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Editorial

Depois de um início de ano desafiador, reafirmamos nosso compromisso em entregar histórias e imagens que celebram e refletem nossa comunidade. Nosso trabalho é feito com primor e dedicação, sustentado por recursos humanos que carregam a força dos sonhos e direitos conquistados. Não daremos nem um passo atrás, pois honramos as árduas batalhas travadas por nossos ancestrais. Por isso, não nos permitimos desanimar; podemos até perder uma batalha, mas seguiremos firmes por ontem, hoje e sempre.

Foto: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Dando vida a essas palavras, apresentamos nesta nova edição:

 

Dona Santinha: a militante  centenária que inspira gerações.

 

50 anos de Hip Hop, um artigo repleto de elementos fundamentais da cena: "Planet Rock – Novos Tambores chegam à Terra Brasilis" (Parte 1). Colunista convidado: Zulu_King TR DJ.

 

Um chamado para a reconstrução da lona do Circo Crescer e Viver.

 

Reflexões sobre o legado do carnaval: um aprendizado profundo e significativo que nunca foi ensinado nas escolas do sistema nacional de ensino. Carnaval 2025: contra-atacando a operação.

Sejam todos bem-vindos!

 

Equipe editorial:

Editor e fotógrafo: Ierê Ferreira

Colunista convidado: Zulu_King TR DJ

Colunista e revisora: Sylvia Arcuri

Produtora: Daniele da Silva Araújo

Essa revista é para você!

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Dona Santinha: a militante centenária que inspira gerações.

Por: Ierê Ferreira

 

Maria Soares, mais conhecida como Dona Santinha, é uma militante com mais de 100 anos que continua ativa na luta por justiça social. Ao lado de sua filha Célia e de sua neta Edem Lis, Dona Santinha inspira pessoas de todas as idades e origens.​

Foto: Jorge Ferreira

Nascida em 19 de abril de 1924, em Além Paraíba, Minas Gerais, Maria passou boa parte de sua infância na cidade. As notícias chegavam à família por meio do jornal “O Lar Católico”, que seu pai, mesmo sendo analfabeto, fazia questão de comprar para mantê-los informados. Cresceu em uma época em que o feminismo era desconhecido e as mulheres só conquistaram o direito ao voto em 1932, quando ela tinha 8 anos. O racismo também não era discutido abertamente, embora as desigualdades sempre a incomodassem. Sua mãe, em uma tentativa de acalmar sua mente questionadora, dizia: “Deixa Deus com seu mundo”. Com o tempo, Maria se afastou da religião, afirmando: “Não concordo com esse Deus que me ensinaram”.

O rosto de Dona Santinha se tornou um símbolo de resistência durante as manifestações por justiça após o assassinato de Marielle Franco, em 2018. Na Cinelândia, ela subiu em um caminhão usado pelos manifestantes e declarou: “Eu sei quem matou Marielle. Quem matou Marielle foi o sistema. 

Alguém armou a mão daquele atirador para calar uma voz que defendia minorias”. Embora já participasse de encontros políticos e manifestações desde 1984, foi a partir desse momento que Dona Santinha se tornou uma verdadeira influencer do mundo real, sendo celebrada e frequentemente abordada para selfies em passeatas. Seu reconhecimento também veio de forma oficial, com homenagens como a Medalha de Honra ao Mérito Desembargadora Ivone Caetano, concedida pela OAB-RJ, e a Medalha Pedro Ernesto, da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Além disso, recebeu a Medalha Tiradentes na Alerj, palco de tantos protestos históricos.

Dona Santinha na festa dos seus 80 anos e com o amigo Zózimo Bulbul e na Marcha das Mulhares Negras

Fotos: Ierê Ferreira

Dona Santinha no programa Sem Censura: Uma centenária de voz lúcida e inspiradora.

No dia 25 de julho de 2024, Dona Santinha, já com 100 anos, participou do programa Sem Censura e emocionou a apresentadora Cissa Guimarães com suas palavras marcantes:

"Eu gosto imensamente do ser humano, seja ele quem for. Se você tiver um atrito com um negro e eu achar que você tem razão, eu vou te defender. Eu sei que nós precisamos muito mais porque nossos passos foram cortados, tudo foi proibido. Não justifica a situação que a gente passa. Nós somos tão inteligentes e tão capazes quanto o branco. Não se justifica o presídio estar cheio de negros, nem os moradores de rua serem negros. Muitas vezes, nós superamos o branco que está ocupando aquele lugar de poder, porque a única diferença que existe entre nós é a cor da pele."

