos, a perda de seu pai agravou a situação financeira da família, pois sua mãe não recebeu pensão devido a questões burocráticas. Leci enfrentou a dificuldade de encontrar emprego, muitas vezes barrada pelo racismo, apesar de sua formação no Colégio Pedro II. Eventualmente, conseguiu seu primeiro emprego em uma empresa de processamento de dados, graças à ajuda de amigos que fez durante seus anos escolares e, a partir daí, passou a trabalhar e estudar.

Leci Brandão começou sua trajetória na música na década de 1960, dedicando-se até hoje ao samba, gênero que se tornou sua marca registrada. A primeira canção que escreveu, chamada "Tema do Amor de Você", foi inspirada por uma decepção amorosa e tinha o estilo bossa-nova. Embora nunca tenha sido gravada, essa composição marcou o início de vida como compositora. Desde então, Leci passou a compor regularmente e suas letras refletem situações do cotidiano e observações do seu entorno. Seus amigos muitas vezes a consideravam uma compositora de músicas com forte teor de protesto. Ainda como estudante do Pedro II, recebeu um convite para se apresentar em um show organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) na praia do Flamengo, o que lhe trouxe visibilidade e convites para participar de festivais musicais. 

Em 1968, Leci participou de um festival no programa "A Grande Chance" da TV Tupi, onde se destacou. No mesmo ano, passou em um processo seletivo para trabalhar na empresa Telefônica, como atendente de consertos. Como ela teve bastante destaque no festival de música, a empresa a prometeu uma promoção por ser tão talentosa. No entanto, apesar do reconhecimento por sua performance, a promessa de promoção na empresa não foi cumprida porque ela não conquistou o primeiro lugar no festival. Ela deixou o emprego e passou a trabalhar em uma fábrica em Realengo, testando a qualidade de balas de festim.

O trabalho da cantora na fábrica não durou muito tempo. Sua mãe, em uma ida à Secretaria de Educação por motivos de trabalho, conversou com uma funcionária da instituição por ela ter questionado a assinatura de dona Lecy, perguntando se ela era parente da cantora do festival da TV, confirmando que era sua mãe, a funcionária disse que sua filha, ao cantar na televisão, tinha chamado a atenção da filha do Ministro Gama Filho, que havia se emocionado com a apresentação de Leci e tinha o desejo de conhecê-la. Esse encontro a levou a uma oferta de trabalho na Universidade Gama Filho, na qual a sambista não só trabalhou durante bastante tempo, como iniciou a faculdade de Direito.

Durante a sua experiência na Universidade Gama Filho, Leci entrou em contato com professores, estudantes e intelectuais que a encorajaram a seguir sua carreira musical. Uma das grandes influenciadoras foi Lélia González, antropóloga que lecionava na universidade, que era figura central no Movimento Negro e de mulheres negras no Brasil. Com essas influências, Leci passou a compreender melhor o cunho social de suas composições. Quando a seleção brasileira ganhou a Copa do Mundo de 1970, promoveram uma roda de samba no refeitório da universidade, onde cantou várias músicas e conheceu um amor que, embora não tenha tido um final feliz, a inspirou a se dedicar ainda mais à música apresentando-lhe obras de cantores nacionais e internacionais. Uma característica marcante de Leci Brandão é o seu amor pela escola de samba Estação Primeira de Mangueira, com a qual tem uma conexão profunda. As mulheres da família de Leci eram todas mangueirenses e Leci não poderia ser diferente. Embora nunca tenha morado na Mangueira, frequentava a favela desde criança, porque sua madrinha morava lá. Em alguns domingos, ia almoçar na casa da madrinha e assistia aos ensaios da escola de samba. Em 1970, Leci se apresentou no I Festival de música da Universidade Gama Filho, ficando em segundo lugar ao cantar “Cadê Mariza”, posteriormente gravada em seu primeiro LP. A repercussão da música foi tão boa, que o tesoureiro da ala de compositores da Mangueira e amigo de sua madrinha, Zé Branco, teve a ideia de levá-la para compor a ala. A  cantora levou uma carta ao local onde a ala se reunia, dizendo que queria se candidatar a uma vaga na ala de compositores e que considerava a Mangueira a “Universidade do Samba”. A resposta da ala, composta por 40 homens, foi que ela teria que passar por uma espécie de “estágio”, compondo sambas e participando dos ensaios. Leci passou no estágio e desfilou pela Mangueira pela primeira vez dois anos depois. Sua entrada na ala de compositores da Mangueira foi um marco, tornando-se a primeira mulher a ser reconhecida como compositora dentro da escola de samba. Isso foi particularmente significativo, já que as mulheres que cantavam na Mangueira, até então, participavam como pastoras no coro. Em 1974, Leci começou a se apresentar regularmente no Teatro Opinião, um espaço cultural importante para a resistência contra o regime militar no Brasil, onde compartilhou o palco com outros sambistas como Dona Ivone Lara em um evento chamado “Noitada do Samba”. Esse período marcou uma fase de consolidação de sua carreira artística, culminando em convites para eventos como o festival "Abertura" da Rede Globo em 1975, onde alcançou a final com a música "Antes que eu volte a ser nada". O crítico musical e jornalista Sérgio Cabral, conheceu Leci, a convidou para gravar um disco e para participar do show “Unidos do Pujol”, em Ipanema. Neste show participaram também Dona Ivone Lara e Alcione. No mesmo ano, ela gravou o primeiro LP, intitulado “Antes que eu volte a ser nada”.

