
Revista O Negro Em Cena
Essa revista é pra você

ZÓZIMO BULBUL
A LUZ DO CINEMA NEGRO BRASILEIRO
Primeiro Fórum
O Negro em Cena
AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU
Mulheres negras sobre o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.
Por Sylvia Helena de Carvalho Arcuri
Na proxima Edição:
Ensaios especiais do fotógrafo Severino Silva
e Rio Maping Festival.

Editorial
"Viajar e sonhar me ajudou a canalizar minha coragem interior. Assim vou construindo e imprimindo nossas memórias ".


Apresentação:
O Primeiro Fórum Cultural O Negro em Cena aconteceu em 24 e 25 de março de 2007, na Marina da Gloria, e teve como maior objetivo apresentar o protagonismo negro através das suas artes: música, gastronomia, os Orixás, teatro, cinema , dança, moda, literatura e poesia, além das produções acadêmicas.
O negro em “cena” foi um grande fórum!
O anfitrião de um encontro aberto a todas as cores, que contou com os apoios da Rede Globo, Fundação Palmares, Prefeitura do Rio de Janeiro,Petrobras e Furnas.
Contou também com uma grande equipe de trabalho que fez do evento um marco para a comunidade negra no Rio de Janeiro.
Com a intenção de continuar fazendo circular a energia do projeto "O Negro em Cena", dedico esta fase do meu trabalho na construção desta revista com propósito de imprimir nossas memórias, a fim de informar e preservar nossas histórias e a dos nossos personagens.
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Editor: Ierê Ferreira
Colaboradoras: Daniele da S. Araújo
Sylvia Arcuri e Iara Brandão Ferreira


Programação:
Exposição fotográfica: O Negro em Cena do Fotografo e produtor Ierê Ferreira.
Exposição: Orixás do Babalaô Roberto D’Otulú : descrição dos 16 principais Orixás do panteão, com vestimentas de gala.
Gastronomia: Degustação de culinária da comunidade quilombola de Machadinha do município de Quissamã /RJ.
Oficinas de dança e percussão: Grupo Kina Mutembua e Grupo Makala.
Seminário 1: Conhecer a África para entender o Brasil com o Embaixador Alberto da Costa e Silva.
Seminário 2: O que é Ação Afirmativa?
Cinema: Filmes "Vista a Minha Pele" e "Filhas do Vento" de Joel Zito Araújo e exibição dos programas "A Cor da Cultura – série Mojubá".
Roda de Samba: Grupo Terno de Cambraia, participações especiais de Ircéia Pagodinho, Renato Milagres, Dorina, Iracema Monteiro Edinho Oliveira, Leandro D'Menor, Efisom e Zé Luiz do Império.
Shows: Grupo de dança Makalá, Banda Farofa Carioca, Banda Afroreggae com participação de Preta Gil e show da cantora Rita Ribeiro.

Os homenageados que receberam o prêmio
O Negro em Cena:
Abdias do Nascimento
Destaca-se pelo engajamento na luta contra o racismo desde a década de 30. Entre suas inúmeras ações, funda o Teatro Experimental do Negro em 1944 Entidade que patrocina a Convenção Nacional do Negro em 45-46. Esta convenção propõe à Assembleia Nacional Constituinte de 1946 a inclusão de políticas públicas para a população afro- descendente e um dispositivo constitucional definindo
a discriminação como crime de lesa-pátria.
Gilberto Gil
Foi o Ministro da Cultura do Governo Lula no período deste projeto. Em 1968, com o LP “Gilberto Gil”, inicia o Tropicalismo. Ele e Caetano Veloso foram as principais figuras. Em 69 foi preso pela ditadura cívico militar e lançou uma de suas músicas mais famosas: “Aquele Abraço”. Partiu para o exílio na Inglaterra, voltando ao Brasil em 1972. Sua carreira internacional lhe rendeu vários prêmios, inclusive um Grammy na categoria Melhor disco de World Music em 1998, pelo álbum "Quanta Ao Vivo".
Dona Ivone Lara
Carioca, cantora e compositora desde os 12 anos de idade. Foi a primeira mulher a compor samba-enredo. Era madrinha da ala dos compositores de sua escola Império Serrano. Desfilava desde 1968 na ala das baianas. Os maiores intérpretes da música brasileira já gravaram sucessos de D. Ivone Lara. Entre eles, Gal Costa, Maria Betânia, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Roberto Ribeiro. Apresentou-se em vários países da Europa, América do Norte e do Sul, África e Ásia.
Joel Zito Araújo
Cineasta, roteirista e Doutor em comunicação pela ECA/USP. Realizou 24 documentários e 22 média metragens. Destaca-se o documentário "A Negação do Brasil", do ano 2000, sobre a participação de atores negros na televisão. O filme mostra a contradição que vivemos no Brasil, um país marcadamente multirracial, mas que nas suas produções televisivas e cinematográficas se prende a uma estética do branqueamento. Diz Joel: “Você não pode discutir cidadania se o país não tiver orgulho da sua composição multiética, multirracial acial, multicultural”.
Fotos: Ierê Ferreira e Antônio Terra

