
Revista O Negro Em Cena
Essa revista é pra você

ZÓZIMO BULBUL
A LUZ DO CINEMA NEGRO BRASILEIRO
Primeiro Fórum
O Negro em Cena
AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU
Mulheres negras sobre o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.
Por Sylvia Helena de Carvalho Arcuri
Na proxima Edição:
Ensaios especiais do fotógrafo Severino Silva
e Rio Maping Festival.

Editorial
"Viajar e sonhar me ajudou a canalizar minha coragem interior. Assim vou construindo e imprimindo nossas memórias ".


Apresentação:
O Primeiro Fórum Cultural O Negro em Cena aconteceu em 24 e 25 de março de 2007, na Marina da Gloria, e teve como maior objetivo apresentar o protagonismo negro através das suas artes: música, gastronomia, os Orixás, teatro, cinema , dança, moda, literatura e poesia, além das produções acadêmicas.
O negro em “cena” foi um grande fórum!
O anfitrião de um encontro aberto a todas as cores, que contou com os apoios da Rede Globo, Fundação Palmares, Prefeitura do Rio de Janeiro,Petrobras e Furnas.
Contou também com uma grande equipe de trabalho que fez do evento um marco para a comunidade negra no Rio de Janeiro.
Com a intenção de continuar fazendo circular a energia do projeto "O Negro em Cena", dedico esta fase do meu trabalho na construção desta revista com propósito de imprimir nossas memórias, a fim de informar e preservar nossas histórias e a dos nossos personagens.
Essa REVISTA é pra você!
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PIX: 21-984237151
Editor: Ierê Ferreira
Colaboradoras: Daniele da S. Araújo
Sylvia Arcuri e Iara Brandão Ferreira


Programação:
Exposição fotográfica: O Negro em Cena do Fotografo e produtor Ierê Ferreira.
Exposição: Orixás do Babalaô Roberto D’Otulú : descrição dos 16 principais Orixás do panteão, com vestimentas de gala.
Gastronomia: Degustação de culinária da comunidade quilombola de Machadinha do município de Quissamã /RJ.
Oficinas de dança e percussão: Grupo Kina Mutembua e Grupo Makala.
Seminário 1: Conhecer a África para entender o Brasil com o Embaixador Alberto da Costa e Silva.
Seminário 2: O que é Ação Afirmativa?
Cinema: Filmes "Vista a Minha Pele" e "Filhas do Vento" de Joel Zito Araújo e exibição dos programas "A Cor da Cultura – série Mojubá".
Roda de Samba: Grupo Terno de Cambraia, participações especiais de Ircéia Pagodinho, Renato Milagres, Dorina, Iracema Monteiro Edinho Oliveira, Leandro D'Menor, Efisom e Zé Luiz do Império.
Shows: Grupo de dança Makalá, Banda Farofa Carioca, Banda Afroreggae com participação de Preta Gil e show da cantora Rita Ribeiro.

Os homenageados que receberam o prêmio
O Negro em Cena:
Abdias do Nascimento
Destaca-se pelo engajamento na luta contra o racismo desde a década de 30. Entre suas inúmeras ações, funda o Teatro Experimental do Negro em 1944 Entidade que patrocina a Convenção Nacional do Negro em 45-46. Esta convenção propõe à Assembleia Nacional Constituinte de 1946 a inclusão de políticas públicas para a população afro- descendente e um dispositivo constitucional definindo
a discriminação como crime de lesa-pátria.
Gilberto Gil
Foi o Ministro da Cultura do Governo Lula no período deste projeto. Em 1968, com o LP “Gilberto Gil”, inicia o Tropicalismo. Ele e Caetano Veloso foram as principais figuras. Em 69 foi preso pela ditadura cívico militar e lançou uma de suas músicas mais famosas: “Aquele Abraço”. Partiu para o exílio na Inglaterra, voltando ao Brasil em 1972. Sua carreira internacional lhe rendeu vários prêmios, inclusive um Grammy na categoria Melhor disco de World Music em 1998, pelo álbum "Quanta Ao Vivo".
Dona Ivone Lara
Carioca, cantora e compositora desde os 12 anos de idade. Foi a primeira mulher a compor samba-enredo. Era madrinha da ala dos compositores de sua escola Império Serrano. Desfilava desde 1968 na ala das baianas. Os maiores intérpretes da música brasileira já gravaram sucessos de D. Ivone Lara. Entre eles, Gal Costa, Maria Betânia, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Roberto Ribeiro. Apresentou-se em vários países da Europa, América do Norte e do Sul, África e Ásia.
Joel Zito Araújo
Cineasta, roteirista e Doutor em comunicação pela ECA/USP. Realizou 24 documentários e 22 média metragens. Destaca-se o documentário "A Negação do Brasil", do ano 2000, sobre a participação de atores negros na televisão. O filme mostra a contradição que vivemos no Brasil, um país marcadamente multirracial, mas que nas suas produções televisivas e cinematográficas se prende a uma estética do branqueamento. Diz Joel: “Você não pode discutir cidadania se o país não tiver orgulho da sua composição multiética, multirracial acial, multicultural”.
Fotos: Ierê Ferreira e Antônio Terra