Lúcida e forte, Dona Santinha é um verdadeiro orgulho para a militância, reafirmando sua luta por igualdade e justiça social com uma clareza que transcende gerações, uma clara demonstração de força ancestral e AXÉ. Obrigado Dona Santinha.

Foto: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

"Planet Rock" – Novos Tambores chegam à Terra Brasilis... (Parte 1)

Por: Zulu_King TR DJ

O ano de 1982, no Brasil, foi marcado por vários acontecimentos importantes no esporte, como a Copa do Mundo na Espanha e o início do "BRock" – a "New Wave do Rock Nacional". No dia 1º de março, a Fluminense FM, carinhosamente batizada de “Maldita”, entrou no ar, tendo como QG um pequeno estúdio, na sede do jornal O Fluminense, ao lado da rodoviária, em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro, tornando uma rádio 100% Rock. Aliás, particularmente, na capital, as FMs passaram a ser uma alternativa de programas de alcance mais popular, o que se tornou uma espécie de laboratório para algumas equipes de som que trabalhavam com o gênero "Funk-Soul" nos finais de semana em seus bailes nas quadras dos clubes recreativos dos subúrbios. Foi também o ano de lançamento do primeiro aparelho de videocassete (VCR) de fabricação nacional da marca "Sharp", um aparelho que funcionava com a fita VHS.

 

1982 foi o ano da primeira eleição popular em pleno fim da ditadura cívico-militar e a primeira a se realizar depois do fim do bipartidarismo – momento em que seriam escolhidos, pelo voto popular, os governadores estaduais.

 

É nesse cenário de grandes mudanças sociais que, quase timidamente, a Cultura HIP-HOP aterriza, para o bem de uma nova geração favelada recém-chegada no intervalo do pós-declínio do "Movimento Black Rio". Enquanto as lojas de eletrodomésticos motivaram as famílias brasileiras a comprar os aparelhos de videocassetes e, o ainda bem consumido, 3 em 1 (receiver AM-FM, toca-discos e tape-deck), em suaves prestações. O saudoso DJ Markão da Cash Box lançava, em primeira mão no ar da Tropical FM o "Planet Rock" de Afrika Bambaataa & Soul Sonic Force.

"Planet Rock' foi o marco-zero do Funk Carioca"

 

(DJ Marlboro, em entrevista ao portal VICE - janeiro de 2018)

Quando "Planet Rock" foi pela primeira vez ao ar pelas ondas das antenas da Tropical FM, uma descarga elétrica tomou conta de jovens DJs como "Marlboro" e de uma geração inteira de adolescentes dos subúrbios do Rio, perplexos diante desse novo universo que se materializava diante dos seus olhos e ouvidos. Por mais que hits internacionais como "Rapper's Delight" do The Sugarhill Gang (1979), "Rapper's Delight & The Furious Five (1980) e "The Breaks" de Kurtis Blow já se misturassem em meio à programação da popular "rádio Mundial AM", o canto falado do RAP ainda deixava pouco evidente a existência de uma Cultura de vanguarda conhecida recentemente em alguns cantos do planeta como "HIP-HOP". No entanto, "Planet Rock" era diferente, futurista, psicodélico e aproximava a curiosidade de todos da sua proposta. Foi quando as fitas VHS, vindas junto às importações dos vinis dos DJs, fizeram o seu papel de trazer mais informações através do videoclipe de "Planet Rock" e com ele, o que era de fato esse novo conceito cultural.

(Fonte do vídeo: @cultne)

O Negro Em Cena

O álbum "Thiller" de Michael Jackson chega em 1982, dando ainda mais sentido ao Breaking praticado nas ruas.

No entanto, por mais que o Breaking tivesse conquistado o seu espaço nos centros urbanos do Rio, a mídia tratou o HIP-HOP como uma moda passageira e as equipes de som, cuja maioria era oriunda dos tempos de perseguição da ditadura, não achou interessante dar seguimento a essas manifestações nos bailes.

