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Escrita da Luz Divina

Ensaio fotografico de Severino Silva.

O multiartista Paulinho Sacramento

fala sobre o maior festival de Vídeo Mapping da América Latina.

A ESCREVIVÊNCIA DE CONCEIÇÃO EVARISTO

POR: IARA BRANDÃO FERREIRA

OTHELO O GRANDE

Um documentário de Lucas H Rossi

Editorial

"É unindo nossa gente que vamos pavimentar as estradas por onde vão passar nossos filhos. Construindo e  imprimindo nossas histórias e preservando memórias ancestrais, deixando o legado como herança".

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Foto de capa: Ierê Ferreira 

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Editor: Iere Ferreira

Colaboradoras: Daniele da S. Araújo,

Sylvia Arcuri, Iara Brandão Ferreira

Nossa revista entra no mês da consciência

negra emanando potência para todos os lados, enchendo de brilho os olhos dos nossos leitores com o ensaio de um dos fotógrafos profissionais mais admirados pelos companheiros de trabalho e pelos

amantes da fotografia.

Nosso parceiro Severino Silva traz o seu olhar poético em “Fé, Luz e Sombras”. Um mergulho em nosso rico sincretismo religioso.

Saudamos a escrevivência de Conceição Evaristo com a prosa da jovem colaboradora Iara Brandão Ferreira e fotos de minha autoria.

Conversamos com o multiartista e cineasta Paulinho Sacramento que criou o maior festival de vídeo mapping da América Latina. “O Rio Mapping Festival”, que ja iluminou com multiplas projeções, do Cristo ao

Santo Cristo passando pela Câmara dos vereadores, Gabinete Real Português, Edifício A Noite entre outras fachadas dentro e fora do nosso estado e do nosso país.

E vamos conhecer o jovem cineasta Lucas H Rossi que com ousadia e consciência produziu o documentário (Othelo O Grande), ganhador do prêmio de melhor documentário do Festival do Rio e destaque no Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul.

Como eu havia dito é potência para todos os lados

 

Revista O Negro Em Cena

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O autor nos leva em suas viagens até lugares distantes, distintos, numa imersão em festividade da fé, romarias, círios, rituais e oferendas de nosso rico sincretismo religioso, ora numa vertente mais cristã, ora via cultos de origem africana.

Mas nāo se trata do tiípico olhar estrangeiro ou de quem visita com curiosidade tais procissões e rituais, são imagens de dentro das cenas e cenários de fé, são personagens que nos levam pela mão, que nos recebem eu seus lugares de oração e nos abençoam junto às coisas mais sagradas em suas vidas.

Escrita da Luz Divina

Nosso imenso Brasil é um país sempre plural, seja por sua diversidade étnica, seja por sua multiplicidade cultural, na mostra fotográfica Fé, Luz e Sombra, o fotografo Severino Silva nos convida a uma peregrinação por muitas facetas da religiosidade que se mantêm pelo país afora.

Registrar e expressar fotograficamente esse sentimento arraigado no fundo da alma de cada brasileiro - a Fé - tem sido um dos desafios mais fascinantes para todos os fotógrafos nacionais e estrangeiros num país onde as mais inusitadas e espontâneas forma de religiosidade se cruzam e se desdobram numa mesma necessidade de esperança.

Severino Silva não se restringe a exaltar a espetacular beleza plástica que reveste a fé dos brasileiros por meio de luzes, sombras, cores e volumes. Sua câmera também nos passa a perplexidade de um olhar em busca da origem dessa força que nos ampara nas ásperas jornadas da vida.

Por: Flavio Di Cola

Fotos: Severino Silva

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A Revista O Negro Em Cena tem o prazer de trazer para vocês o maior festival de vídeo mapping da América Latina!

Mas, o que é vídeo mapping?

Marcos Gatto, Paulinho Sacramento e Leandro Malaquias.

Fotos: Ierê Ferreira

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Para responder essa e outras perguntas resolvemos entrevistar o grande artista visual, cineasta e criador do Rio Mapping Festival, Paulinho Sacramento.

