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O Mar de Tia Lúcia.

Por Ierê Ferreira e Iara Brandão Ferreira
 

Edinho Oliveira:

A Voz Elegante do Samba

Por: Ierê Ferreira
 

"Planet Rock: Novos Tambores

Chegam à Terra Brasilis". (Parte 5 - 6)

POR: ZULU_KING TR DJ
 

Acima do Mal e do Mal

Em nome de Jesus.

Por: Ierê Ferreira
 

Batalha Maravilhosa: Serginho Meriti,

O Neguinho Poeta

Por Ierê Ferreira

Exposição Afroimaginarte

Editorial –

Dez edições de resistência e celebração.

Chegamos à décima edição — sim pois, começamos a contar desde a revista Nº 0. E cada número é uma trincheira conquistada nessa batalha maravilhosa de entregar cultura negra com imagens potentes, histórias marcantes e curiosidades sobre os nossos personagens.

Desde o início, enfrentamos e sabemos que ainda enfrentaremos muitos desafios. Para nós, negros, isso não é novidade. Vivemos na corda bamba das mudanças políticas, tecnológicas e sociais. Ainda assim, seguimos firmes, nas trincheiras da luta contra o racismo, defendendo nossa cultura, nossa memória, nosso legado. Nesta edição, celebramos:

O Mar de Tia Lúcia — artista popular e Patrimônio Imaterial do Porto do Rio de Janeiro.

 

Edinho Oliveira — a voz elegante do samba, militante e socialista nas lutas populares por educação e cultura.

 

Planet Rock: Novos tambores chegam à Terra Brasilis (Parte 5 - 6), por ZULU_KING TR DJ.

 

Acima do mal e do mal em nome de Jesus. Artigo escrito por: Ierê Ferreira.

 

Batalha Maravilhosa — com Serginho Meriti, o neguinho poeta, cronista da vida. Já cantou Monalisa, Negra Ângela, Negra Olívia e quando a gira girou, o poeta fincou bandeira no samba.

 

Seguimos. Porque cada edição é um ato de resistência. Cada página, uma celebração.

 

Equipe editorial:

Editor e fotógrafo: Ierê Ferreira

Colunista convidado: Zulu_King TR DJ

Colunista e revisora: Sylvia Arcuri

Consultor Editorial: Augusto Lima

Produtora: Daniele da Silva Araújo

Essa revista é para você!

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Tia Lúcia Foto: Ierê Ferreira

 O Negro Em Cena

O Mar de Tia LúciaIara

Por: Iara Brandão Ferreira e Ierê Ferreira.

Nascida em dezembro de 1944, na Bahia, Lúcia Maria dos Santos — eternizada como Tia Lúcia — chegou ao Rio de Janeiro ainda menina. Cresceu entre ladeiras e histórias no Morro do Pinto, na zona portuária da cidade, onde construiu um legado que ecoa como canto ancestral.

Figura cativante, mulher negra de saias rodadas e sorriso largo, Tia Lúcia encantava as crianças ao se vestir de princesa para narrar contos nas escolas da região. Cantava, dançava, recitava poesias nos saraus do Largo da Prainha. Sua presença era constante nos festejos do Santo Cristo e da Gamboa, onde espalhava arte e afeto como quem semeia esperança.

Artista de rua e do coração, desenhava e pintava com paixão. Suas obras, feitas com materiais reciclados, ganhavam vida nas calçadas e eram oferecidas como presentes a quem cruzava seu caminho com admiração. Mais que arte, Tia Lúcia oferecia encontros — oficinas gratuitas de brinquedos, pintura e teatro para as crianças da comunidade. Ensinava cantos de samba de roda e contava histórias sobre ancestralidade negra, resgatando memórias que o tempo insiste em apagar.

Trabalhou como babá, cozinheira, empregada doméstica, operária de fábrica e vendedora de cocadas. Mas foi como griô — guardiã da sabedoria popular — que se tornou patrimônio vivo.

 

Tia Lúcia no Cais do Valongo, no Morro da Conceição e em frente a sua obra na exposição no Mar “ Museu de Arte do Rio”.

Fotos: Lorenço DJ

Tia Lúcia com os Filhos de Gandhi no Cais do Valongo e com os marinheiros e marinheiras na Praça Mauá.