Com o crescimento de sua carreira, assinou contrato com a gravadora Polygram e lançou seu segundo LP, "Questão de Gosto", em 1976. No ano seguinte, lançou seu terceiro LP intitulado "Coisas do Meu Pessoal". A música "Ombro Amigo", deste álbum, fez parte da trilha sonora da novela "Espelho Mágico" da Rede Globo, ampliando sua  visibilidade nacional. Isso a levou a ser convidada por Martinho da Vila para participar do projeto "Seis e Meia" no Teatro João Caetano.

O sucesso de seus shows exigiu a formação de sua própria banda, para atender à demanda crescente por suas apresentações ao vivo. Em 1978, Leci estreou no projeto Pixinguinha ao lado de Joel do Bandolim e do Grupo Chapéu de Palha. Em maio do mesmo ano, embarcou para a França a convite de Martinho da Vila, onde se apresentaram no Teatro Morgador em Paris, ampliando suas fronteiras musicais para além do Brasil. No final de 1978, lançou seu quarto LP , "Metades". O ano de 1980 marcou a saída de seu quinto LP, "Essa Tal Criatura". Leci foi finalista do festival MPB 80 da Rede Globo com a música de mesmo nome, realizando um show de lançamento no Teatro Opinião. Em novembro do mesmo ano, foi escolhida para representar o Brasil no prestigioso World Popular Song Festival no Japão, destacando-se internacionalmente. Entretanto, em 1981, a cantora enfrentou um momento desafiador ao rescindir seu contrato com a Polygram por motivos ideológicos. A gravadora não aceitou suas composições que abordavam temas sociais. Mesmo que ela não se coloque como uma mulher militante de nenhum movimento social, a militância e a política sempre acompanharam a carreira da cantora. Em canções como "Zé do Caroço", escrita por ela em 1978, mas gravada apenas em 1985, Leci expressa sua luta a favor da população negra, especialmente os mais pobres e moradores de favelas, denunciando as condições de vida no Brasil. Além do forte posicionamento antirracista em sua obra musical, a cantora também é engajada na defesa dos direitos das mulheres e da democracia. Esse período representou cinco anos sem lançamentos discográficos, durante os quais Leci continuou sua carreira musical sem o suporte de gravadoras, mas mantendo-se ativa através de apresentações ao vivo e participações em eventos culturais. Era convocada para cantar em todos os eventos promovidos por sindicalistas, estudantes, partidos de esquerda, movimentos de mulheres e principalmente o Movimento Negro. Participou de movimentos como o Movimento Diretas Já no fim da Ditadura Cívico-Militar, e foi convidada para a I Jornada Cultural Lélia Gonzáles em 1996, no Maranhão, que contou com a presença da ativista Angela Davis.

Após um período de cinco anos sem gravar, assinou contrato com a gravadora Copacabana e lançou o álbum homônimo "Leci Brandão". Este disco não só expandiu sua audiência para além das elites, alcançando as classes populares, como também marcou sua mudança para São Paulo, onde encontrou um ambiente mais propício para desenvolver sua carreira. Em 1985, gravou “Isso é Fundo de Quintal”, música também de sucesso. Em 1995, durante o carnaval, foi a intérprete do samba-enredo da Académicos  de Santa Cruz e recebeu o  Prêmio Sharp pelo álbum "Anjos da Guarda". Repetiu o prêmio em 2008, pelo CD “Eu e o Samba”. Além de sua vivência na música, se aventurou na arte da dramaturgia, como atriz, em algumas produções, incluindo a telenovela "Xica da Silva", exibida pela TV Manchete entre 1996 e 1997, onde interpretou uma líder quilombola.  Também foi comentarista dos desfiles das Escolas de Samba para a Rede Globo.