Paulinho Sacramento fez diversos filmes, vendeu refrigerante na Praia da Bica, na Ilha do Governador, quando era moleque, já foi camelô, coordenou a área de audiovisual no Circo Voador, já tocou em grupos de pagode e reggae, viajou por diversos países, estudou arquitetura, está como artista residente de pesquisa em arte no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e tudo isso fortaleceu seus pensamentos e atitudes na luta pela cultura e contra o racismo.

Quem foi o jovem Paulinho Sacramento e como a tecnologia lhe afetou?

 

O Paulinho Sacramento foi um jovem religioso, jogador de futebol, pagodeiro e sagaz. Minha avó Mercedes, mãe do meu pai Marcílio, era espiritualmente forte num Centro de Umbanda lá no Manguinhos e minha mãe sempre impôs que a formação católica era importante.

Resultado: Por conta das turbulências familiares e a desorganização da Igreja Católica em seu entendimento de estudo religioso, completei quase 7 anos de catecismo, até a chegada da hóstia. Como a minha família estava sempre se mudando de bairro, os padres não aceitavam a iniciação da igreja do bairro anterior, mesmo sendo a bíblia o direcionamento comum da formação. Por outro lado, sempre me senti à vontade dentro do terreiro, foi ali que conheci os tambores, a dança, o respeito e a arte. Sou forjado no terreiro, na igreja católica e no Cacique de Ramos - local que meu pai me apresentou ainda criança e lá me apaixonei pelo pandeiro, sempre observando o mestre

Bira Presidente construindo suas frases. 

Eu sempre me amarrei em tecnologia e tenho certeza que o samba foi quem mais me aproximou desse olhar, pois foi mexendo em mesas de som, amplificadores, colocando papel alumínio em célula de microfone e bombril em antena de TV que percebi que a tecnologia existia, antes minha percepção era só do botão liga e desliga. Quando percebi que eu precisava estudar tecnologia, entrei pra faculdade de arquitetura, sabe-se lá por que, mas em alguns períodos pulei fora, pois não era nada barato construir maquetes e a distância financeira me tirou daqueles corredores.

O que é vídeo mapping?

Video Mapping é a técnica de exibir conteúdos audiovisuais em formato específico e único para aquele objeto que esta recebendo a obra.

Diferente do cinema que é construído sabendo que a forma de exibição é uma tela branca e que cabe em qualquer sala de cinema, o video mapping é ao contrário, primeiro você escolhe o local onde a obra será projetada, você precisa de um objeto para que o video seja exibido, seja uma fachada arquitetônica, um tênis, uma parede, um carro. Video mapping não tem limites.

É uma vertente financeiramente cara de se realizar, mas com uma grande contra-partida de retorno de público, principalmente quando é realizado em grandes espaços públicos.

Como foi a sua jornada até chegar ao vídeo mapping?

 

Eu não estava mais curtindo fazer filmes pra sala de cinema, ali não me contemplava mais. Eu queria ir pra rua, mas exibir filmes na praça no mesmo formato de tela, também não era o que eu queria.

Eu estava tomando uma cerveja na porta da escola de samba Grande Rio, lá em Duque de Caxias, enquanto eu esperava a condução para ir na casa da minha mãe que mora no Parque Araruama em São João de Meriti, quando eu vi umas luzes verdes em grande intensidade, batendo num prédio do entorno e resolvi ir até o prédio pra ver o que estava rolando. Chegando lá eu vi os camelôs testando canetas laser na base na parede. Era uma intervenção visual foda e eles nem estavam se ligando. Aquela ação me acendeu uma luz. Precisava usar a arquitetura da cidade pra projetar minhas idéias. Comecei a estudar projeção outdoor e o video mapping surgiu em minha vida como mágica.

 

Como e por que você criou o festival?

Em 2010 eu já estava testando projeções pela cidade. Eu tinha acabado de sair do Circo Voador e estava no gás das pesquisas audiovisuais. Em 2013 eu estava agoniado pois já tinha entendido que a técnica era caríssima pra realizar em grande escala e a única alternativa era criar algo coletivo para que eu pudesse ganhar corpo pra inserir na cidade essa possibilidade.

