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Julho de 2024 - N°4

Cena da Peça

Sonho de Uma Noite de Verão.

Foto: Ierê Ferreira

ESCRAVIDÃO E REPARAÇÃO

Por: Ierê Ferreira

 

OS IMAGINÁRIOS TRANSCEDENTAIS

De: Carla dos Santos Fernandes

 

QUILOMBO DO BANDO

Texto e pesquisa: Ierê Ferreira e Sylvia Arcuri

 

LUIZ CARLOS DA VILA, “A PIPA”

Por: Cláudio Jorge

Editorial: O tráfico de pessoas sequestradas no continente africano e a escravidão no Brasil é uma grande ferida social que tem que ser reparada em todos os aspectos, para que possamos ter um futuro mais equilibrado e justo no país que foi construído com o sangue dos nossos ancestrais.​

Na edição de julho de 2024, vamos juntos refletir sobre escravidão e reparação. Conhecer Os “Imaginários Transcendentais” de Carla dos Santos Fernandes. vamos saber mais sobre o Quilombo do Bando de Teatro Olodum, também conheceremos o ser humano que foi Luiz Carlos da Vila, “A Pipa”, através da sensibilidade das palavras do grande músico e parceiro Cláudio Jorge.

 

Sejam muito bem-vindos e façam uma boa viagem.

Editor e fotógrafo: Ierê Ferreira

Colunista e revisora: Sylvia Arcuri

Colunista: Iara Brandão Ferreira

Colaboradora: Daniele da Silva Araújo

Colunista nesta edição: Cláudio Jorge

 

Revista O Negro Em Cena

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O Negro Em Cena

Escravidão e Reparação

Por: Ierê Ferreira

Ultimamente, venho tentando acompanhar as notícias sobre as atividades escravistas dos primeiros acionistas do Banco do Brasil no século XIX, até depois de abolida a condição de escravizados de nossos ancestrais. É muito relevante que a história da escravidão no Brasil seja estudada e compreendida em profundidade.

Um dos primeiros a abordar uma proposta de reparação por causa da escravidão no Brasil foi o ativista Yedo Ferreira, fundador do Movimento Negro Unificado e mais antigo ativista da Reparação da Escravidão Negra no Brasil. Yedo é também autor do livro “Projeto Político do Povo Negro Para o Brasil”, junto com  Eustáquio Rodrigues. Este livro aborda a necessidade de reparação e inclusão, focando na cultura como agente de mudança social.

Recentemente, um estudo revelou o envolvimento do Banco do Brasil no tráfico de escravos durante o século XIX.

Esse documento foi elaborado por 14 pesquisadores das universidades brasileiras e americanas e integra um inquérito civil instaurado pelo Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro.

Yedo Ferreira, Elias José Bloco Afro Agbara Dudu

Foto: Ierê Ferreira

Fotos: Ierê Ferreira

De acordo com o estudo, o Banco do Brasil foi criado em 1808, liquidado 20 anos depois e refundado em 1853. Durante esse período, traficantes de escravos estavam diretamente envolvidos com o banco, sendo acionistas e diretores. Além disso, a instituição se beneficiou da dinâmica de circulação de crédito lastreada na propriedade escrava que imperou ao longo da primeira metade do século XIX.

Os historiadores concordam que o Banco do Brasil desempenhou um papel significativo na sustentação da economia mercantil escravista. José Bernardino de Sá, um dos maiores traficantes de escravos do país entre 1825 a 1855, era um dos fundadores e grandes acionistas do banco quando ele foi refundado em 1853. Essa pesquisa nos ajuda a entender melhor o papel histórico do Banco do Brasil e a importância de discutir reparações simbólicas e materiais relacionadas à escravidão.

Atualmente, o Banco do Brasil tem adotado uma postura de reconhecimento e reflexão sobre seu passado relacionado à escravidão. Embora não haja uma política oficial de reparações, a instituição tem se envolvido em debates públicos e iniciativas que visam abordar essa questão histórica. É importante ressaltar que o banco não é o único ator nesse cenário e a discussão sobre reparações envolve diversos setores da sociedade, incluindo o governo, organizações não governamentais e movimentos sociais. A conscientização e o diálogo contínuo são fundamentais para avançarmos na busca por justiça e reparação.

Banco do Brasil no tráfico de escravos durante o século XIX.

Fotos: Ierê Ferreira da serie Retratos da nossa cor e  Cais do Valongo onde chegaram aproximadamente hum milhão de escravizados.