Dona Santinha: a militante centenária que inspira gerações.
"Planet Rock" – Novos Tambores chegam à Terra Brasilis... (Parte 1)
Colunista Convidado: Zulu_King TR DJ
Ação pela reconstrução da lona do Circo Crescer e Viver

Editorial
Depois de um início de ano desafiador, reafirmamos nosso compromisso em entregar histórias e imagens que celebram e refletem nossa comunidade. Nosso trabalho é feito com primor e dedicação, sustentado por recursos humanos que carregam a força dos sonhos e direitos conquistados. Não daremos nem um passo atrás, pois honramos as árduas batalhas travadas por nossos ancestrais. Por isso, não nos permitimos desanimar; podemos até perder uma batalha, mas seguiremos firmes por ontem, hoje e sempre.
Foto: Ierê Ferreira
O Negro Em Cena
Dando vida a essas palavras, apresentamos nesta nova edição:
Dona Santinha: a militante centenária que inspira gerações.
50 anos de Hip Hop, um artigo repleto de elementos fundamentais da cena: "Planet Rock – Novos Tambores chegam à Terra Brasilis" (Parte 1). Colunista convidado: Zulu_King TR DJ.
Um chamado para a reconstrução da lona do Circo Crescer e Viver.
Reflexões sobre o legado do carnaval: um aprendizado profundo e significativo que nunca foi ensinado nas escolas do sistema nacional de ensino. Carnaval 2025: contra-atacando a operação.

Sejam todos bem-vindos!
Equipe editorial:
Editor e fotógrafo: Ierê Ferreira
Colunista convidado: Zulu_King TR DJ
Colunista e revisora: Sylvia Arcuri
Produtora: Daniele da Silva Araújo
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Dona Santinha: a militante centenária que inspira gerações.
Por: Ierê Ferreira
Maria Soares, mais conhecida como Dona Santinha, é uma militante com mais de 100 anos que continua ativa na luta por justiça social. Ao lado de sua filha Célia e de sua neta Edem Lis, Dona Santinha inspira pessoas de todas as idades e origens.
Foto: Jorge Ferreira
Nascida em 19 de abril de 1924, em Além Paraíba, Minas Gerais, Maria passou boa parte de sua infância na cidade. As notícias chegavam à família por meio do jornal “O Lar Católico”, que seu pai, mesmo sendo analfabeto, fazia questão de comprar para mantê-los informados. Cresceu em uma época em que o feminismo era desconhecido e as mulheres só conquistaram o direito ao voto em 1932, quando ela tinha 8 anos. O racismo também não era discutido abertamente, embora as desigualdades sempre a incomodassem. Sua mãe, em uma tentativa de acalmar sua mente questionadora, dizia: “Deixa Deus com seu mundo”. Com o tempo, Maria se afastou da religião, afirmando: “Não concordo com esse Deus que me ensinaram”.