Revista O Negro Em Cena

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Altay Veloso: Alabê O Poeta
Ierê Ferreira texto e fotos
Café Com Canela
Por: Vitor Dassiê
GAZA a Nakba
Por: Vik Birkbeck
Planet Rock: novos Tambores chegam à Terra Brasilis".(Parte 2)
Por Zulu_King TR DJ
Exposição Afro Imaginarte

Editorial
Com o mundo em ebulição de guerras físicas, políticas, comerciais, virtuais e frias, chegamos na edição de número oito, com muitas esperanças de dias melhores, pedindo aos DEUSES e ORIXÁS que iluminem os nossos caminhos e Inspirados nas mais lindas canções e palavras do Alabê de Jerusalém e de seu criador, o cantor, músico, escritor e ator Altay Veloso, nosso homenageado nesta resistente revista.
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Também condenamos o genocidio absurdo na faixa de Gaza com o artigo lúcido e esclarecedor da nossa colunista convidada Vik Birkbeck e fotos de tirar o fôlego do fotógrafo de guerras Hosny Salah.
Seguimos com a nossa Trilogia do RAP, "Planet Rock: novos Tambores chegam à Terra Brasilis" (Parte 2). Por: Zulu_King TR DJ colunista convidado.
O cinema Brasileiro mais uma vez ganha destaque em nossa revista, onde o colunista convidado Vitor Dassiê faz uma profunda análise do lindo filme Café com Canela.
Sejam bem-vindos, façam uma boa viagem em nossas páginas.
Equipe editorial:
Editor e fotógrafo: Ierê Ferreira
Colunista convidado: Zulu_King TR DJ, Vik Birkbeck e Vitor Dassiê
Colunista e revisora: Sylvia Arcuri
Produtora: Daniele da Silva Araújo
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O Negro Em Cena
GAZA: a Nakba
Por: Vik Birkbeck
Fotos: Hosny Salah

A Nakba marca o início da destruição da pátria palestina.
A Catástrofe dos Palestinos aconteceu em 1948. Com a Declaração Balfour, antes da Segunda Guerra, a Inglaterra tinha reconhecido o direito dos sionistas de criar um Estado na Palestina. Uma comissão da ONU veio parcelar o país, sem ouvir os habitantes.
O sionismo tem muitas semelhanças com o nazismo. São ideologias do final do século XIX início do XX surgidos do mesmo canto da Europa, privilegiando um único grupo humano e empregando a estratégia de genocídio. Foram tão próximas que os sionistas fizeram um tratado com os nazistas em 1933 o Acordo Haavara, para a transferência de 60.000 judeus alemães para a Palestina, entre 1933 e 1939. Muitos judeus não concordavam com a ideologia dos sionistas e o holocausto nazista foi útil para convencê-los a ir para Israel.