Além do Banco do Brasil, outras instituições financeiras também têm sido objeto de estudos sobre sua relação com a escravidão. Por exemplo, universidades e bancos nos Estados Unidos e Inglaterra reconheceram seu papel na escravidão e criaram medidas de reparação, que incluem fomento a pesquisas acadêmicas e indenizações. Essa discussão é importante para que possamos compreender melhor o passado e a nossa ancestralidade.

No carnaval, escolas de samba e blocos progressistas fazem suas manifestações contra os preconceitos e, em 2024, não foi diferente, boa parte das escolas de samba trouxeram temas históricos e de religiões de matrizes africanas. Com uma postura mais direta, o Grupo Afro Agbara Dudu desfilou pelas ruas de Oswaldo Cruz, Madureira e pelo Cais do Porto com o tema REPARAÇÃO JÁ, uma atitude firme neste processo fundamental e necessário.

O Nome Agbara Dudu significa em yorubá “Força Negra”, fundado em 04 de Abril de 1982 no bairro de Oswaldo Cruz, hoje o Agbara é coordenado por Elias José Alfredo, um operário do Metrô RJ, que é filiado ao PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), MNU (Movimento Negro Unificado) e que pela militância, chegou a presidência do Simerj (Sindicato dos Metroviários do RJ), o primeiro negro a presidir esse sindicato. Ele também é cantor, compositor e coordenador do Samba do Buraco do Galo. Elias é um membro da sociedade civil que estuda as atuais conjunturas de gênero, raça e classe e as formas de reparação que o Brasil deve adotar nessa luta.

Com esse artigo a revista, O Negro Em Cena, presta mais essa contribuição, somando valores no combate ao racismo e às desigualdades sociais que estamos enfrentando desde o sequestro de nossos ancestrais.

Fontes:

https://jornalggn.com.br/cidadania/estudo-revela-apoio-banco-do-brasil-escravidao-seculo-xix/

http://g1.globo.com

O Negro Em Cena
Os Imaginários Transcendentais de Carla dos Santos Fernandes

Me chamo Carla dos Santos Fernandes, carioca, tenho 36 anos, sou artista plástica e professora de desenho e pintura realista. Atualmente, sou pupila do Mestre Renato Ferrari, fundador do Atelier de Pintura Realista, na Tijuca onde leciono. Também sou artista residente no Espaço Travessia, no Instituto Municipal Nise da Silveira.

Meus trabalhos são

principalmente de estilo figurativo, os personagens que protagonizam minhas composições são negros e são retratados em cenas do cotidiano ou cenas de personagens do imaginário e transcendentais. Minhas obras refletem todos os meus pensamentos e sentimentos sobre o que me afeta na sociedade, sobre as injustiças, sobre como é demorado e difícil uma mulher preta construir uma autoestima e se reconhecer como potência, sobre as desigualdades, sobre diáspora: indignação, orgulho, ancestralidade, interferência da herança religiosa africana, admiração e beleza retratados através de pele retinta e traços negróides.

Minha relação com a arte vem desde criança, ainda na fase de alfabetização eu gostava de registrar, nas folhas do meu caderno, as cenas e rostos que eu via ao meu redor.

Tive a breve oportunidade de estudar desenho artístico aos 12 anos, foi proveitoso e eu comecei a trabalhar com encomendas de retratos e painéis de festas durante a minha adolescência. Apesar de todo o empenho e envolvimento com os desenhos, eu enfrentei muitos problemas financeiros com minha família. Então, ao terminar o ensino médio, de forma estratégica decidi cursar direito e deixei o sonho das artes plásticas.

Depois de formada em Direito, enquanto exercia carreira jurídica, voltei gradativamente a desenhar e, após longos anos, comecei a pintar e estudar realismo no atelier do meu mestre. Exerci advocacia por 12 anos e nunca me senti feliz na carreira. Nos últimos anos, ainda exercendo Direito, fui trabalhando com a pintura e lecionando no atelier. Há aproximadamente um ano e meio, me entreguei integralmente ao ofício da arte com coragem e certeza.

Viver de arte não é fácil, mas eu não teria legitimidade em outra posição na vida.

O Negro Em Cena
QUILOMBO DO BANDO

Texto e pesquisa: Ierê Ferreira e Sylvia Arcur

Com a finalidade de continuar o caminho do aquilombamento construído por Abdias Nascimento na criação do TEN “Teatro Experimental do Negro”, o Bando de Teatro Olodum, fundado em 17 de outubro de 1990, em Salvador por atores e atrizes baianos, sacudiu a cena com peças que versavam sobre resistência negra, trazendo também uma explosão de talentosos artistas, tornando-se a companhia negra mais conhecida, popular e de maior longevidade na história do teatro baiano, que hoje compõe a cena e derruba as barreiras dos preconceitos.