Participei de uma rodada de conversa na Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, na época o secretário de cultura era o Sérgio Sá Leitão, que entendeu perfeitamente a importância do projeto para a cidade e resolveu investir na nossa primeira edição. Depois foi só dar continuidade e hoje já somos o maior festival de video mapping da América Latina.

Quantas edições do festival você conseguiu fazer até agora e em quais lugares?

 

Estamos caminhando para a V edição do festival. As gestões culturais da cidade são flutuantes e políticas e a cada ano, mesmo depois de todos os levantamentos feitos por instituições importantes como a FGV, tenho que gastar saliva pra apontar a importância de um festival como esse pra nossa cidade.

 

Já fiz projeção em dezenas de territórios e fachadas. Cristo Redentor, Igreja da Penha, Real Gabinete Português, Câmara Municipal, Quilombo Machadinha em Quissamã, Edifício a Noite, na Praça Mauá, durante 45 dias consecutivos nas olimpíadas, Morro da Providência, Museu da Maré, Fórum de Nova Friburgo, Taj Mahal (SESC de São João da Barra), Arquivo Público do Estado da Bahia, Porta de Jaffa em Jerusalém, Museu Nacional, entre tantos outros locais e fachadas já receberam obra minha e do meu coletivo BPM Mapping.

 

Quantos artistas visuais nacionais e internacionais já participaram no festival?

 

São dezenas. Eu teria que ver os catálogos pra te dizer ao certo, mas me arrisco rapidamente aqui em alguns nomes que já trabalhamos. Leandro Malaquias, Ricardo Brízio, Jodele Larcher, Marcus Vinicius, Ricardo Cançado (Espanha), Leandro Vigas, VJ Ratón, Jeremy Oury (França), Frouke Ten Velden (Holanda), Vinícius Luz, VJ Leticia Pantoja, Arthur Pessoa, Vinny Fabretti, BPM Mapping, VJ Sará, entre vários outros artistas que já passaram pelo festival.

Durante todas as edições trabalhamos com Prefeitura, Governo do Estado, Oi, Rede Globo, IRB Brasil que foram patrocinadoras pelas leis do ICMS, ISS e Rouanet e tivemos apoio financeiro dos governos Francês, Holandês e Espanhol, o que nos deu a possibilidade de fazer conexões internacionais. Em 2014 fui convidado pelo governo francês para representar o Brasil e estar presente na Fête de Lumieres em Lyon, o que me deu um bom suporte de estudo de grandes festivais tecnológicos, o que alavancou parcerias com diversos artistas, empresas e parceiros por várias parte do planeta.

 

Como e feita a avaliação financeira desse projeto?

 

Primeiro eu escolho as fachadas, depois eu faço o projeto e assim avalio o orçamento. Não é simples, pois, além da parte técnica que é complicada, tem a parte burocrática que é ocupar praças e ruas com projetos de grande porte. Tem projeção que levam 3 mil pessoas para uma praça. Muita gente, equipe imensa, tecnologia e gestão envolvida.

 

Qual é o impacto social que esse projeto traz e onde ele acontece?

 

Sempre priorizamos a parte educacional. Em todos os locais por onde passamos, tudo começa pelas oficinas. O social não é somente contra partida em nosso projeto. Tem aluno que fez nossa oficina em 2014 e hoje está trabalhando com artistas de peso, como é o caso do Malaquias, que já passou pela Furacão 2000 e hoje é VJ do cantor Orochi, um dos grandes artistas da atualidade. Formamos vários profissionais que hoje estão inseridos no mercado. Só na escola de cinema Darcy Ribeiro e nas Naves do Conhecimento, ministramos oficinas gratuitas de video mapping que potencializaram diversos artistas digitais da nossa cidade e fora dela também.

Como artista visual você se sente realizado?