Paralelo a esse momento, surge em 1983 também do South Bronx, o "Latin Freestyle", uma proposta mais melódica, com vocais mais líricos, mas inspirado nos grooves e efeitos do Electro-Funk. O ritmo foi tão bem aceito nas quadras dos bailes do Rio, que logo foi apelidado carinhosamente de "Funk Melody". Aos poucos, o HIP-HOP – RJ foi enfraquecendo, e o Electro-Funk de Afrika Bambaataa permaneceu exportando o surgimento dos seus artistas que eram divulgados nos bailes dos clubes recreativos do estado – onde o que mais importava eram os instrumentais dos vinis, gerando o "apagamento" dos vocais de RAP.

Em 1984 o filme "Beat Street" entra em cartaz nos cinemas do Brasil e entre as esquinas da Rua Dom José de Barros com a 24 de Maio, o Soulman Nelson Triunfo juntamente com o seu grupo "Funk & Cia" arriscam os primeiros passos do Breaking. "Mas Que Linda Estás" do grupo paulistano Black Juniors invadia as rádios do país e seu videoclipe era apresentado em programas como Fantástico e Os Trapalhões.

 

Começa ali uma história de resistência, que faria de São Paulo "A Meca da Cultura HIP-HOP no Brasil".

 

Deste modo, o Rio de Janeiro só iria emergir novamente com sua proposta de Cultura Urbana baseada no HIP-HOP em 1992, organizado pelo Centro de Articulação às Populações Maginalizadas (CEAP), quando nomes como Big Richard, Gabriel O Pensador, MV Bill, entre outros artistas oriundos dos subúrbios cariocas protagonizaram um HIP-HOP mais consciente – em plena era dos "grupos de extermínio".

Continua na próxima edição...

Foto: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Ação pela reconstrução da lona do Circo Crescer e Viver

Por: Ierê Ferreira

Junior Perim e Vinicius Daumas têm a notável conquista de terem fundado, em 2001, o Circo Crescer e Viver, em São Gonçalo. Em 2003, o circo cruzou a Baía de Guanabara e se instalou em um terreno na Praça Onze, que, na época, funcionava como estacionamento e enfrentava problemas como reboquistas parados, prostituição infantil e intenso tráfico de crack. “Chegamos de madrugada, pedindo licença, e instalamos o circo”, recorda Junior Perim, fundador e diretor-presidente do Circo Crescer e Viver.

Essa ousada “invasão” deu frutos: o espaço se transformou em um polo de projetos que abriram novas oportunidades para crianças e jovens das comunidades vizinhas e já formou muitos cidadãos na vida e nas artes circenses. Em 2009, contudo, o estado determinou a desocupação do terreno para a construção do Centro Integrado de Comando e Controle. Após negociações, o circo foi realocado para uma área próxima, cedida pela prefeitura.

Hoje, o Circo Crescer e Viver tem a cessão oficial do espaço, mas enfrenta um novo desafio. Em 12 de março de 2025, uma forte tempestade com ventos intensos atingiu a lona, que desabou, com o impacto, parte dos equipamentos de som e luz foram danificados, o piso de madeira destinado às atividades cênicas foi destruído, e a arquibancada ficou retorcida pela força dos ventos.

Agora, o Circo Crescer e Viver precisa de todo apoio possível para reconstruir sua estrutura, retomar seus projetos e continuar levando alegria e esperança às comunidades no seu entorno. Para mais informações: https://www.circocrescereviver.org.br/noticias/

Manifesto do Circo Crescer e Viver.

Impactar vidas e transformar contextos através da arte é nosso grande espetáculo. Somos um circo que junta pessoas para inventar histórias individuais e fazer do encontro o trampolim para saltos coletivos. Neste lugar, colaboração, perseverança, confiança e coragem são os mastros que nos sustentam. Nosso pano de roda está aberto para ideias e simbolismos despertados pela magia de pisar no picadeiro. Aqui, indivíduos e artistas são preparados com os riscos do circo para assumir os riscos da vida. Neste espaço se unem habilidades e competências humanas para multiplicar afetos e acolher pensamentos plurais. Assim, compartilhamos valores e experiências para que o universo do lúdico seja uma dimensão do exercício pleno da cidadania. Fazer mais, agregar diferentes personagens e ser o orgulho dos nossos vizinhos, parceiros, amigos e histórias que aqui passaram e se transformaram é o que fomenta nossa inventividade. Sob a lona, nossas metodologias viram truques para vencer as desigualdades e promover mobilidade social. Esse é nosso jeito de plantar as sementes da criatividade e da inovação. Nos reinventamos como novas cambalhotas em busca da superação dos desafios do nosso tempo. Somos felizes porque somos o Circo Crescer e Viver e desejamos que nosso circo também seja seu. Entre, sorria e fique à vontade. Se mexa, crie, compartilhe. Veja e reveja quantas vezes quiser. Sinta, se emocione e se permita viver o encanto que há dentro de você. Não fique só de plateia, venha fazer parte da nossa trupe!