 

O Bando de Teatro Olodum nasceu a partir de uma parceria entre o diretor Marcio Meirelles e o Grupo Cultural Olodum.

 

Com total autonomia em seu repertório, o Bando produziu peças e esquetes teatrais que chegaram até as telas de cinema e televisão, derrubando muitas barreira e preconceitos, pois as críticas não pouparam em dizer que era um grupo de pessoas comuns, encenando suas próprias vidas, como se a vida, a cultura e o cotidiano do negro não fossem importantes e não fizesem parte da sociedade. Muitas vezes, é nesse contexto que se dá o apagamento das nossas histórias.

 

Entretanto, o preconceito não impediu o grupo de se impor e contribuir de forma relevante para a inclusão de temas sociais e políticos na vida cultural baiana e do país. O foco principal sempre foi o combate ao racismo assim como no TEN “Teatro Experimental do Negro. O primeiro espetáculo estreou no dia 25 de janeiro de 1991. A comédia inaugural, Essa É Nossa Praia, encenada pelo Bando e dirigida por Marcio Meirelles e pela diretora francesa Chica Carelli (co-fundadora da companhia), chegou ao palco com 22 atores que apresentaram as narrativas sobre o cotidiano sociocultural de Salvador, a cidade mais negra do país. A companhia também deu o primeiro passo para consolidar uma dramaturgia própria, com textos escritos por Marcio Meirelles a partir de improvisos do elenco.

Seis meses após lançar a primeira peça, a companhia levou ao palco a montagem Onovomundo, que faz uma incursão pelo sagrado, através da abordagem cênica das nações do Candomblé da Bahia. Em 1992, retornou ao universo do Pelourinho, desta vez voltando-se para dentro dos cortiços da área, a fim de pesquisar o material dramatúrgico.

A peça “Ó Paí, Ó”, também foi montada pela primeira vez em 1992 e marcou a estreia de Lázaro Ramos no grupo, revelou também o ator Érico Brás e a cantora baiana Virgínia Rodrigues, entre outras feras da dramaturgia.

Em 1994, o Bando lançou, Bai Bai Pelô, completando a sua trilogia sobre o universo sociocultural do Pelourinho, sendo um dos seus maiores sucessos: a tragicomédia Ó, pai, Ó! que inspirou, na década seguinte, um filme homônimo, dirigido em 2007 por Monique Gardenberg, e um seriado exibido pela TV Globo em 2008 e 2009 (com direção geral de Gardenberg), indicado ao Emmy Internacional, a maior premiação de TV no mundo.

A partir desse trabalho, o elenco solidificou sua militância negra com temas que denunciavam, de forma contundente, a discriminação racial. Centrou foco na realidade social das invasões e favelas do país com Zumbi (1995), escrita em parceria com a dramaturga baiana Aninha Franco; no trágico episódio da Chacina da Candelária (RJ) em Erê pra Toda a Vida/Xirê (1996), o primeiro espetáculo de dança do Bando; na reflexão sobre negritude e consumo no fenômeno de popularidade Cabaré da Raça (1997) e na violência urbana em Relato de uma Guerra que (não) Acabou (2002).

Ao longo do seu percurso, agregou ao repertório grandes textos da dramaturgia universal. E encheu de fusões com a cultura baiana o clássico Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare (1564- 1616), com o qual ganhou o Prêmio Braskem de melhor espetáculo adulto de 2006, realizado anualmente em Salvador.

Nas encenações de temática afrodescendente, merece destaque, ainda, Áfricas (2007), primeira montagem do seu repertório dedicada ao público infanto-juvenil, e Bença (2010), que reflete sobre o tempo e a morte.

A companhia tem representado o Brasil com suas peças em vários eventos internacionais, como o Out of Lift (London International Festival of Theatre) em Londres (1996), a Estação Cena Lusófona em Portugal (2003), a Semana de Teatro em Angola (2006) e a Copa da Cultura na Alemanha (2006). 

Além das incursões pela dança, cinema e televisão, o grupo tem dois livros publicados: Trilogia do Pelô, de Marcio Meirelles e Bando de Teatro Olodum (1995) e O Teatro do Bando: Negro, Baiano e Popular (2003), do jornalista Marcos Uzel. O Bando é também responsável pelas edições do Fórum Nacional de Performance Negra, em parceria com a Cia. dos Comuns (RJ), grupo que irá compor essa trilogia do Quilombo Teatral que nossa revista apresentará na próxima edição e como se diz no palco antes da estreia; MERDA para todos.