Não, jamais. Acho que nunca vou me sentir. Sofro de hiperatividade e só vou me realizar quando todos os artistas pretos e periféricos se sentirem realizados. Como isso é praticamente impossível e a gestão cultural no país segue ultramente engessada, emperrando a construção da maioria dos projetos, vamos seguindo e realizando da maneira que dá.

E para terminar, gostaríamos de saber quando será o próximo Rio Mapping Festival, onde será e qual a sua expectativa?

 

Estamos em busca de patrocínio, apoio e financiamentos o tempo todo. Já tenho algumas fachadas e prédios históricos que eu gostaria de projetar, mas ainda não temos data. Não tenho muita expectativa, o Rio Mapping Festival é um projeto super avançado em sua existência, para acontecer depende de inúmeras articulações e mesmo com um levantamento da Fundação Getúlio Vargas que aponta que o projeto gera emprego, arrecadação de impostos e lucro sobre investimento, não é tão fácil captar recursos e os editais mesmo com o novo governo, seguem burocráticos em alta escala e ainda estão bem distantes de ser democráticos. Estamos na luta, vamos ver o que vai rolar. Axé.

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Nesta edição da revista “O Negro Em Cena" nos entrevistamos  o jovem Lucas H. Rossi dos Santos.

Formado em Produção Cultural pelo Instituto de Artes e Técnicas em Comunicação, em Cinema pela Universidade Estácio de Sá, e com cursos livres em Imersão em Cinema Negro pelo Centro Afrocarioca Zózimo Bulbul, Produção Executiva na Escola de Cinema de BH e Introdução à Psicanálise pela Faculdade de Teologia e Psicanálise do Rio de Janeiro - FACITEPERJ.

 

Lucas H Rossi atuou como produtor, diretor, montador de diversos projetos audiovisuais para cinema, televisão e publicidade. No campo acadêmico, ministrou diversas oficinas em festivais de cinema e universidades.

 

Como diretor e roteirista, lançou em 2016 seu curta-metragem "O vestido de Myriam", que circulou por 104 festivais de cinema ao redor do mundo, ganhando mais de 40 prêmios. Desde então não parou de circular em festivais até mesmo internacionais, como o 33° Festival de Toulose na França. Atualmente Lucas está comemorando o sucesso do seu primeiro longa-metragem "Othelo, o Grande ", uma cinebiografia do ator Grande Othelo.

 

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O filme que foi contemplado no FSA Prodecine 01/2016, conta com a coprodução da Globo Filmes, Globo News, Canal Brasil e foi lançado no Festival do Rio e já arrematou o prêmio de melhor documentário no Festival.

Grande Othelo, pseudônimo de Sebastião Bernardes de Souza Prata, foi um ator, comediante, cantor, produtor e compositor brasileiro que faleceu em 1993 e deixo um enorme legado para a arte brasileira.

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O Negro Em Cena:​

Quanto tempo você levou para conceber seu primeiro e já premiado longa-metragem e o que te motivou a contar essa história?

Foi uma longa jornada, o processo de realização do filme levou cerca de 08 anos desde que começamos a elaborar, pesquisar, levantar recursos para trabalhar e finalizar o filme.

Quanto a motivação, acho que todas as pessoas negras que trabalham com cultura no Brasil, tem o Grande Othelo como referência, como um ancestral - a motivação também é fruto dessa conexão de identificação entre diferentes gerações, conectadas pela arte, pelo cinema e pela negritude.

Ao longo do processo de pesquisa do documentário, o quanto o personagem Grande Othelo te transformou e qual é a sua expectativa com relação ao público e críticas do filme?

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Acho que a minha formação sobre a história do cinema brasileiro é toda em cima de Othelo, da trajetória dele e dos caminhos que ele abriu, passando por diversos momentos da construção de uma identidade do Brasil nas telas.

Gosto sempre de imaginar e me referir a ele como um Griot - um sábio mais velho que veio ao mundo com a linda e dura missão de passar aprendizado e cultura para novas gerações.