O Negro Em Cena

Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Carnaval 2025 contra-atacando a opressão

Foto: Carlos Junio

O Carnaval terminou, mas o que ficou foi um grande legado que nunca nos foi ensinado nas escolas públicas e privadas do sistema nacional de ensino. Foi um banho de cultura ancestral, desmontando séculos de falsos argumentos e elementos de opressão contra os negros, indígenas, mulheres e a população LGBTQIAPN+, deixando os racistas, sexistas, xenófobos e homofóbicos tontos com a enxurrada das mais belas histórias afro-diaspóricas. O mundo viu esse contra ataque, essa porrada frontal dada direto no olho e na mente deturpada dessa gente indecente e covarde.

As nossas Escolas de Samba estão de parabéns mesmo tendo que, muitas vezes, conviver com elementos infiltrados, sugando as energias e ditando regras para lucrar com o que é nosso por direito. Estão de parabéns por tecer alianças com aqueles que nos enchem de orgulho ao defender e destacar a importância da nossa cultura, da nossa escrita e oralidade.

Destaco nesse momento um dos discurso mais importante nesse carnaval que foi proferido pelo honroso Milton Reis da Cunha Júnior

 

"Eu, do meu lugar de fala, tiro o chapéu para Escola de Samba como Tuiutí, tiro o chapéu para o presidente [Renato] Thor, por ter coragem de nos trazer, nós LGBTQIAPN+, excluídos, apontados, assassinados, para esse lugar de visibilidade, que é a Marquês de Sapucaí",

"Obrigado, TV Globo, por me contratar. Eu, uma maricona velha, assumida, idosa, estou aqui, falando! Viva todos os seres humanos!"

"Parem de nos matar! O Brasil é o país que mais nos mata no mundo.

É dramático, é veemente cada dedo que nos aponta, cada olhar...",

"Nós somos crianças espancadas, crianças julgadas, jogadas para escanteio. A gente não pode ir na sala, porque os vizinhos, os juízes, os diretores de colégio, os padres, todo mundo odeia a gente"

"Que venha Tuiutí, que venha Xica Manicongo nos representar e dizer: nós somos seres humanos, nós merecemos todo o respeito do mundo. Viva a tolerância! Viva a democracia! Viva a fraternidade! Viva o humanismo!"

 

Milton Cunha, como é conhecido, lavou nossa alma com suas palavras aquecidas pelo fogo da razão e da justiça.

Foto: Ierê Ferreira

Milton Cunha, o Babalaô Ivanir dos Santos e uma destaque. Fotos: Ierê Ferreira

Carro da Beija-Flor e passista. Fotos: Carlos Junior

Fotos: Ierê Ferreira

Carro Abre Alas e Mestre Sala e Porta Bandeira da Imperatriz Leopoldinense Fotos: Carlos Junior

A Beija-Flor sagrou-se Campeã em 2025. A Escola de Samba de Nilópolis entregou uma celebração histórica para o Carnaval carioca, unindo emoção, religiosidade e memória no seu enredo.

Com o tema “Laíla de Todos os Santos, Laíla de Todos os Sambas”, a agremiação prestou uma homenagem ao inesquecível Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, conhecido como Laíla, uma das maiores figuras do Carnaval da azul e branca. O tributo, que também marcou a despedida de Neguinho da Beija-Flor, que, assim como o homenageado, carrega mais de uma dezena de títulos só na Beija-Flor. A Agremiação apresentou um espetáculo grandioso, honrando a memória e a contribuição incomparável de Laíla e Neguinho para a história da festa mais popular do Brasil.