Fotos: Lourenço DJ

Instalou seu ateliê temporário no Centro Cultural José Bonifácio (hoje MUHCAB — Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira), onde ministrou oficinas e realizou exposições. No Instituto Pretos Novos, reinventou narrativas sobre o cemitério e os ancestrais africanos, misturando ficção e memória com a liberdade de quem sabe que a história também se conta com poesia. Tia Lúcia ocupou o Rio com sua arte. Exibiu seus quadros em diversos espaços da cidade, aproximando a produção cultural das comunidades locais. Faleceu em setembro de 2018, deixando saudade e inspiração. Sua imagem permanece viva na escadaria do Morro da Conceição, em grafites espalhados pela região portuária e na memória afetiva de quem a conheceu. No mesmo ano, foi homenageada pelo Museu de Arte do Rio (MAR) na exposição “A Pequena África e o Mar de Tia Lúcia”. Popularmente reconhecida como Patrimônio Imaterial do Porto do Rio de Janeiro, sua alegria e amor segue pulsando em cada canto, em cada cor, em cada criança que escuta uma história e se vê nela. Tia Lúcia não foi apenas uma artista, foi ponte, foi raiz, foi festa. E continua sendo.

Fotos: Lourenço DJ

Fotos: Ierê Ferreira

 O Negro Em Cena

Foto: Fernando Tibirino

 O Negro Em Cena

Edinho Oliveira: A Voz Elegante do Samba

Texto e Foto: Ierê Ferreira

 

Edson José de Oliveira Alfredo, conhecido como Edinho Oliveira, foi mais do que um sambista. Foi mestre, militante, voz da comunidade e alma de Oswaldo Cruz — mesmo sendo mangueirense e flamenguista por paixão. Nascido e criado entre as ruas de Rocha Miranda e arredores, Edinho construiu sua trajetória profissional como técnico em refrigeração de máquinas pesadas no Metrô Rio. Antes disso, teve uma experiência traumática na Marinha do Brasil, mais precisamente na Escola de Sargentos da Marinha, em Blumenau. Lá, foi alvo de punições e perseguições por parte de seus superiores, pelo fato de ser um dos poucos negros na corporação. Esses episódios o levaram a desistir da carreira militar, e foi no samba que ele encontrou sua verdadeira estação. Cantor, compositor e mestre de cerimônias, Edinho e seus amigos fundaram o grupo Raízes, com o qual participaram de diversos festivais e se tornaram referência nos bailes dos clubes e nas quadras das escolas de samba da região. Na quadra da Em Cima da Hora, no bairro de Cavalcanti, seu grupo dividia o palco com o Samba Nosso de Cada Dia, cujo vocalista era ninguém menos que Reinaldo — grande amigo de Edinho, que mais tarde migrou para São Paulo e se consagrou como O Príncipe do Pagode. Edinho tinha como maior referência o eterno Jamelão. Sua voz carregava a elegância dos antigos, o respeito dos sábios e o cuidado dos poetas. Além de vocalista em grupos de baile, fundou o Bloco Afro Agbara Dudu e o Samba do Buraco do Galo — espaços onde sua presença era sinônimo de reverência.

Renato Zacarias irmão do Reinaldo Principe do Pagode, Edinho e eu. Fotos: Ierê Ferreira

Sempre que se apresentava, trazia para o centro da roda reflexões profundas, tratando com sabedoria as questões de raça e classe, criando uma relação de energia e confiança com o público. Edinho também valorizava as vozes femininas em todos os aspectos, por isso, tanto o Grupo Afro Agbara Dudu quanto o Samba do Buraco do Galo tem como presença maior as pastoras. Em sua trajetória gravou dois álbuns — Negro e Oswaldo Cruz é Assim — com músicas inéditas e releituras que eternizam sua arte. Entre elas, destacam-se: Geografia Popular, gravada por Beth Carvalho, com Marquinhos de Oswaldo Cruz e Arlindo Cruz; Para Oswaldo Cruz, parceria com Odé Amim José; Décima Sexta Estação, com Marquinhos de Oswaldo Cruz.

Em uma roda de samba, uma senhora confidenciou:“Venho só para ouvir o Edinho falar e cantar. Ele me emociona.”E quem o conheceu sabe — Edinho emocionava a todos com sua postura, seu sorriso, suas palavras precisas e seu canto que abraçava a gente.

As Pastoras: Nica, Dinha, Ivone e Sheila. Elias José e Edinho.