Diante disso, penso que Othelo me transformou de várias maneiras e me deixou mais atento na construção do nosso olhar crítico para o mundo - para o papel do negro na construção do cinema brasileiro e no olhar do mundo (muitas vezes cruel) para nós pessoas negras.

Quanto as expectativas, estou bem animado e confiante no filme que construímos.

O filme é todo narrado em primeiro pessoa, o que faz com que possamos conhecer o que existe por trás do artista. Essa pesquisa de linguagem documental que quebra as cartilhas cinematográficas mais comuns e esperadas, me interessa muito.

Já em relação as críticas, como a maior parte das pessoas que escrevem sobre cinema ainda são pessoas brancas, deles, sabemos bem que não podemos esperar nada.

Embora eu tenha me surpreendido com os elogios e a recepção calorosa que o filme tem tido, também tenho vivenciado questões de reflexão sobre a raça.

Acordei outro dia com um crítico de cinema indicando meu filme sem citar meu nome, dia desses eu fui exibir o filme num festival e o apresentador quando foi me chamar ao palco para apresentar a sessão, não sabia meu nome - pronto para solucionar a questão, me chamaram de "equipe".

Não que isso seja pejorativo, pelo contrário - eu acho a ideia de equipe e coletivo fundamental no processo de fazer cinema, mas é que não se trata disso.

A reflexão que fica é: será que fariam o mesmo com um diretor branco qualquer?

De toda forma, a gente vai levando o barco devagar e com riso largo, vamos construindo um mundo melhor para se viver.

Mas, seguimos atentos e pisando leve em terra firme.

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Qual é a frase do personagem Grande Othelo que você gostaria de deixar aqui para os nossos leitores?

 

"Aquilo que você me vê representar, não tem nada a ver comigo, e nem tem nada a ver com o negro brasileiro. Mas eu preciso sobreviver..."

 

Com o boom das plataformas de streaming, como você vê o cinema negro nacional hoje e que caminhos essas produções devem seguir na sua opinião?

 

Penso que, hoje em dia, tem várias formas de se realizar um projeto.

O digital já viabilizou muito a forma de produzir cinema, a internet se tornou um canal livre de experimentação e produção de conteúdos, os streamings têm se interessado por diversos projetos de diferentes naturezas, e tudo isso fez a gente se reinventar um pouco.

No fundo, tem espaço (não confundam com chances) para todo mundo.

Essas frentes, de forma assertiva ou não, acabam sendo novas maneiras de abrir caminhos e possibilidades para novas produções de filmes com protagonismo negro nas telas e nos bastidores.

Em resumo, o que mais me instiga hoje, no cinema negro brasileiro, são duas coisas:

A primeira, é entender que podemos assumir o protagonismo da nossa própria história. O que significa que cada vez menos precisamos de intermediários para realizar filmes e projetar nossas imagens e vozes em telas grandes ou pequenas.

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A segunda, é ver a gente conduzindo os processos em posição de liderança, com mais afeto e delicadeza, desconstruindo uma cultura e uma falta de educação absoluta que foi imposta pelas pessoas brancas durante décadas de cinema no Brasil.

O que ainda falta para que documentários como o seu sejam melhor distribuídos em nosso país?​

Eu acredito que agora, depois de uma mudança fundamental de governo - vamos seguir reestabelecendo a cultura que foi completamente violentada pelos quatro anos que já viraram passado.

A caminhada é longa, mas as políticas públicas estão voltando. Uma das coisas mais lindas que pude vivenciar nos últimos tempos foi ver a Joelma Gonzaga assumir a SAV (Secretaria do Audiovisual) - isso nos enche de alegria e esperança.

Naturalmente, gosto de imaginar e contar com a certeza de que teremos mais chances de produzir e lançar nossos filmes daqui pra frente.

 

Você já está trabalhando em um novo projeto? Se sim, pode nos dizer em que história suas lentes estão apontando?

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Eu estou agora produzindo uma série para Warner e desenvolvendo um projeto de ficção e uma série documental. Estou esperançoso em seguir realizando e pensando cinema como uma ferramenta para contar novas histórias.