Fonte: https://www.letras.mus.br/blog/samba-enredo-beija-flor-2025/

O enredo da Grande Rio neste Carnaval foi “Pororocas Parawaras: As Águas dos Meus Encantos nas Contas dos Curimbós”. A Escola de Samba homenageou o estado do Pará. O enredo é uma história transmitida de geração em geração nos terreiros de Tambor de Mina da Amazônia e a proposta partiu da música “Quatro Contas”, de Dona Onete. A Agremiação mergulhou no universo do Carimbó para contar a história de Mariana, Jarina e Herondina, as Belas Turcas. "Elas passam por um processo de encantamento, atravessam o Espelho do Encanti, chegam às praias do Grão Pará, se tornam protagonistas do Tambor de Mina paraense, que é um complexo religioso único, e são cantadas, são exaltadas, nas letras, nos bailares dos carimbós", Também contou a história da Cabocla Jurema, que, conforme escreveu a Grande Rio, “personifica a própria floresta”. O Tambor de Mina é uma religião afro-brasileira que tem origem no Maranhão e é predominante no Pará. É uma religião matriarcal, onde as mulheres têm um papel de destaque. 

Laíla comandando a Beija-Flor em 2017 fantasia de ala. Fotos: Ierê Ferreira​​

Foto: Ierê Ferreira

O enredo da Imperatriz Leopoldinense neste Carnaval foi "Ómi Tútu ao Olúfon – Água fresca para o senhor de Ifón". O tema conta a jornada de Oxalá até o reino de Oyó para visitar Xangô. O enredo mergulhou nas tradições da mitologia iorubá e celebrou algo que a Imperatriz não abordava há quase 50 anos. O grande ensinamento que esse itan deixa é a humildade, a virtude do respeito. A Imperatriz Leopoldinense emocionou o público ao apresentar rituais, cores e símbolos sagrados do Candomblé, proporcionando um mergulho profundo na cosmovisão iorubá. No fim das contas, a análise mostra que o samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense para 2025 é uma ode inspiradora à ancestralidade africana e à força do Candomblé, com uma construção poética que faz dele uma celebração da cultura e da espiritualidade afro. Recebeu o prêmio Estandarte de Ouro como a melhor escola do carnaval de 2025, de melhor enredo e melhor bateria, lavando a avenida com as águas de OXALÁ.

Fonte: https://www.letras.mus.br/blog/samba-enredo-imperatriz-leopoldinense-2025

Fotos: Carlos Junior

O samba-enredo da Viradouro em 2025 celebrou uma figura histórica e mítica no nordeste brasileiro, Malunguinho: O Mensageiro de Três Mundos. Líder quilombola, ele também é considerado uma entidade espiritual, que simboliza a luta contra a opressão e a tirania. Campeã do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro de 2024, a Escola trouxe para a avenida um verdadeiro canto de cura e libertação, que exaltava elementos para compreendermos a essência do povo brasileiro, em especial o nordestino.

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A ideia foi celebrar a figura de João Batista, conhecido como Malunguinho, entidade afro-indígena reconhecida como Caboclo, Mestre e Exu Trunqueiro, além de simbolizar a revolta dos oprimidos e a proteção daqueles que buscam a justiça acima de tudo.

Fonte: https://www.letras.mus.br/blog/samba-enredo-viradouro-2025/

Destaque, passista e a Rainha de bateria do Salgueiro Viviana Araujo. Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Poucas escolas de samba carregam uma trajetória tão rica quanto a Azul e Branca de Madureira, a maior campeã do Carnaval carioca, com nada menos que 22 títulos e uma identidade marcada por sambas-enredo inesquecíveis. Com “Cantar será buscar o caminho que vai dar no sol - Uma homenagem a Milton Nascimento”, a Escola prestou tributo, ainda em vida, ao artista e um dos maiores ícones da música brasileira, foi um feito inédito na história da Portela, com um desfile repleto de poesia e emoção. Nascido no Rio de Janeiro, mas criado em Minas Gerais, Milton Nascimento construiu uma identidade musical enraizada na sonoridade e na poesia das montanhas mineiras, despontando como uma das figuras mais importantes da MPB. Desde a década de 1960, o cantor e compositor se tornou conhecido pela fusão de ritmos e pela profundidade de suas letras, sempre carregadas de humanidade e emoção, com influências que vão do jazz ao folclore brasileiro. Clássicos como Maria, Maria, Travessia, Canção da América e Cais estão imortalizados na história da música brasileira e continuam emocionando gerações, como mostrou a bem-sucedida turnê de despedida do artista, em 2022. A Portela foi a última escola a cruzar a Sapucaí, encerrando as apresentações do Grupo Especial e apresentou um espetáculo memorável para celebrar a vida e obra do artista, como uma procissão, um cortejo repleto de emoção e devoção à música e à arte. Cada ala, carro alegórico e fantasia representaram uma parte da trajetória de Bituca como é carinhosamente conhecido, transformando o sambódromo em um verdadeiro altar do sol. O desfile também teve momentos marcantes de sua trajetória, como a sua consagração internacional e sua influência na música mundial.