 

Texto e pesquisa: Ierê Ferreira e Sylvia Arcuri

Fonte: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo410140/bando-de-teatro-olodum

Cenas da peça O Cabaré da Raça

O Diretor Márcio Meirelles e Taís Araújo, Virgínia Rodrigues, Lazaro Ramos e o coreógrafo Zebrinha.

Fotos: Ierê Ferreira

FICHA TÉCNICA:

TEXTO: WILLIAM SHAKESPEARE

TRADUÇÃO: BÁRBARA HELIODORA

DIREÇÃO: MARCIO MEIRELLES

COREOGRAFIA: ZEBRINHA

MÚSICA E DIREÇÃO MUSICAL: JARBAS BITTENCOURT

DESENHO DE SOM: FILIPE PIRES

CENÁRIO: MINIUSINA DE CRIAÇÃO

ILUMINAÇÃO: FÁBIO ESPÍRITO SANTO E RIVALDO RIO

CONCEITO DO FIGURINO: MARCIO MEIRELLES

Túnicas femininas, texturização das roupas, adereços e maquiagem: LUIZ SANTANA

Figurino e adereços da "Breve cena de tédio sobre Píramo e Tisbe": ZUARTE JUNIOR

PROJETO GRÁFICO: MARCIO MEIRELLES

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: CHICA CARELLI

 

ELENCO:

AURISTELA SÁ; (Titânia/Hipólita ou Fada)

CLÉSIA NOGUEIRA (Fada e percussão)

EDNALDO MUNIZ (Sanfona/Tisbe e percussão)

ELANE NASCIMENTO (Hérmia e vocal)

ÉRICO BRÁS (Teseu/Oberon, percussão e cavaquinho)

FÁBIO SANTANA (Demétrio e percussão)

GERIMIAS MENDES (Justinho/Leão)

JAMILE ALVES (Helena e vocal)

JORGE WASHINGTON (Bobina/Píramo)

LENO SACRAMENTO (Lisandro, teclado e percussão)

MERRY BATISTA (Fada)

REJANE MAIA (Fada)

S. L. LAURENTINO (Egeu, Oberon e percussão)

TELMA SOUZA (Fada, percussão e cavaquinho)

VALDINÉIA SORIANO (Titânia/Hipólita ou Fada).

AC COSTA (Bicudo/Muro)

CELL DANTAS (Fominha/Lua, cavaquinho e baixo elétrico)

DAILTON SILVA (Puck, baixo elétrico e percussão)

INÁCIO D'EUS (Quina/Prólogo)

RIDSON REIS (Puck e percussão)

REALIZAÇÃO: BROBSON MAURO (Filostrato, Oberon e percussão)

ROQUILDES JUNIOR (Puck, percussão e cavaquinho)

 

MÚSICOS:

MAURICIO (guitarra e cavaquinho)

NINE (percussão)

 

BANDO DE TEATRO OLODUM E TEATRO VILA VELHA

Cenas da peça Sonho de Uma Noite de Verão

Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Cenas da peça Bença

Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

LUIZ CARLOS DA VILA, “A PIPA”

Por: Cláudio Jorge

Meu amigo Ierê, editor da revista “O Negro em Cena”, me presenteou com dois prazeres para eu viver numa canetada só: eu assinar um artigo na revista e um artigo sobre Luiz Carlos da Vila.

A primeira coisa que me lembrei foi quando me procuraram anos atrás para dar um depoimento sobre Luiz, cerca de um ano depois de seu falecimento. Fui leve e fagueiro para a filmagem e na primeira pergunta que me fizeram comecei a chorar.

Estou me sentindo meio assim nesse início de crônica. É uma dor que não passa, uma saudade imensa de um cara que juntou na sua personalidade, um grande compositor e um ser humano ímpar. Um parceiro meu, um irmão meu.

Eu sempre repito, sem medo de errar, que Luiz Carlos da Vila está entre os maiores letristas da música popular brasileira, não devendo nada a nenhum dos considerados grandes. Primeiro porque traz com ele a história e comportamento do negro brasileiro, carioca, suburbano, acostumado a conviver com obstáculos, altos e baixos, identificado com o time de futebol que escolheu para ser torcedor, o Botafogo, tal qual este que aqui rabisca.

Segundo por ser um poeta pleno, no sentido de que não só escrevia, mas vivia poeticamente, em estado de poesia, uma poesia “daviliana”, que criava em letras, imagens que, às vezes, nos remetiam a um Salvador Dali. Só ele, entre os grandes, tinha essa cabeça, essa “loucura” criativa, com uma linguagem o mais próximo possível da fala do povo, mas com tramas, armadilhas de construção no uso das palavras, que em muitos casos pensávamos que ele tinha escrito errado.