Em 2016, celebrando quarenta anos de trajetória, recebeu o Prêmio da Música Brasileira como melhor cantora de samba. Leci Brandão expressa seu posicionamento político e suas raízes ancestrais não apenas nas letras de suas músicas, mas também nos títulos de seus álbuns. Álbuns como "Dignidade" (1987), "Cidadã Brasileira" (1990), "Atitude" (1993) e "A Cara do Povo" (2003) refletem seu engajamento e identidade. Em seu DVD lançado em 2006, intitulado "Canções Afirmativas", Leci aborda o debate contemporâneo sobre a implementação de ações afirmativas para a população negra. O DVD inclui depoimentos de militantes do Movimento de Mulheres Negras e do Movimento Negro do Rio de Janeiro e São Paulo, que discutem a conexão entre a obra de Leci Brandão e o ativismo político.

É importante ressaltar que Leci Brandão não apenas se destacou como uma renomada cantora de samba no Brasil, mas também foi uma das vozes pioneiras na abordagem de temas LGBTQIAPN+ na música. Em 1976, com o lançamento de seu álbum "Questão de Gosto", ela gravou a música "As Pessoas e Eles", considerada uma das primeiras canções brasileiras a abordar abertamente a homossexualidade. O álbum entrou para a exposição "Orgulho e Resistências: LGBT na Ditadura" no início de 2021, no Memorial da Resistência, em São Paulo. Além de suas composições, Leci foi também a primeira cantora famosa do Brasil a se declarar publicamente como uma lésbica, em uma entrevista para o jornal Lampião da Esquina em novembro de 1978. A contribuição de Leci para a visibilidade e aceitação LGBTQIAPN+, na cultura brasileira, continuou ao longo dos anos. Em 2019, ela regravou a faixa "Pra Colorir Muito Mais", que celebra o arco-íris, símbolo da luta pelos direitos LGBTQIAPN+. Essa regravação demonstra o compromisso contínuo de Leci com a inclusão e a representação na música e na sociedade.

Além de ser artista e militante, Leci Brandão também atua na política, como parlamentar. Em 2003, foi convidada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para integrar o Conselho Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, onde permaneceu durante os dois primeiros mandatos do presidente. Em 2010, filiou-se ao Partido Comunista do Brasil e concorreu ao cargo de deputada estadual por São Paulo, sendo eleita com mais de 85 mil votos. Ela foi a segunda deputada negra na história da Assembleia Legislativa de São Paulo, e tornando-se a primeira mulher negra a conquistar quatro mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Assim como em suas músicas, onde demonstra uma forte preocupação com a situação da população negra no Brasil, Leci Brandão dedicou-se, enquanto parlamentar, à luta antirracista, à promoção da igualdade racial, ao respeito às religiões de matrizes africanas e a valorização da cultura negra. Além disso, por ser uma mulher lésbica, também é uma defensora dos direitos das mulheres e da população LGBTQIAPN+. Em 2019, Leci foi uma das deputadas que assinou o Projeto de Lei do "Menstruação sem Tabu", iniciativa que visa combater a precariedade menstrual através da distribuição gratuita de absorventes para mulheres em situação de vulnerabilidade social. Atualmente, Leci Brandão divide seu tempo entre sua carreira musical, onde continua a ser uma figura proeminente no samba brasileiro, e seu trabalho legislativo na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde continua a ser uma voz ativa na defesa dos direitos humanos e na promoção da igualdade e justiça social. Leci Brandão não é apenas uma artista talentosa, mas uma figura emblemática e uma voz poderosa na história da música e da luta pelos direitos humanos no Brasil.

IARA BRANDÃO FERREIRA

Colunista graduada em História, atua como professora voluntária dos pré-vestibulares comunitários Brota na Laje e Sintuperj (UERJ). Também atua como educadora em Museus desde 2012.

Mestra em Relações Étnico-raciais - PPRER (CEFET-RJ)

O Negro Em Cena

O Negro Em Cena

O Quilombo da Cia dos Comuns

Por: Ierê Ferreira

Fotos: Ierê Ferreira

 

A Cia dos Comuns fundada por Hilton Cobra era formada por atores negros e trazia a temática da inserção do negro na cultura brasileira, em textos de criação coletiva, com direção do baiano Marcio Meirelles que também dirigia o Bando de Teatro Olodum, seguiam os passos do Teatro Experimental do Negro - TEN.