O projeto dos sionistas, desde o início, era a criação de um Estado judaíco exclusivo. Esse projeto antecede, por décadas, à Segunda Guerra Mundial. Em 1947 pré-nakba, a população da Palestina consistia em: 61% de muçulmanos; 31% de judeus e 8% de cristãos. A divisão oficial da ONU designou 55% das terras da Palestina para Israel, mas eles queriam muito mais. Antes do fim do mandato britânico já desencadearam o terror, expulsando os palestinos tanto das cidades como das aldeias. Tem inúmeros relatos de massacres como de Deir Yassim, Lydda, Abu Shusha, Safsaf e Tanturra. Homens foram fuzilados, mulheres estupradas e as casas das aldeias demolidas. Mesmo nas áreas onde a convivência entre palestinos árabes e judeus já duravam décadas, a destruição corria solto. Até 1950 os israelenses tinham invertido totalmente o equilíbrio demográfico da área. Os árabes palestinos foram expulsos para campos de refugiados, na Cisjordânia sob o reino da Jordânia e Gaza sob o domínio do Egito. Os israelenses reescreveram a história da região. Embora a ONU declarasse o direito de retorno do povo palestino, Israel jamais permitiu, se apossando não somente das terras cultivadas mas, também, dos negócios, padarias, comércios, restaurantes e bancos palestinos e nunca houve qualquer tipo de reparação. A acusação de anti-semitismo que os israelenses fazem contra quem defende a Palestina não procede, tanto os palestinos quanto os judeus do Oriente Médio são povos semitas. Os imigrantes da Europa e dos Estados Unidos não são semitas e sim Ashkenazi, como a maior parte da elite israelense.
A cúpula sionista espalhou o mito dos indefesos judeus cercados por países árabes hostis. Enquanto os palestinos continuavam a reivindicar o direito, oficialmente garantido pela ONU, de retorno às suas casas. Israel construiu colônias ilegais, às pressas, nas terras palestinas e criou mecanismos para incentivar a migração de judeus americanos e europeus para o novo Estado de Israel. A legislação restringe a cidadania de Israel aos judeus. Os palestinos não são mais cidadãos na sua própria terra, vivendo sob um regime de controle militar brutal.
O genocídio é a consequência inévitavel dessa doutrina. A matança de crianças em Gaza ultrapassa todas as guerras do mundo. Os médicos relatam crianças alvejadas na cabeça por franco-atiradores israelenses, ou por drone quadricóptero. Já foram 19.000 crianças mortas identificadas, além de um sem-número enterradas debaixo dos escombros das suas casas. Há relatos de adolescentes baleados nos genitais, mulheres grávidas abatidas, nos bombardeios dos hospitais.
Gaza é o primeiro genocídio de live-stream da história. O mundo acompanha o massacre graças à coragem e trabalho incansável dos jovens jornalistas palestinos. Desde o início, Israel tem impedido a entrada da imprensa internacional. De fato, o colete azul de imprensa virou alvo das forças israelenses em Gaza, que já assassinaram 230.
A palavra dos jornalistas é reforçada pelos testemunhos dos médicos internacionais, servindo como voluntários em Gaza. Mais de 1.200 médicos e enfermeiros já foram vitimados.
A torrente de imagens da barbárie israelense tem gerado protestos mundo afora, sobretudo dos jovens ligados ao instagram, tiktok, entre outras redes, mas os líderes políticos têm se mostrado mais interessados em faturar com a venda de armamentos e a grana dos lobbies israelenses como AIPAC nos EUA - “Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel”.
É gritante a hipocrisia da imprensa ocidental. É como se os 77 anos de massacre dos palestinos não contassem. Existem milhares de palestinos detidos nas cadeias israelenses sem qualquer acusação, incluindo mulheres, anciãos e até crianças, mais os israelenses sequestrados pelas forças de Hamas em outubro de 2023 que são “reféns”. Os israelenses têm derrubado todas as tentativas de negociação e quebram unilateralmente o cessar-fogo, pois estão mais interessados em prosseguir com sua matança do que em soltar os reféns.
Há dois meses 2 milhões de palestinos de Gaza também enfrentam a falta de comida, água potável, medicina e combustível com as fronteiras fechadas pelas tropas israelenses.