Terceiro porque Luiz, cantava, sambava de um jeito peculiar que agradava a quem assistia, e tinha uma onipresença que o fazia aparecer em vários lugares em curto espaço de tempo. Luiz era das pessoas, das festas, do sorriso frequente, das rodas de samba de Niterói, da Penha, do Cacique, de São Paulo. Das caras sérias e de olhar distante quando estava matutando filosoficamente sobre um passarinho, uma planta, uma pipa. Se eu tivesse que escolher ser uma coisa escolheria ser pipa, disse ele uma vez.

Também das caras sérias quando ficava puto com alguma coisa, Luiz era um ser humano livre, quando sabemos que a maior liberdade que se tem é aquela que vem de dentro. Só fazia o que queria. Livre, mas com um alto senso de responsabilidade quando o assunto era família, quando o assunto era incentivar os que estavam ao seu redor a procurar a perfeição, o trabalho bem-feito, mesmo que não se exigisse tanto para ele mesmo, mas ele achava importante ver isso realizado pelos seus. 

Falar da música de Luiz Carlos da vila, não preciso, é para ser ouvida, e ela está por aí nos discos, nos bares, nas rodas, nas vozes de tantos sambistas, de tantos intérpretes importantes, correndo o mundo, livre, como ele deve estar agora.

Mas é importante falar que é preciso falar de Luiz Carlos da Vila. Se em vida ele não teve o reconhecimento profissional que ele gostaria, que se faça justiça em relação a sua obra, ao seu talento, a sua personalidade. O Rio de Janeiro merece, o Brasil merece, a cultura negra merece. Que Luiz Carlos da Vila esteja eternamente em cena.

Luiz Carlos da Vila, Luizinho Toblow, Walter Alfaiate e Cláudio Camunguelo, Nei Lopes e Cláudio Jorge.

Fotos: Ierê Ferreira

Falar da música de Luiz Carlos da vila, não preciso, é para ser ouvida, e ela está por aí nos discos, nos bares, nas rodas, nas vozes de tantos sambistas, de tantos intérpretes importantes, correndo o mundo, livre, como ele deve estar agora.

Mas é importante falar que é preciso falar de Luiz Carlos da Vila. Se em vida ele não teve o reconhecimento profissional que ele gostaria, que se faça justiça em relação a sua obra, ao seu talento, a sua personalidade. O Rio de Janeiro merece, o Brasil merece, a cultura negra merece. Que Luiz Carlos da Vila esteja eternamente em cena.

O QUE QUER DIZER SAUDADE

(Cláudio Jorge)

“O que quer dizer saudade?

Saudade é assim:

É tão ruim de se falar.

A gente sente, mas não tem como explicar

Para se sentir saudade

Basta se perder, basta não encontrar

É sentimento inevitável quando chega

Todo sofrimento vai e vivemos a perda

Vejam por exemplo, do jeito que ficou

Foi um vento frio no calor

Corte tão profundo que ninguém previa

Deixando a raiz sem chão sem tua poesia

Esse é o enredo que a lembrança desfila

Saudade minha gente, é Luiz Carlos da Vila.

O Negro Em Cena

Ao Nosso Amor Maior

Composição: Luiz Carlos da Vila / Wilson das Neves

Todo céu era de anil

Todo um valia mil

Qualquer anel já nos casava

Água fresca no cantil

Mãe e mão, mesmo sem til

o nosso amor acentuava

Bomba que não explodiu

Moça que ouvindo um: psiu

No sorriso estancava

A vitória com louvor

Safra boa ao lavrador

E que se eternizava

Ave que escapuliu

Ganhando o céu se abriu

Liberdade que chegava

A magia do amor

Do amor maior, sublime amor

Que o mundo todo esperava

Vai ficar assim e até melhor

Nada de pôr fim ao nosso amor maior

Os dois sempre irão no ir e vir

Dó, Ré, Mi, Fa, sol, La, Si

Si, La, Sol, Fa, Mi, Ré, Dó

Era palco pro ator

Microfone pro cantor

O de menos que somava

Tela e tinta pro pintor

No momento inspirador

Que até Deus se inspirava

Batucada no apogeu

Luna, Marçal e Eliseu

Que a plateia adorava

Dia de festa no mar

Para saudar Iemanjá

Que ao povo abençoava

Preta Velha abençoou

O terreiro se abraçou

E o batuque anunciava

Vento ruim, vento levou

A poeira assentou

Era o amor quem festejava

 

Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

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