Eu sou apaixonado pelo que faço e levo muito a sério o ofício de fazer cinema nesse país.

Por mais que tenhamos dificuldades, todos os meus filmes até hoje foram feitos com muita dedicação, coragem e amor - torço e cuido para que siga sendo assim.

Desde já agradecemos e desejamos sucesso e AXÉ GRANDÃO e que OTHELO O GRANDE venha pousar nas principais telas do mundo.

O Negro Em Cena

Foto: Marcos Bonisson

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A ESCREVIVÊNCIA DE CONCEIÇÃO EVARISTO

POR: IARA BRANDÃO FERREIRA

Conceição Evaristo

Se eu perguntar para um grupo de pessoas pretas quem são os maiores intelectuais negros da atualidade, com certeza Conceição Evaristo vai ser um dos nomes mais falados. Mineira de Belo Horizonte, nascida em 29 de novembro de 1946, criada numa área pobre da cidade - na extinta favela do Pindura Saia na região centro-sul da capital de Minas Gerais - é filha de Joana Josefina Evaristo e criada pelo padrasto Aníbal Vitorino. Além dela, sua mãe teve mais oito filhos, sendo mais três meninas e cinco meninos.

Seu primeiro contato com a literatura foi através das histórias e das fabulações sobre a rotina que ouvia dentro da sua casa, contada pelos seus familiares. 

Mesmo com essa presença riquíssima das histórias orais na sua criação, sua mãe também gostava de pegar livros, revistas e jornais velhos e brincar com os filhos de associar as imagens presentes na revista a palavras que remetessem àquela imagem. Tudo era narrado e virava prosa e poesia. E isso também despertou uma curiosidade de Conceição pelos textos escritos e impressos.

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Quando Conceição tinha sete anos, foi morar com sua tia Maria - que era lavadeira assim como sua mãe – por causa da necessidade que a família dela passava. Como ela e o marido não tiveram filhos, eles possuíam uma condição de vida um pouquinho melhor, o que permitiu que Conceição tivesse acesso à educação com um pouco mais de facilidade. Vinda de uma família de mulheres que trabalhava com serviço doméstico, com oito anos começou também a trabalhar como doméstica, cuidando de casa e de crianças. Além disso, ajudava a mãe e a tia na lavagem das roupas, entregando as trouxas nas casas das patroas. Sua mãe, tias e primas trabalharam em casas de grandes escritores e professores mineiros, então o seu contato com a literatura também ocorreu nos fundos das cozinhas dessas pessoas de classe média/alta.

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Ao ingressar na escola, sua mãe optou por colocar elas e os irmãos em uma escola pública reconhecida pela qualidade do ensino, que era longe de sua casa e frequentada pela classe alta de Belo Horizonte, com o intuito de que os filhos aprendessem e gostassem de ler. Tanto sua mãe quanto a tia que a criou liam bastante e isso também foi um incentivo para Conceição desejar ter contato com os livros, mesmo que não tivesse acesso a muitos livros em casa. Na escola, passou a ter contato com a biblioteca, o que aumentou ainda mais o seu encanto. Ainda quando criança, uma de suas tias virou servente da Biblioteca Pública de Minas Gerais, localizada na capital do estado, o que aumentou o contato e a curiosidade de Conceição Evaristo com a vasta produção literária que aquele prédio podia oferecer. Como ela tinha livre acesso à Biblioteca Pública, por conta do trabalho da tia, pegava os livros e passava boa parte do dia sentada, lendo, em uma praça próxima - a Praça da Liberdade.

A Jornalista Flávia Oliveira, a ativista do grupo Pantera Negra Angela Davis, a intérprete e Conceição Evaristo no Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul.