Do outro lado, centenas de caminhões carregados com ajuda humanitária procedente de todos os países do mundo, esperam.
O único “crime” dos palestinos é de serem os donos da terra que os sionistas resolveram transformar na terra de Israel, terra prometida, seguindo uma mitologia bizarra que remete ao Velho Testamento, utilizando a hipótese de autodefesa que não procede no caso de uma ocupação ilegal. Israel já pulverizou todas as escolas, universidades, hospitais, abrigos das próprias Nações Unidas, estradas, padarias, plantações, estufas e a maior parte dos prédios residenciais de Gaza, lembrando que a extensão inteira da Faixa de Gaza, onde já jogaram o equivalente a duas bombas atômicas, é comparável com a extensão da Barra de Tijuca. Será que o mundo vai continuar realmente de mãos abanando até a “solução final” de Netanyahu? Parece que só tem duas maneiras de frear os israelenses: boicote econômico e um embargo geral no envio de armas. Já ficou claro que Israel tem absoluta certeza da sua impunidade de qualquer lei internacional.
Agora, pessoas do mundo todo estão chamando para uma marcha de Gaza até a cidade fronteiriça de Rafah onde os caminhões de ajuda humanitária para Gaza estão parados.
Com protestos pelo mundo inteiro, parece que a população mundial não vai mais esperar ações dos seus governos. O presidente Lula, já se declarou contra o genocídio diversas vezes.

Criador: TexBr | Crédito: Getty Images
O Negro Em Cena
O ano de 1992 representou um marco importante para o Rio de Janeiro, sendo o local de realização da "Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento", também conhecida como ECO-92 ou Rio-92. Ocorrido entre 3 e 14 de junho, a ECO-92 foi uma das maiores conferências ambientais da história, com a participação de chefes de Estado e representantes de vários países. No entanto, o RAP do "Artigo 288", grupo oriundo de Padre Miguel, Zona Oeste da cidade, trouxe uma visão diferente dos fatos alertando a sociedade sobre os problemas velados: "ECO-92/ No país onde o povo come só feijão com arroz", dizia o refrão da letra que denunciava o que estava por trás do cartão postal.
Lançado nesse mesmo ano, o "Jornal Afroreggae Notícias" significou o ponto de partida para o Grupo Cultural AfroReggae, cuja finalidade desde então é promover a inclusão social e combater o preconceito através da arte e cultura das favelas cariocas.

ECO 92

A publicação serviu como um veículo para expressar a visão do grupo, abrindo portas para a Cultura HIP-HOP através da coluna do rapper "Big Richard", do Rio Cumprido, e líder da Associação Atitude Consciente (ATCON) – coletivo cultural que passou a reunir nomes do RAP como Artigo 288, Ryo Radikal Repz, Spike E, Olho Negro, Damas do RAP, Paula Diva, N.A.T., Ponto 50, Grupo Consciente de Break da Rocinha (GBCR), Consciência Urbana, Filhos do Gueto, Poesia Sobre Ruínas, Geração Futuro (onde MV Bill era líder), entre outros artistas organizados no Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), em suas reuniões aos sábados na sede da entidade, no bairro da Lapa, no centro do Rio.

Damas do Rap, MV Bill, Banda Nocalte, Gabriel Pensador, Marcelo D2 e GBCR
Fotos: Ierê Ferreira
Grupos internacionais como Rage Against the Machine, Cypress Hill, Public Enemy e Body Count experimentaram valiosas fusões entre o Rock e o RAP trazendo inspirações para o surgimento de bandas nacionais como "Planet Hemp", formado inicialmente por Marcelo D2 e Skunk que tinham a região central da Lapa como o seu reduto; enquanto a "Nocaute", de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, formada por Nino Rap e Eddi MC trazia além das letras desmedidas a habilidosa "Sista Wolf" no comando da bateria... Foi a vez também de "Gabriel O Pensador" ganhar notoriedade na cena do RAP com a sua música "Tô Feliz (Matei o Presidente)", que se tornou um grande sucesso lançado pela extinta RPC FM, durante uma madrugada, após o programa RPC Megamix do DJ Memê. Embora tenha sido censurada devido ao seu tom crítico sobre a política do país, direcionada exclusivamente ao então presidente Fernando Collor de Mello, a canção, que refletia a instabilidade política da época, foi um marco na carreira do rapper e impulsionou o seu crescimento artístico e a atenção da época para a Cultura HIP-HOP dos próximos anos...Continua...