O rosto de Dona Santinha se tornou um símbolo de resistência durante as manifestações por justiça após o assassinato de Marielle Franco, em 2018. Na Cinelândia, ela subiu em um caminhão usado pelos manifestantes e declarou: “Eu sei quem matou Marielle. Quem matou Marielle foi o sistema.
Alguém armou a mão daquele atirador para calar uma voz que defendia minorias”. Embora já participasse de encontros políticos e manifestações desde 1984, foi a partir desse momento que Dona Santinha se tornou uma verdadeira influencer do mundo real, sendo celebrada e frequentemente abordada para selfies em passeatas. Seu reconhecimento também veio de forma oficial, com homenagens como a Medalha de Honra ao Mérito Desembargadora Ivone Caetano, concedida pela OAB-RJ, e a Medalha Pedro Ernesto, da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Além disso, recebeu a Medalha Tiradentes na Alerj, palco de tantos protestos históricos.
Dona Santinha no programa Sem Censura: Uma centenária de voz lúcida e inspiradora.
No dia 25 de julho de 2024, Dona Santinha, já com 100 anos, participou do programa Sem Censura e emocionou a apresentadora Cissa Guimarães com suas palavras marcantes:
"Eu gosto imensamente do ser humano, seja ele quem for. Se você tiver um atrito com um negro e eu achar que você tem razão, eu vou te defender. Eu sei que nós precisamos muito mais porque nossos passos foram cortados, tudo foi proibido. Não justifica a situação que a gente passa. Nós somos tão inteligentes e tão capazes quanto o branco. Não se justifica o presídio estar cheio de negros, nem os moradores de rua serem negros. Muitas vezes, nós superamos o branco que está ocupando aquele lugar de poder, porque a única diferença que existe entre nós é a cor da pele."
Lúcida e forte, Dona Santinha é um verdadeiro orgulho para a militância, reafirmando sua luta por igualdade e justiça social com uma clareza que transcende gerações, uma clara demonstração de força ancestral e AXÉ. Obrigado Dona Santinha.

Foto: Ierê Ferreira
O Negro Em Cena
"Planet Rock" – Novos Tambores chegam à Terra Brasilis... (Parte 1)
Por: Zulu_King TR DJ

O ano de 1982, no Brasil, foi marcado por vários acontecimentos importantes no esporte, como a Copa do Mundo na Espanha e o início do "BRock" – a "New Wave do Rock Nacional". No dia 1º de março, a Fluminense FM, carinhosamente batizada de “Maldita”, entrou no ar, tendo como QG um pequeno estúdio, na sede do jornal O Fluminense, ao lado da rodoviária, em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro, tornando uma rádio 100% Rock. Aliás, particularmente, na capital, as FMs passaram a ser uma alternativa de programas de alcance mais popular, o que se tornou uma espécie de laboratório para algumas equipes de som que trabalhavam com o gênero "Funk-Soul" nos finais de semana em seus bailes nas quadras dos clubes recreativos dos subúrbios. Foi também o ano de lançamento do primeiro aparelho de videocassete (VCR) de fabricação nacional da marca "Sharp", um aparelho que funcionava com a fita VHS.
1982 foi o ano da primeira eleição popular em pleno fim da ditadura cívico-militar e a primeira a se realizar depois do fim do bipartidarismo – momento em que seriam escolhidos, pelo voto popular, os governadores estaduais.
É nesse cenário de grandes mudanças sociais que, quase timidamente, a Cultura HIP-HOP aterriza, para o bem de uma nova geração favelada recém-chegada no intervalo do pós-declínio do "Movimento Black Rio". Enquanto as lojas de eletrodomésticos motivaram as famílias brasileiras a comprar os aparelhos de videocassetes e, o ainda bem consumido, 3 em 1 (receiver AM-FM, toca-discos e tape-deck), em suaves prestações. O saudoso DJ Markão da Cash Box lançava, em primeira mão no ar da Tropical FM o "Planet Rock" de Afrika Bambaataa & Soul Sonic Force.