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No ano de 1958, quando terminou o antigo ciclo “primário” na escola, ganhou o seu primeiro concurso literário, que foi um concurso de redação. Esse foi o primeiro prêmio da autora, que hoje tem muitos outros. Saiu do primário para fazer um ginásio dentro do curso normal no Instituto de Educação de Minas Gerais. Nessa época, conciliava o curso com o trabalho de empregada doméstica. E conforme ela ia passando por todas essas fases da vida, a leitura e a escrita sempre a acompanhavam. Esses recursos eram, inclusive, um suporte para ela encarar a realidade que vivia, enquanto adolescente/jovem, preta, pobre, empregada doméstica que estudava em escolas nas quais a maioria das alunas, alunos e professores eram branca/os, onde certamente o racismo se fazia presente. Durante o seu curso ginasial, a cidade de Belo Horizonte passava por um plano de desfavelamento, que enviava os moradores das favelas próximas ao centro para as periferias da cidade, o que deixou a família da escritora mais longe das localidades que estudava. Conceição se inseriu no movimento da Juventude Operária Católica ainda naquela época, que promovia encontros de reflexões que visavam comprometer a Igreja com realidade brasileira. Em 1973, ao terminar o curso normal, como não conseguiu emprego na capital mineira, se mudou para o Rio de Janeiro, onde passou em um concurso público para o magistério e trabalhou como professora da rede pública de ensino. Se formou em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) na década de 1980.

Dentro da universidade, teve contato com o grupo Quilombhoje, que a incentivou a iniciar sua escrita, teve seu primeiro texto publicado na série Cadernos Negros (publicação literária periódica), onde passou a publicar vários contos e poemas. Em 1996, concluiu o mestrado em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro, com a dissertação Literatura Negra: uma poética de nossa afro-brasilidade. No ano de 2003, foi publicado o seu primeiro romance Ponciá Vicêncio, pela Editora Mazza. Com uma narrativa sobre a trajetória de uma mulher preta, da infância à idade adulta, onde passado e presente dialogam através da memória da personagem principal, o livro fez bastante sucesso e foi objeto de pesquisa de muitos trabalhos acadêmicos. Três anos depois, Conceição Evaristo nos presenteia com seu segundo romance, intitulado Becos da memória, em que trata do drama de uma favela em processo de remoção. As obras da autora colocam em evidência as experiências de mulheres negras, que são as protagonistas de seus escritos literários, misturando realidade e ficção, que trazem reflexões e denúncias sobre as desigualdades sociais e as opressões conferidas aos negros através racismo.

Seus textos foram conquistando cada vez mais leitores no Brasil e no mundo, dentro e fora das instituições acadêmicas. Conceição participou de publicações em países como Alemanha e Inglaterra. Em 2007, Ponciá Vicêncio é traduzido para o inglês, nos Estados Unidos pela Host Publications. Com isso, a escritora participou de vários eventos de lançamento e de palestras em universidades estadunidenses.

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Fez doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense, com a tese Poemas malungos, cânticos irmãos (2011). Na sua tese de doutorado, estudou as obras poéticas dos intelectuais Nei Lopes e Edimilson de Almeida Pereira em contraste com a do angolano Agostinho Neto. No mesmo ano, ela lança o livro de contos Insubmissas lágrimas de mulheres, obra que também possui um contexto marcado pelo racismo e pelas relações de gênero.

Em 2014, a escritora publica Olhos D’água, que foi um dos livros finalistas do Prêmio Jabuti, concorrendo na categoria “Contos e Crônicas”. Nos últimos anos, alguns de seus livros, que continuam recebendo novas edições no Brasil e foram traduzidos para o francês e publicados em Paris pela editora Anacaona. Em 2018, a escritora recebeu o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais pelo conjunto de sua obra, no qual foi reconhecida como uma das escritoras brasileiras mais importantes. Mas é uma pena que nem todas as pessoas e instituições conseguem reconhecer a grandiosidade e a importância da obra de Conceição Evaristo, já que ela não foi eleita para ocupar a cadeira de número 7 (originalmente ocupada por Castro Alves) na Academia Brasileira de Letras. Ela lançou a sua candidatura em junho de 2018 e a eleição ocorreu em agosto, quando recebeu apenas um voto.