Rage Against the Machine

Cypress Hill

Public Enemy




O Negro Em Cena
Café com Canela
Por: Vitor Dassiê
A Bahia já foi cenário de inúmeros filmes, livros, novelas, contos... As festas da Bahia são celebradas por sua expressividade e alegria, mas será que essa imagem da Bahia, exportada para a apreciação de turistas, é sua única expressão? Que outros afetos podem e precisam ser encenados e vividos coletivamente, além da alegria esfuziante do carnaval? As cenas iniciais de Café com Canela (2017) intercalam as imagens de duas festas. Uma acontece no futuro próximo em relação ao tempo do filme e a outra, anos antes. Ambas celebram a vida e seus encontros, desencontros e reencontros, mas não pretendem vibrar na mesma frequência das grandes festas da região. A primeira é uma festa de aniversário de criança. Simples, com guaraná, bolo e primos. A segunda, um churrasco no terraço entre amigos e família.

O retrato que estas imagens revelam mostra uma Bahia distante daquela Bahia folclorizada. É um retrato tirado de dentro, da intimidade, da realidade. Retrato que mostra o cotidiano de pessoas comuns e que por isso traz a leveza desses encontros, recurso usado pelos diretores para lidar com os temas que o filme aborda. É que se este retrato mostra o desejo de celebrar a vida, precisa, por força da realidade, lidar com o peso da morte em suas diferentes manifestações. Escrito e dirigido por Glenda Nicácio e Ary Rosa, jovens cineastas formados pela também jovem Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Café com Canela (2017) ganhou os prêmios de melhor filme, melhor roteiro e melhor atriz no Festival de Brasília daquele ano. Apesar da gravidade que o tema escolhido pelos cineastas exige, a forma com que é abordado produz um filme surpreendentemente leve que põe em paralelo os ciclos naturais da vida e a imagem do longo processo de luto de uma mãe negra que perde seu filho precocemente – e todas as conexões que este evento ficcional inevitavelmente produz com a realidade das comunidades negra, indígena, LGBTQIAPN+ e de outros grupos vulneráveis. Em resumo, o drama gira em torno do reencontro de Violeta (Aline Brunne), uma jovem mãe que vende coxinhas de porta em porta para ajudar na renda da família, e Margarida (Valdinéia Soriano), sua antiga professora. Aprisionada às memórias de seu filho morto muitos anos antes, Margarida vive como se estivesse presa a um filme que se repete eternamente, mas que não pode trazê-lo de volta.
[IMAGEM 001] Tal situação a levou a um estado de depressão profunda e de isolamento social. Em paralelo, Violeta cuida de sua avó, D. Roquelina (Dalva Damiana de Freitas), que, em idade avançada, está cercada do carinho e cuidado dos seus, enquanto aguarda seu momento de fechar o ciclo da vida. [IMAGEM 002] Cuida não apenas de sua saúde, alimentação e afeto, mas também de sua vaidade. Por um lado, a possibilidade da morte da anciã, evento que fecha naturalmente o ciclo da vida que se renova em potencialidades e desejos. Por outro a morte que paralisa e aprisiona.
Denise Ferreira da Silva estuda como a racialidade é um fator determinante e justifica a decisão do Estado de matar determinadas pessoas, em detrimento de outras, fenômeno que tem origem nos processos que constituíram a sociedade brasileira. Condição gerada pela disponibilidade de corpos não brancos para a morte e pela supressão tácita, porém efetiva, dos direitos civis destas populações.
Ou seja, a produção social de grupos de não-cidadãos que, se de acordo com a lei, gozam de igualdade de direitos, na prática seguem relegados em castas. Com poucos recursos para conduzir as mudanças que os levariam a sair do lugar de marginalidade a que foram empurrados, seguem sendo corpos vulneráveis, desprotegidos pela lei tácita da impunidade. O foco do filme, no entanto, não está nos processos sociais que produzem cidadãos e não-cidadãos na sociedade brasileira. A causa da morte do menino sequer é mencionada. Poderia ter sido causada tanto por uma doença grave em seu corpo quanto pela doença social brasileira que mata tantos meninos diariamente. É verdade que silêncio também é parte do discurso e se a trama não aborda de forma explícita a questão, isto faz com que a razão e o significado da morte do menino gritem um grito abafado. Mas, de fato seu discurso aborda de forma muito mais visual as consequências deste fenômeno nas vidas íntima e social das pessoas; a forma como um evento como este, muito mais comum e presente nas vidas dos grupos racializados, transforma potencialidades em paralisias; e como a articulação e solidariedade interna têm o poder de reverter a situação. O confinamento e paralisia emocional de Margarida é mostrado ao espectador e vivido pela personagem por meio das imagens da relação dela com sua casa.