"Planet Rock' foi o marco-zero do Funk Carioca"
(DJ Marlboro, em entrevista ao portal VICE - janeiro de 2018)
Quando "Planet Rock" foi pela primeira vez ao ar pelas ondas das antenas da Tropical FM, uma descarga elétrica tomou conta de jovens DJs como "Marlboro" e de uma geração inteira de adolescentes dos subúrbios do Rio, perplexos diante desse novo universo que se materializava diante dos seus olhos e ouvidos. Por mais que hits internacionais como "Rapper's Delight" do The Sugarhill Gang (1979), "Rapper's Delight & The Furious Five (1980) e "The Breaks" de Kurtis Blow já se misturassem em meio à programação da popular "rádio Mundial AM", o canto falado do RAP ainda deixava pouco evidente a existência de uma Cultura de vanguarda conhecida recentemente em alguns cantos do planeta como "HIP-HOP". No entanto, "Planet Rock" era diferente, futurista, psicodélico e aproximava a curiosidade de todos da sua proposta. Foi quando as fitas VHS, vindas junto às importações dos vinis dos DJs, fizeram o seu papel de trazer mais informações através do videoclipe de "Planet Rock" e com ele, o que era de fato esse novo conceito cultural.
(Fonte do vídeo: @cultne)
O Negro Em Cena

O álbum "Thiller" de Michael Jackson chega em 1982, dando ainda mais sentido ao Breaking praticado nas ruas.
No entanto, por mais que o Breaking tivesse conquistado o seu espaço nos centros urbanos do Rio, a mídia tratou o HIP-HOP como uma moda passageira e as equipes de som, cuja maioria era oriunda dos tempos de perseguição da ditadura, não achou interessante dar seguimento a essas manifestações nos bailes.
Paralelo a esse momento, surge em 1983 também do South Bronx, o "Latin Freestyle", uma proposta mais melódica, com vocais mais líricos, mas inspirado nos grooves e efeitos do Electro-Funk. O ritmo foi tão bem aceito nas quadras dos bailes do Rio, que logo foi apelidado carinhosamente de "Funk Melody". Aos poucos, o HIP-HOP – RJ foi enfraquecendo, e o Electro-Funk de Afrika Bambaataa permaneceu exportando o surgimento dos seus artistas que eram divulgados nos bailes dos clubes recreativos do estado – onde o que mais importava eram os instrumentais dos vinis, gerando o "apagamento" dos vocais de RAP.

Em 1984 o filme "Beat Street" entra em cartaz nos cinemas do Brasil e entre as esquinas da Rua Dom José de Barros com a 24 de Maio, o Soulman Nelson Triunfo juntamente com o seu grupo "Funk & Cia" arriscam os primeiros passos do Breaking. "Mas Que Linda Estás" do grupo paulistano Black Juniors invadia as rádios do país e seu videoclipe era apresentado em programas como Fantástico e Os Trapalhões.
Começa ali uma história de resistência, que faria de São Paulo "A Meca da Cultura HIP-HOP no Brasil".
Deste modo, o Rio de Janeiro só iria emergir novamente com sua proposta de Cultura Urbana baseada no HIP-HOP em 1992, organizado pelo Centro de Articulação às Populações Maginalizadas (CEAP), quando nomes como Big Richard, Gabriel O Pensador, MV Bill, entre outros artistas oriundos dos subúrbios cariocas protagonizaram um HIP-HOP mais consciente – em plena era dos "grupos de extermínio".
Continua na próxima edição...




Foto: Ierê Ferreira


O Negro Em Cena
Ação pela reconstrução da lona do Circo Crescer e Viver
Por: Ierê Ferreira
Junior Perim e Vinicius Daumas têm a notável conquista de terem fundado, em 2001, o Circo Crescer e Viver, em São Gonçalo. Em 2003, o circo cruzou a Baía de Guanabara e se instalou em um terreno na Praça Onze, que, na época, funcionava como estacionamento e enfrentava problemas como reboquistas parados, prostituição infantil e intenso tráfico de crack. “Chegamos de madrugada, pedindo licença, e instalamos o circo”, recorda Junior Perim, fundador e diretor-presidente do Circo Crescer e Viver.
Essa ousada “invasão” deu frutos: o espaço se transformou em um polo de projetos que abriram novas oportunidades para crianças e jovens das comunidades vizinhas e já formou muitos cidadãos na vida e nas artes circenses. Em 2009, contudo, o estado determinou a desocupação do terreno para a construção do Centro Integrado de Comando e Controle. Após negociações, o circo foi realocado para uma área próxima, cedida pela prefeitura.
Hoje, o Circo Crescer e Viver tem a cessão oficial do espaço, mas enfrenta um novo desafio. Em 12 de março de 2025, uma forte tempestade com ventos intensos atingiu a lona, que desabou, com o impacto, parte dos equipamentos de som e luz foram danificados, o piso de madeira destinado às atividades cênicas foi destruído, e a arquibancada ficou retorcida pela força dos ventos.
Agora, o Circo Crescer e Viver precisa de todo apoio possível para reconstruir sua estrutura, retomar seus projetos e continuar levando alegria e esperança às comunidades no seu entorno. Para mais informações: https://www.circocrescereviver.org.br/noticias/