A atriz Jana Guinoud e o ator Leandro Firmino entregando a homenagem do projeto Samba Identidade Nossa a Edinho Oliveira.

Fotos: Ierê Ferreira

 O Negro Em Cena

Militante socialista, esteve presente nas lutas dos metroviários e nas trincheiras pela saúde, previdência e educação públicas. Sua voz não se calava diante das injustiças. Para muitos, Edinho foi referência. Para outros, foi amigo. Para o samba, foi perfeição. Como já diziam Arlindo Cruz e Nei Lopes: um Sambista Perfeito. Nascido em 14 de setembro de 1956, nos deixou em 22 de abril de 2023, aos 66 anos. Mas seu legado segue firme nas trajetórias de seu irmão, irmãs, filhas, filhos, netas e em nossas memórias.

 O Negro Em Cena

Foto: Ierê Ferreira

 O Negro Em Cena

Planet Rock ‐ Novos Tambores Chegam à Terra Brasilis... (Parte 5)

Por: ZULU_KING TR DJ

 

No dia 21 de abril de 1993, foi realizado no Brasil o ato que ficou conhecido na história como "Plebiscito de 1993", que avaliou a forma e o sistema de governo sob os quais funcionaria o Estado brasileiro. O plebiscito indicou que o Brasil continuaria a ser uma República Presidencialista. Enquanto o país se reorganizava a passos largos em direção ao "progresso e à democracia", no Rio de Janeiro novas formas de governança, "em nome da ordem", também se reestruturavam na era pós-ditadura, através dos chamados "grupos de extermínio", em episódios altamente questionáveis. Entre eles, destaca-se a "Chacina da Candelária", ocorrida na noite de 23 de julho, tendo como palco a Igreja da Candelária, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro. Os personagens da vida real foram oito jovens moradores de rua assassinados. No dia 24 de julho, a banda Planet Hemp fez sua primeira apresentação no extinto "Garage Art Cult", na Praça da Bandeira, Zona Norte da cidade. Formada por Marcelo D2 (vocal), Skunk (vocal), Rafael Crespo (guitarra), Formigão (baixo) e Bacalhau (bateria), o show foi um marco para o grupo, que na época tinha apenas quatro meses de formação — muito embora a apresentação tenha sido para um público aproximado de sete pessoas. Gabriel O Pensador lançou, em 12 de agosto, seu primeiro álbum de estúdio, um disco homônimo que o projetou ao sucesso nacional com faixas como "Tô Feliz (Matei o Presidente)" e "Retrato de um Playboy (Juventude Perdida)". No álbum, a faixa "175 Nada Especial" ganhou um videoclipe com participação do famoso jogador de futebol Ronaldo Fenômeno, interpretando o personagem de um cobrador de ônibus, além do  rapper MV Bill, no papel de um assaltante. Ainda em agosto, MV Bill organizou o "2⁰ CDD S.O.S. Consciência", no CIEP Luiz Carlos Prestes, na Cidade de Deus. O evento contou com a presença do Gabriel O Pensador, o que atraiu grande atenção do público local.

Igreja da Candelária Foto: Divulgação

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Gabriel O Pensador e MV Bill. Fotos: Ierê Ferreira.

Damas do Rap e o disco Tiro Inicial.

Fotos: Divulgação

Em resposta imediata à Chacina da Candelária, os grupos As Damas do Rap, Filhos do Gueto, Poesia Sobre Ruínas, N.A.T., Consciência Urbana e Geração Futuro (grupo liderado por MV Bill) uniram-se a Gabriel O Pensador e gravaram, no mês de setembro, o videoclipe "Filhos do Brasil", faixa bônus da coletânea Tiro Inicial. Creditada como a "primeira coletânea de HIP-HOP do Rio de Janeiro", Tiro Inicial foi produzida por Mayrton Bahia, o descobridor da banda Legião Urbana. O então vereador Edson Santos (PT) inaugurou, na Cidade de Deus, a estação de rádio FM Jacarepaguá (103,3). Voltada para o público diverso da comunidade, a rádio passou a abrigar o programa "S.O.S. Consciência", apresentado por MV Bill e DJ TR. Aliás, vale ressaltar que a FM Jacarepaguá foi a primeira rádio de favela a existir no Rio de Janeiro, assim como a primeira rádio comunitária a ter um programa de HIP-HOP.