O local, hoje abandonado e sem cuidado, ainda que habitado por ela, contrasta com as imagens em flashback da festa alegre dada em comemoração ao aniversário do menino anos antes. [IMAGEM 003] A imagem de uma mesma casa mostrando vida, contrasta com a outra que se converteu em uma espécie de mausoléu onde Margarida perambula como uma assombração do que foi no passado. Em uma das muitas cenas que procuram traduzir em imagens o processo de confinamento e luto vivido por ela, as paredes de sua cozinha se movem oprimindo a personagem. [IMAGEM 004] Antes ativa – lecionava, cuidava da casa e do filho e tinha uma vida afetiva saudável com marido, amigos e família – hoje parece se alimentar de café e cigarros enquanto tem suas potencialidades oprimidas pelas paredes do lar que se converteu em mausoléu. Imagem universal da mãe que deseja a morte quando perde seus filhos, que quer ir junto com eles para o túmulo. A dor é um discurso e como tal, molda a atuação de quem sofre. E a dor imposta é, desde sempre, um discurso com objetivos específicos a alcançar. É um recado, uma fronteira desenhada. Pode-se dizer que Café com Canela conta uma história universal: a mãe que perde um filho, seu filho único, e tem que lidar com o vazio dessa perda. No entanto, as cordas que esta perda faz vibrar em um membro de uma comunidade secularmente (e atualmente) perseguida ressoam em tonalidades mais profundas e de forma ainda mais intensa. Não é que a perda seja menos sentida pelas mães em outros grupos sociais. É que se a morte prematura, porém aleatória, impõe luto, a morte de mais um jovem negro traz o confinamento que a estrutura social brasileira procura impor a esta comunidade em um sistema de castas que a cada palavra parece querer dizer até onde eles podem ir. A dor particular passa a ser coletiva. Se a violência é intencional, as paredes que oprimem ganham uma nova dimensão e o mausoléu vira também prisão. A morte do filho de Margarida, sem uma causa clara, traz esta reflexão: qual é o real motivo da morte do menino?
O silêncio que a trama impõe sobre a causa da morte do menino é um recurso também usado em outros momentos, como na história paralela de Ivan (Babu Santana) e seu companheiro Adolfo (Antônio Fábio). Ainda que aparentando saúde nas cenas iniciais, Adolfo é encontrado morto em sua casa. Sua cena final deixa mais uma vez em aberto a causa e o significado daquela morte. A violência, seja física ou psicológica, induz a ação e molda o comportamento. E a história paralela de Ivan e Adolfo cumpre sua função de apresentar outros pontos de vista sobre o tema que o filme propõe. É inevitável, como expectador, cogitar suas causas possíveis. Teria sido um mal súbito? A trama não dá nenhuma pista antes ou depois do evento. Assassinato? Não há sinais de violência. Suicídio? Durante o churrasco na casa de Violeta, família que os acolheu, a rejeição que Adolfo sofria em família é mencionada por Ivan. Ainda que silenciada, a dor de Ivan, um homossexual negro, faz lembrar na sua comunidade o silêncio como imposição. Da mesma forma, a dor de Margarida igualmente vibra as cordas da dor coletiva em sua comunidade e a forma exagerada como responde à dor ao longo dos muitos anos que passou aprisionada deveria fazer soar na sociedade em geral a mensagem: nossos filhos estão sendo assassinados. Mas a naturalização da dor imposta e de suas respostas igualmente naturalizadas e silenciosas causam ruído em nossa percepção.
Christina Sharpe, em No Vestígio: Negridade e Existência, pensa a presença da morte e a necessidade de luto e vigília constantes como a forma como se produz a consciência do que é ser negro nas Américas. O estado de alienação em que Margarida se encontra a afasta de sua comunidade, mas também de sua ancestralidade. Ela não quer mais se ver no seu espelho, recusa a própria imagem, como uma Oxum sem vaidade que perde assim sua própria identidade. [IMAGEM 005] Estas e outras tantas imagens que trazem a mística e a simbologia da religiosidade negra são os primeiros elementos que traduzem para o espectador a ideia de cuidado e vigília a que se refere Sharpe. [IMAGEM 006] No entanto, é a ação direta de Violeta que vai mover a trama. É sua insistência diante das várias recusas de Margarida que leva o espectador a se identificar. Estes mesmos elementos, vaidade e identidade, se repetem no cuidado da neta com sua avó. Violeta se vê na sua avó, se identifica nela como quem se olha em um espelho. Os mesmos cuidados que dedica à sua própria imagem [IMAGEM 007], dedica a D. Roquelina, ainda que esteja inválida e possivelmente nos últimos momentos de sua vida. A história paralela de Violeta com D. Roquelina traz a tristeza da morte, assim como a história de Margarida, mas ao contrário desta, traz também as potencialidades que a renovação dos ciclos da vida promove e os desejos que transformam potencialidades em ações.