Manifesto do Circo Crescer e Viver.
Impactar vidas e transformar contextos através da arte é nosso grande espetáculo. Somos um circo que junta pessoas para inventar histórias individuais e fazer do encontro o trampolim para saltos coletivos. Neste lugar, colaboração, perseverança, confiança e coragem são os mastros que nos sustentam. Nosso pano de roda está aberto para ideias e simbolismos despertados pela magia de pisar no picadeiro. Aqui, indivíduos e artistas são preparados com os riscos do circo para assumir os riscos da vida. Neste espaço se unem habilidades e competências humanas para multiplicar afetos e acolher pensamentos plurais. Assim, compartilhamos valores e experiências para que o universo do lúdico seja uma dimensão do exercício pleno da cidadania. Fazer mais, agregar diferentes personagens e ser o orgulho dos nossos vizinhos, parceiros, amigos e histórias que aqui passaram e se transformaram é o que fomenta nossa inventividade. Sob a lona, nossas metodologias viram truques para vencer as desigualdades e promover mobilidade social. Esse é nosso jeito de plantar as sementes da criatividade e da inovação. Nos reinventamos como novas cambalhotas em busca da superação dos desafios do nosso tempo. Somos felizes porque somos o Circo Crescer e Viver e desejamos que nosso circo também seja seu. Entre, sorria e fique à vontade. Se mexa, crie, compartilhe. Veja e reveja quantas vezes quiser. Sinta, se emocione e se permita viver o encanto que há dentro de você. Não fique só de plateia, venha fazer parte da nossa trupe!

O Negro Em Cena
Fotos: Ierê Ferreira
O Negro Em Cena
Carnaval 2025 contra-atacando a opressão

Foto: Carlos Junio
O Carnaval terminou, mas o que ficou foi um grande legado que nunca nos foi ensinado nas escolas públicas e privadas do sistema nacional de ensino. Foi um banho de cultura ancestral, desmontando séculos de falsos argumentos e elementos de opressão contra os negros, indígenas, mulheres e a população LGBTQIAPN+, deixando os racistas, sexistas, xenófobos e homofóbicos tontos com a enxurrada das mais belas histórias afro-diaspóricas. O mundo viu esse contra ataque, essa porrada frontal dada direto no olho e na mente deturpada dessa gente indecente e covarde.
As nossas Escolas de Samba estão de parabéns mesmo tendo que, muitas vezes, conviver com elementos infiltrados, sugando as energias e ditando regras para lucrar com o que é nosso por direito. Estão de parabéns por tecer alianças com aqueles que nos enchem de orgulho ao defender e destacar a importância da nossa cultura, da nossa escrita e oralidade.

Destaco nesse momento um dos discurso mais importante nesse carnaval que foi proferido pelo honroso Milton Reis da Cunha Júnior
"Eu, do meu lugar de fala, tiro o chapéu para Escola de Samba como Tuiutí, tiro o chapéu para o presidente [Renato] Thor, por ter coragem de nos trazer, nós LGBTQIAPN+, excluídos, apontados, assassinados, para esse lugar de visibilidade, que é a Marquês de Sapucaí",
"Obrigado, TV Globo, por me contratar. Eu, uma maricona velha, assumida, idosa, estou aqui, falando! Viva todos os seres humanos!"
"Parem de nos matar! O Brasil é o país que mais nos mata no mundo.
É dramático, é veemente cada dedo que nos aponta, cada olhar...",
"Nós somos crianças espancadas, crianças julgadas, jogadas para escanteio. A gente não pode ir na sala, porque os vizinhos, os juízes, os diretores de colégio, os padres, todo mundo odeia a gente"
"Que venha Tuiutí, que venha Xica Manicongo nos representar e dizer: nós somos seres humanos, nós merecemos todo o respeito do mundo. Viva a tolerância! Viva a democracia! Viva a fraternidade! Viva o humanismo!"
Milton Cunha, como é conhecido, lavou nossa alma com suas palavras aquecidas pelo fogo da razão e da justiça.
Foto: Ierê Ferreira