Quem acabou sendo eleito para ocupar o lugar foi o cineasta Cacá Diegues. Isso causou uma enorme indignação na comunidade negra, porque ela seria a primeira mulher negra a ocupar um lugar na Academia Brasileira de Letras, que até hoje, 2023, não tem nenhuma. Isso nos mostra que, apesar da vasta produção literária de mulheres negras e sobre mulheres negras, circulando dentro e fora das universidades e outras instituições de educação, elas ainda são dominadas pela branquitude racista e machista, que continuam a invisibilizar nossas experiências e histórias. Apesar dessa questão, Conceição Evaristo foi premiada com o Troféu do Prêmio Juca Pato como Intelectual do Ano de 2023. A escritora ganhou o prêmio não apensa pela sua contribuição à literatura brasileira, mas pelo lançamento de Canção para Ninar Menino Grande, obra literária lançada no ano passado. Nesta obra, a escritora apresenta as contradições e vivências da masculinidade de homens negros e as suas relações com mulheres negras.

Outro feito importante da escritora esse ano foi a abertura da Casa da Escrevivência, onde Conceição dispõe parte do seu acervo bibliográfico para o público.

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Ou seja, o espaço contém uma biblioteca que reúne todas as obras da intelectual e de outros pensadores e escritores para que as pessoas possam acessar, ler e pesquisar. Esse espaço cultural fica localizado na subida do Morro da Conceição (próximo ao Largo da Prainha), no centro do Rio de Janeiro, na região da Pequena África. A escolha dessa localidade não foi à toa. Ali existem vários pontos simbólicos e importantes para a história da população negra brasileira, como o Cais do Valongo, principal ponto de desembarque de escravizados no Brasil durante o processo de colonização.

O termo “Escrevivência” foi cunhado pela autora ao longo de sua pesquisa de mestrado. É um jogo entre as expressões “escrever”, “viver” e “se ver”, que se culminam na “escrevivência”. Para ela, a escrevivência está fundada em um passado histórico, que remonta a fala de mulheres negras escravizadas, a partir da imagem da Mãe Preta - aquela que vivia a sua condição de escravizada dentro da casa-grande. A Mãe Preta tinha como tarefa a função forçada de cuidar dos filhos dos senhores brancos. Eram elas que os alimentava, ensinava a falar e contava histórias para “adormecer a casa-grande”, como diz a própria Conceição Evaristo. Nesse contexto, corpo e voz de mulheres negras eram controlados por pessoas brancas.

A escrevivência então, inicialmente, se estrutura como o ato de escrita e autoria de mulheres negras, que faz o caminho inverso ao da figura da Mãe Preta, fazendo ecoar (através da escrita) as vozes de mulheres negras que narram suas próprias experiências e não mais histórias para ninar a casa-grande.

Ela traz a vivência de mulheres negras, das suas relações político-sociais, da sua ancestralidade e das consequências e experiências oriundas dos processos diaspóricos negros. A escrevivência não fala apenas da esfera individual, mas sobre vivência de uma coletividade. Atualmente, o termo é utilizado nas universidades como aparato teórico e metodológico de pesquisa, sobretudo feitas por estudantes e pesquisadores negras e negros, em diversas áreas além da literatura. É uma episteme nascida de experiência negra e sobre experiências negras.

Assim, ter contato com a obra de Conceição Evaristo nos permite entender a vida de uma mulher que usou a literatura como uma ferramenta de denúncia das opressões vividas pela população negra brasileira, sobretudo pelas mulheres negras. Para além de seu rico e grandioso legado, Conceição nos faz entender que as nossas histórias precisam sim ser contadas por nós, mesmo que a branquitude não queira escutar ou ler e mesmo que o sistema tente nos silenciar das mais variadas formas, pois segundo ela “a nossa escravivência não é para adormecer os da casa-grande, e, sim, para acordá-los de seus sonos injustos”.

POR: IARA BRANDÃO FERREIRA

Graduada em História, atua como professora voluntária dos pré-vestibulares comunitários Brota na Laje e Sintuperj (UERJ). Também atua como educadora em Museus desde 2012.

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Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

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