A vigília e o cuidado que o luto naturalmente incita levam Violeta a se ver em sua avó como em um espelho. Quando ela estende a vigília e o cuidado à sua comunidade, se cumpre o fenômeno que Sharpe observou. A dor individual ganha uma dimensão coletiva e traz a consciência de que aquele não é apenas mais um exemplo do paradigma universal da mãe que perde seu filho. Estas mães estão confinadas, existe um desejo de confiná-las, desejo expresso pelo discurso da violência. Café com Canela faz ressoar essa corda que nos diz a todos: “nossos filhos estão sendo assassinados”. Ou pelo menos deveria dizer, independentemente de a que grupo se pertence. Se você não sente a palavra filhos como “nossos”, pelo menos um “nosso país deste jeito está sendo assassinado” já resolveria. Café com Canela aborda todos estes temas com a leveza de um encontro corriqueiro entre amigos, mas sem deixar de abordar cada um dos aspectos que propõe. O que Café com Canela quer é reunir as pessoas.

O Negro Em Cena
Altay Veloso: Alabê O Poeta
Texto e Fotos: Ierê Ferreira
Altay Veloso da Silva nasceu em 26 de fevereiro de 1951 e é natural de São Gonçalo, Rio de Janeiro. Poeta, músico, cantor, compositor, escritor e ator brasileiro, ele carrega uma rica herança cultural: neto de um acordeonista e filho de um jongueiro capixaba com uma sacerdotisa de religião de matriz africana.
Aos 21 anos, começou a compor e, graças ao seu talento, foi convidado a integrar bandas de grande prestígio do Rio de Janeiro, como O Rancho e Bando do Bando, que deu origem à lendária Banda Black Rio. Na convivência com virtuosos instrumentistas, Altay aprimorou seu ofício até participar do MPB Shell em 1980, quando lançou seu primeiro álbum autoral, O Cantador, pela RCA.
Nas décadas seguintes, consolidou sua carreira com álbuns como Sedução (1987) e Paixão de d'Artagnan (1988), pela Warner Continental. Suas canções marcaram trilhas sonoras de novelas da Rede Globo e foi convidado, por três anos consecutivos, para o Festival de Jazz de Montreal, onde se apresentou ao lado de grandes músicos brasileiros e do renomado saxofonista canadense Jean Pierre Zanella.


Sou um parágrafo. Clique aqui para adicionar e editar seu próprio texto. É fácil.
Em 1996, compôs o pagode romântico Antes de Dizer Adeus, interpretado pelo grupo Soweto e regravado por diversos artistas ao longo dos anos. Em 1998, fundou seu próprio selo e estúdio de gravação, lançando Nascido em 22 de Abril, álbum totalmente dedicado ao Brasil, no qual atuou como único arranjador e instrumentista.No ano 2000, a icônica cantora Leny Andrade dedicou um álbum inteiro à obra de Altay Veloso, Leny Andrade canta Altay Veloso. O disco traz interpretações marcantes, incluindo a canção Estrela Luminosa, um dos grandes momentos da carreira do compositor.Entre 2002 e 2006, Altay integrou o corpo de jurados do Prêmio Sharp/Tim, compôs para diversos artistas e produziu trilhas sonoras para publicidade e curtas-metragens. Em 2004, lançou o livro O Alabê de Jerusalém, e no ano seguinte escreveu a maior ópera negra da história do Rio de Janeiro. Antes de ser encenada, a ópera foi lançada em CD e DVD, tornando-se um marco no teatro negro brasileiro.