Planet Rock ‐ Novos Tambores Chegam à Terra Brasilis... (Parte 6)

 

Em 1994, o Brasil viveu eventos marcantes como o lançamento do Plano Real, que estabilizou a economia; a conquista do tetra pela Seleção Brasileira de Futebol; a trágica morte de Ayrton Senna; e a eleição de Fernando Henrique Cardoso como presidente. No Rio de Janeiro, o país se despediu do músico Tom Jobim, que morreu em dezembro, após uma parada cardíaca. A urbanização da Barra da Tijuca ganhou aceleração com a ascensão dos chamados "emergentes". No entanto, as transformações bruscas no âmbito da violência, marcadas por episódios como a "Chacina da comunidade Nova Brasília", na Zona Norte carioca, em outubro — que resultou em 13 mortes após uma operação policial — continuaram a evidenciar a complexa e persistente questão da segurança pública nas áreas conflagradas da cidade, principal tema das letras de RAP. Mesmo com a temática urbana fervilhando em meio ao caos e à violência, curiosamente o HIP-HOP carioca passou a viver um momento de consolidação de novas propostas de rimas e assuntos mais voltados para o entretenimento, com a realização de eventos como a festa "Zoeira HIP-HOP", na Lapa, bairro central do Rio. Idealizada e produzida por Elza Cohen, creditada como a "primeira produtora do gênero no Rio de Janeiro", a Zoeira reuniu e deu ainda mais sentido à cena underground da época. Enquanto a cena eletrônica ganhava força com raves e festas de techno, Elza remava contra a maré, acreditando no então improvável sucesso do HIP-HOP.

Fotos: Divulgação

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 O Negro Em Cena

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Do outro lado, artistas como Gabriel O Pensador consolidavam seu sucesso nacional com um repertório de críticas ácidas ao sistema político do país, demonstrando ser possível a ascensão de um RAP de linha mais ativista. Vivendo o impacto do sucesso do álbum Raio X Brasil, lançado em 1993 — que marcou um ponto de virada na visibilidade do grupo, ao conquistar espaço na mídia hegemônica como a MTV — os Racionais MC's chegaram ao Rio para uma única apresentação no Circo Voador, na Lapa, encerrando o ano do HIP-HOP. O evento foi tão aguardado pelos fãs que causou superlotação do espaço, resultando na derrubada de uma das grades de proteção do local.

Mano Brown, Ice Blue, KL Key Racionais mc's

Fotos: Ierê Ferreira

Edi Rock Foto Divulgação

 O Negro Em Cena

Acima do mal e do mal em nome de Jesus

Por: Ierê Ferreira

 

Cresci brincando, correndo, pulando, nadando, tocando, cantando e dançando para não dançar. Olaria e adjacências eram o meu lugar. Nos dias de sol, era no 484 Olaria/ Copacabana que rolava a conexão com as tendências no leva e traz, em meio à canções como: “Se esta porra não virar, olê, olê, olá, eu chego lá”. Na década de 1970, o dono do morro no Complexo do Alemão tinha, no máximo, meia dúzia de revólveres, uma pistola e uma metralhadora. Andava com, no máximo, uma dúzia de comparsas. Na década de 1980, chegou a minha vez de ir aos bailes soul, frequentar os clubes do meu lugar e provar também as duras da polícia — que já naquela época tinha os bons policiais e os maus policiais que usavam de violência contra a juventude negra, ao mesmo tempo em que negociavam armas e drogas com chefes do crime, insuflando uma cena já pesada nas comunidades.

Fotos: Ierê Ferreira e divulgação

Cornil de Olaria” e “Joga a chave, meu amor” eram alguns dos apelidos do conjunto residencial da Polícia Militar onde eu morava com minha família. Depois, nos mudamos para a Rua Major Rego, sempre beirando o Complexo do Alemão. Andava no morro e no asfalto porque sempre soube cultivar amizades. Assim fui riscando da Igreja da Penha à Imperatriz, do Cacique de Ramos ao Cine Olaria, do Olaria Atlético Clube ao Olariense, do Clube 18 de Julho ao Clube Paranhos e ao Social Ramos Clube. Penhão, Vila Cruzeiro, Cascatinha, Favela do Sapo, Morro do Alemão, Morro do Adeus, Grota, Canitá e Nova Brasília — lugares que sempre frequentei e onde também trabalhei, no tempo em que fui fotógrafo do Grupo Cultural AfroReggae. Em 2010, as forças de segurança nacionais entraram no Complexo do Alemão para a retomada de território em mais uma operação. Para nossa tristeza, a reportagem da Globo ganhou vários prêmios por mostrar, do alto, não um confronto, mas sim a caçada a corpos pretos e armados fugindo pela mata e sendo alvejados por policiais que atiravam de um ou mais helicópteros.