 

O espetáculo de estréia foi A Roda do Mundo, 2001, uma montagem que usou linguagem corporal na dança e na capoeira para tratar do racismo.

 

A crítica Barbara Heliodora, de O Globo, abriu seu texto, na época, dizendo que "há algumas décadas que o teatro não apresentava contestação tão violenta", e analisou: "O objetivo do grupo é trazer para o teatro brasileiro o universo do negro, 'discutindo e propondo uma nova consciência que garanta seu crescimento pessoal, intelectual e profissional'. Dificilmente algum objetivo poderia ser mais digno de apoio e aplauso.”

A cenografia de Márcio Meirelles e Biza Vianna, os figurinos também de Biza Vianna, a luz de Jorginho de Carvalho e a coreografia de José Carlos Arandiba mais conhecido como Zebrinha, são muito bem utilizados pelo diretor Marcio Meirelles dando fluência e boa comunicação. Em seguida, a companhia encena "Candaces - A Reconstrução do Fogo,” 2003, nova criação coletiva com direção de Marcio Meirelles, que faz um paralelo entre as ancestrais guerreiras africanas e a luta das mulheres negras contemporâneas. Depois de duas temporadas, o espetáculo se apresenta no Theatro Municipal, comemorando o Dia Nacional da Consciência Negra.

 

Em 2005, estreou "Bakulo - Os Bem Lembrados", criação coletiva baseada principalmente no livro Por uma Outra Globalização, de Milton Santos, em que nove atores e cinco músicos propõem a discussão da cultura e da globalização.

A luz de Jorginho de Carvalho, direção musical de Jarbas Bittencourt (como a preparação vocal de Agnes Moço e Carolina Futuro) deram uma notável contribuição ao espetáculo que contou com a coreografia de Zebrinha, a preparação corporal de Denis Gonçalves e a preparação de dança afro de Valéria Mona, todas de alta qualidade.

O elenco atuou com desenvoltura e, obviamente, deixou sua marca.

 

A contribuição dos Quilombos de teatro negro em nossa sociedade tem sido de fundamental importância no combate ao racismo e o nosso carnaval é a grande ópera do povo!

A Força de Candaces foi parar na Escola de SAMBA Acadêmicos do Salgueiro apresentado no Carnaval de 2007, foi uma linda homenagem ao poder das mulheres africanas, em especial às rainhas Candaces, que governaram o reino de Meroe, na África, entre os séculos IV a.C. e IV d.C. A letra da música começa invocando divindades femininas do candomblé, como Iemanjá, Nanã, Oyá, Oxum e Obá, estabelecendo uma conexão entre a força espiritual dessas entidades e o tema central do samba, que é a exaltação das mulheres negras.

Em 2024 a Cia dos Comuns recebeu o Prêmio Shell de Teatro na categoria: ENERGIA QUE VEM DA GENTE

Pelos 22 anos de uma atuação continuada e imprescindível para a formação e o fortalecimento da cena teatral preta brasileira, contribuindo de forma decisiva para o fomento e formação de artistas negros e na luta antirracista em nossa sociedade.

 

O elenco da Cia dos Comuns traz, hoje, atrizes e atores revelados na companhia que estão atuando com destaque em filmes, novelas e minissérie nas plataformas de streaming e nas principais emissoras de TV.

 

São eles: Hilton Cobra, Cyntia Rachel, Alipo Coelho, Flavia Souza, Rodrigo Santos, Tony DJ, Mauro Alabê, Vania Massari, Débora Almeida, Patricia Costa, Cridemar Aquino, Gustavo Melo, Fernando Barcelos, Vinicius Fonseca, Duda Fonseca, Ana Lucia Monteiro, Denis Gonçalves, Fabio Negret, Puan Viana e Tatiana Tibúrcio.

Fonte da pesquisa:

COMPANHIA dos Comuns. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2024. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo467058/companhia-dos-comuns. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

https://www.shell.com.br/imprensa/press-releases-2024/34-premio-shell-de-teatro-celebra-a-diversidade-da-cultura-brasileira.html

O Negro Em Cena 

Bastidores:  Idalice Barros a Day, a atriz Lea Garcia,

Marcio Meirelies, Débora Almeida, Zebrinha,

Zózimo Bulbul, Gustavo Melo, Flavia Souza e elenco.

O Negro Em Cena

Cia Dos Comuns

 

Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

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