A obra narra a saga de Ogundana, um africano que viveu no tempo de Jesus, dominava conhecimentos de medicina e acompanhou Pôncio Pilatos em sua jornada de Roma a Jerusalém. Séculos depois, Ogundana retorna como entidade espiritual para contar sua experiência. A ópera aborda temas como tolerância religiosa, convivência pacífica e a intersecção entre o cristianismo e a cultura afro-brasileira. O título Alabê faz referência ao sacerdote dos tambores na tradição afro-brasileira, cuja missão é conectar o mundo terreno ao espiritual através da música.Aqui quero destacar que O Alabê de Jerusalém foi uma das coisas mais lindas que eu já vi, um mar de gente em cena, movimentos, coreografias, texto e músicas em perfeito sincronismo e uma história arrebatadora, cheia de simbologias espirituais como as Yabás, amparando Maria, a mãe de Jesus, no seu calvário. Sempre que vejo as fotos dessas cenas as lágrimas me enchem os olhos, não pela dor, mas pela beleza daqueles momentos poéticos.

Em 2016, a obra inspirou o samba-enredo da Unidos do Viradouro. No mesmo ano, Altay venceu o concurso de samba-enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel, sendo um dos autores da trilha sonora do enredo As Mil e Uma Noites de Uma ‘Mocidade’ Pra Lá de Marrakesh, que ajudou a escola a conquistar o título do Carnaval de 2017, junto com a Portela.
Altay Veloso é um compositor e escritor que tem suas canções eternizadas nas vozes de grandes artistas brasileiros, incluindo Roberto Carlos, Alcione, Leny Andrade, Jorge Vercillo e muitos outros nomes de destaque na música.

“Estrela Luminosa".Composição: Altay Veloso
Maria cheia de raça Não teve de graça o que recebeu Quando alguém é um rio que gera um oceano Não há nenhum tirano que arranque o que é seu
Um ventre quando se transforma em um santuário
É revolucionário ao meu modo de ver
Ninguém vai do parto ao santo sudário sem saber porque
Tem que ter a luz da humildade Cumplicidade, amor e revelia Ninguém se torna mãe da cristandade sem a santa ousadia
Olhos que velaram pelo sono de Adonai Clareai o mundo, mãe, iluminai
Cada vez que um de nós se vê tentado Pela insana covardia Divina mãe Estrela luminosa que perpetuou Belém Guerreira mãe
Nos dias de trevas nas ruas de Jerusalém Olhai por nós nas horas de tristezas, nos momentos de aflição
E derramai a poderosa força de vontade em nosso coração

40 AnosTrecho da canção de Altay Veloso e Paulo Cesar Feital
São 40 anos de aventuras
Desde que mãe teve a doçura
De dar a luz pra esse seu nego
E a vida cheia de candura
Botou canção nesses meus dedos
E me entregou uma partitura
Pra eu tocar o meu enredo
Sei que às vezes quase desatino
Mas esse é o meu jeito latino
Meio Zumbi, Peri, D. Pedro
Me emociona um violino
Mas também já chorei de medo
Como chorei ouvindo o Hino quando morreu Tancredo
Dos 40 anos de aventurasSó 20 são de ditadura
E eu dormi, peguei no sono e acordei no abandono
Meu país tava sem dono e eu fora da lei
Me apaixonei por Che Guevara Quase levei tapa na cara
Melhor é mudar de assunto
Vamo enterrar esse defunto
Melhor lembrar de Madalena
De Glauber Rocha no cinema
Das cores desse mundo
Foto: Jorge Ferreira
O Negro Em Cena
Apresentação
Afro Imaginarte é uma proposta de reflexão sobre a luz que nos ilumina versus a luz que habita em nós. É um olhar afrocentrado do fotógrafo sobre os espaços que ocupamos, nossos gestos, as cores que vestimos, nossa cultura, o contraste entre luz e sombra e a harmonia poética da imagem na arte da fotografia, tanto colorida quanto em preto e branco.
Este trabalho foi concebido a partir da escolha que fiz, em minhas andanças, de retratar nosso povo, de imprimir e emoldurar as cenas que selecionei primeiro garimpando e restaurando molduras, depois as produzindo artesanalmente, no melhor estilo nós por nós.
Ierê Ferreira






O Negro Em Cena
Revista de arte e cultura






























