Fotos: Ierê Ferreira

No dia 28 de outubro de 2025, fui a uma consulta de rotina com o cardiologista no Hospital Ronaldo Gazolla, em Acari. No caminho, pela Avenida Brasil, na pista de subida, havia um caminhão atravessado e muitos policiais fortemente armados. Assim foi o meu primeiro contato com a tragédia genocida que aconteceu naquele dia. A partir de então, começaram a pipocar as notícias nas redes sociais. Depois de três horas de espera, vendo as postagens ficarem cada vez piores, comecei a ligar para as pessoas que conheço na região e para minha família. Fui rapidamente atendido, pois o médico estava com muita pressa. Quando saí do hospital, o clima estava muito estranho. O celular estava sem sinal de rede e não passava nenhum ônibus — só algumas vans. Entrei na primeira que seguia para Madureira. Depois de uma longa espera, peguei um ônibus para Padre Miguel e outro para Bangu. Além de chegar cansado, cheguei revoltado e destruído por dentro, com uma sensação de perda gigantesca.

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Fotos: Geraldo S. Filho

 O Negro Em Cena

Tomei um banho de ervas, belisquei o jantar, fiz minha oração e fui me deitar. Dormir, eu sabia que não conseguiria, pois as cenas de sangue e lágrimas revelavam cada vez mais a crueldade dessa guerra — que nunca foi para acabar com o tráfico, mas sim para provar que somos uma nação governada por covardes paranóicos que estão acima do mal e do mal em nome de Jesus e dos costumes preconceituosos deles, em nome de uma pátria que não é deles. Passei o fim desta triste semana mergulhado em um trabalho de documentação dos Regimes de Visualidades Negras: Confluências Estéticas, Transgressões de Fronteiras e Apartheids, com um grupo de enorme excelência intelectual, combativa e afetuosa. Com palavras e imagens projetadas, aliviaram minhas angústias e tensões, me refazendo para seguir firme na luta pelos nossos sonhos, em nome dos nossos ancestrais e dos nossos jovens. Que os DEUSES nos protejam. AXÉ, AMÉM.

Cláudia Puentes, Clementino Junior, Júlio C. Tavares, Edileuza, Ana Paula, Júlia e Felipe Machado, Carolina, Laryssa, Elizabeth, Quack e eu.

 O Negro Em Cena

Batalha Maravilhosa: Serginho Meriti, O Neguinho Poeta

Texto e fotos: Ierê Ferreira

No coração pulsante do SAMBA, entre versos que embalam gerações e melodias que atravessam fronteiras, vive um nome que é sinônimo de poesia popular: Serginho Meriti. Compositor fecundo, cronista da vida e griô suburbano, ele é autor de mais de 800 canções e sucessos — muitas delas eternizadas nas vozes dos maiores intérpretes do Brasil.

Sérgio Roberto Serafim, filho de Felisbino Antônio Serafim, violinista e de dona Nair Antônio de Oliveira, cantora e compositora de hinos religiosos, nasceu em Madureira, mas foi em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, que construiu sua identidade artística. 

Da junção entre origem e afeto, surgiu o nome que o consagrou: Serginho Meriti. E é com esse nome que ele vem escrevendo capítulos fundamentais da história do samba contemporâneo.

Sua primeira grande gravação veio pelas mãos de Bebeto, o “Rei dos Bailes” cariocas. Para ele, Serginho compôs clássicos como “Neguinho Poeta”, “Monalisa”, “Batalha Maravilhosa” e “Lua Nova (Pra Balançar)”. Em 1981, sob produção de Roberto Menescal, lançou o LP Bons Momentos pela gravadora PolyGram — um disco que se tornou referência entre os amantes do gênero.