Fotos: Carlos Junior

O samba enredo da Mangueira enaltece as manifestações culturais de matriz africana que sobrevivem no Brasil, como o jongo, a capoeira e os tambores do Congo, exaltando a presença e a contribuição do povo Bantu. O enredo apresenta a escola como uma “matriarca” resgata a ideia das mulheres negras como pilares da comunidade, seja na história, seja na religião, seja no próprio samba. O canto invoca essas potentes figuras, estabelecendo a conexão entre espiritualidade, ancestralidade e cultura afro-brasileira e exaltando o samba como herdeiro e transmissor dessa história. Outro momento impactante do samba é a alusão à trajetória dos negros africanos trazidos ao Brasil, lembrando a dolorosa travessia atlântica e a luta constante dos povos Bantu para manter viva sua identidade.

 

Ê malungo, que bate tambor de Congo

Faz macumba, dança jongo, ginga na capoeira

Ê malungo, o samba estancou teu sangue

De verde e rosa, renasce a nação de Zambi

A palavra “malungo”, usada pelos negros escravizados para se referir a seus irmãos de dor, reforça a irmandade e a luta compartilhada.

O samba também denuncia o racismo e a marginalização da cultura negra.

 

Fonte: https://www.letras.mus.br/blog/samba-enredo-mangueira-2025/#:~:text=No%20enredo%2C%20a%20Mangueira%20se,espaço%20de%20cultura%20e%20sobrevivência.&text=Essa%20personificação%20da%20escola%20como,religião%2C%20seja%20no%20próprio%20samba.

Evelyn Bastos Rainha de bateria da Mangueira, Leci Brandão, Ministra Anielle Franco, a escritora Conceição Evaristo e a Ministra Macaé Evaristo.

Carro da Mangueira, show de abertura, Ivete Sangalo, Leci Brandão e Iza, destaque, o cuiqueiro e os atabaques, 

Evelyn Bastos, Rainha de bateria da Mangueira.

Fotos: Carlos Junior

O Negro Em Cena

Como havíamos dito no início, as nossas Escolas de Samba estão de parabéns e precisamos cada vez mais fortalecer as nossas raízes e colocar luz naquilo que é a nossa essência, por isso estamos aqui para ser mais um repositório das nossas histórias contadas, exibidas com muito respeito e beleza através de imagens da cultura e ancestralidade do nosso povo.

Que Exu, Olorum e todos os Orixás estejam sempre em nossos caminhos para nos proteger. AXÉ

O Negro Em Cena

Fotos com qualidade profissional!

Oferecemos cobertura fotográfica para shows, moda, rodas de samba, eventos corporativos, atividades do terceiro setor e do movimento negro, celebrações religiosas, campanhas publicitárias, empresariais e de organizações não governamentais.

 

Arquivo de imagens.

 

Nosso acervo conta com mais de 10 mil imagens disponíveis para uso em redes sociais, jornais, livros, revistas, ilustrações e criações diversas.

 

Coordenação Ierê Ferreira, fotógrafo com trabalhos publicados no Brasil e no exterior, com vasta experiência atende instituições como AFROREGGAE, IBASE, ÍBISS, CEAP, UNESCO, Centro Afrocarioca de Cinema, Crescer e Viver, além de veículos de imprensa de grande circulação.

Contrate Nossos Serviços

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Tel: +55 21 98423-7151

Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Revista de Arte e Cultura 
Foto: Ierê Ferreira

 

Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

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