Serginho Meriti, Gamarra, Claudinho Guimarães e Nei Lopes

Fotos: Ierê Ferreira

Na mesma época, começamos a frequentar a roda de samba do Cacique de Ramos. Ali, vi e ouvi os melhores sambistas da minha geração — entre eles, o Neguinho poeta. Anos depois, já fotógrafo, me aproximei de Serginho e criamos um laço de amizade. Poucos sabem, mas além de cantar nos bailes com grupos como Copa Sete e suas canções brilharem nas academias de dança de salão, ele também compôs um álbum de reggae com a banda Comunidade Reggae. Em 11 de setembro de 2001, fui convidado por Serginho para fotografar a banda em São João de Meriti. Eu e meu compadre Elias José seguimos juntos para esse destino e chegamos cedo à casa do poeta. No caminho soubemos por telefone que aviões haviam atingido as torres nos Estados Unidos. Foi um dia de especulações sobre uma possível terceira guerra mundial e sobre os rumos que o mundo estava tomando. Mas nós escolhemos a paz — e a poesia de Serginho Meriti. A mãe do poeta Dona Nair estava muito preocupada, diante das cenas na televisão, pois não queria que seus filhos fossem para a guerra, por coincidência o figurino de Serginho Meriti e da banda eram roupas camufladas tipo as usadas pelos exércitos. Fizemos ótimas fotos mas pelo tempo que já passou, infelizmente não consegui encontrar os negativos em meu baú para mostrar nesse artigo.

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Nei Lopes, Serginho Meriti, Ruy Quaresma e seu filho

Foto: Ierê Ferreira

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 O Negro Em Cena

Desde então, sempre que posso, assisto e fotografo não só Serginho Meriti, mas também a poesia que flui em sua voz e em seu corpo. Cronista da vida, já cantou Monalisa, Negra Ângela, Negra Olívia. Fui bandido e da vida bandida sai sem vacilo. Recebeu Pedro Batuque, que não é de dar mole à tristeza e quando a gira girou o poeta fincou bandeira no SAMBA, pois a vida é para quem sabe viver. Suas canções ecoam nos quatro cantos — daqui, dali, de lá — na voz dos melhores intérpretes e em cada roda onde habita o Rei Samba. E o coro come, na casa de Noca. Axé grandão, poeta Serginho Meriti. Siga firme nessa batalha maravilhosa.

Serginho Meriti, Leandro Sapucaí e Leandro D’Menor.

Fotos: Ierê Ferreira

Clareou

Composição de Sérgio Meriti e Rodrigo Leite

 

A vida é pra quem sabe viver

Procure aprender a arte

Pra quando apanhar não se abater

Ganhar e perder faz parte

Levante a cabeça, amigo, a vida não é tão ruim

Um dia a gente perde

Mas nem sempre o jogo é assim

Pra tudo tem um jeito

E se não teve jeito ainda não chegou ao fim

Mantenha a fé na crença

Se a ciência não curar

Pois se não tem remédio

Então remediado está

Já é um vencedor

Quem sabe a dor de uma derrota enfrentar

E a quem Deus prometeu, nunca faltou

Na hora certa o bom Deus dará

Deus é maior!

Maior é Deus, e quem tá com Ele

Nunca está só

O que seria do mundo sem Ele?

Deus é maior!

Maior é Deus, e quem tá com Ele

Nunca está só

O que seria do mundo sem Ele?Chega de chorar

Você já sofreu demais, agora chega

Chega de achar que tudo se acabou

Pode a dor uma noite durar

Mas um novo dia sempre vai raiar

E quando menos esperar

Clareou ô, ô, ô

Clareou, ô, ô, ô

 O Negro Em Cena

 O Negro Em Cena

Exposição Afroimaginarte

 

Apresentação: Afroimaginarte é uma proposta de reflexão sobre a luz que nos ilumina versus a luz que habita em nós. É um olhar afro-centrado do fotógrafo sobre os espaços que ocupamos, nossos gestos, as cores que vestimos, nossa cultura, o contraste entre luz e sombra e a harmonia poética da imagem na arte da fotografia, tanto colorida quanto em preto e branco.

Este trabalho foi concebido a partir da escolha que fiz, em minhas andanças, de retratar nosso povo, de imprimir e emoldurar as cenas que selecionei primeiro garimpando e restaurando molduras, depois as produzindo artesanalmente, no melhor estilo nós por nós.

 

Ierê Ferreira

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 O Negro Em Cena

Esta Revista é para você

 

Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

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