Milton Cunha, o Babalaô Ivanir dos Santos e uma destaque. Fotos: Ierê Ferreira

Carro da Beija-Flor e passista. Fotos: Carlos Junior



Fotos: Ierê Ferreira

Carro Abre Alas e Mestre Sala e Porta Bandeira da Imperatriz Leopoldinense Fotos: Carlos Junior

A Beija-Flor sagrou-se Campeã em 2025. A Escola de Samba de Nilópolis entregou uma celebração histórica para o Carnaval carioca, unindo emoção, religiosidade e memória no seu enredo.
Com o tema “Laíla de Todos os Santos, Laíla de Todos os Sambas”, a agremiação prestou uma homenagem ao inesquecível Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, conhecido como Laíla, uma das maiores figuras do Carnaval da azul e branca. O tributo, que também marcou a despedida de Neguinho da Beija-Flor, que, assim como o homenageado, carrega mais de uma dezena de títulos só na Beija-Flor. A Agremiação apresentou um espetáculo grandioso, honrando a memória e a contribuição incomparável de Laíla e Neguinho para a história da festa mais popular do Brasil.
Fonte: https://www.letras.mus.br/blog/samba-enredo-beija-flor-2025/
O enredo da Grande Rio neste Carnaval foi “Pororocas Parawaras: As Águas dos Meus Encantos nas Contas dos Curimbós”. A Escola de Samba homenageou o estado do Pará. O enredo é uma história transmitida de geração em geração nos terreiros de Tambor de Mina da Amazônia e a proposta partiu da música “Quatro Contas”, de Dona Onete. A Agremiação mergulhou no universo do Carimbó para contar a história de Mariana, Jarina e Herondina, as Belas Turcas. "Elas passam por um processo de encantamento, atravessam o Espelho do Encanti, chegam às praias do Grão Pará, se tornam protagonistas do Tambor de Mina paraense, que é um complexo religioso único, e são cantadas, são exaltadas, nas letras, nos bailares dos carimbós", Também contou a história da Cabocla Jurema, que, conforme escreveu a Grande Rio, “personifica a própria floresta”. O Tambor de Mina é uma religião afro-brasileira que tem origem no Maranhão e é predominante no Pará. É uma religião matriarcal, onde as mulheres têm um papel de destaque.
Laíla comandando a Beija-Flor em 2017 fantasia de ala. Fotos: Ierê Ferreira

Foto: Ierê Ferreira
O enredo da Imperatriz Leopoldinense neste Carnaval foi "Ómi Tútu ao Olúfon – Água fresca para o senhor de Ifón". O tema conta a jornada de Oxalá até o reino de Oyó para visitar Xangô. O enredo mergulhou nas tradições da mitologia iorubá e celebrou algo que a Imperatriz não abordava há quase 50 anos. O grande ensinamento que esse itan deixa é a humildade, a virtude do respeito. A Imperatriz Leopoldinense emocionou o público ao apresentar rituais, cores e símbolos sagrados do Candomblé, proporcionando um mergulho profundo na cosmovisão iorubá. No fim das contas, a análise mostra que o samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense para 2025 é uma ode inspiradora à ancestralidade africana e à força do Candomblé, com uma construção poética que faz dele uma celebração da cultura e da espiritualidade afro. Recebeu o prêmio Estandarte de Ouro como a melhor escola do carnaval de 2025, de melhor enredo e melhor bateria, lavando a avenida com as águas de OXALÁ.
Fonte: https://www.letras.mus.br/blog/samba-enredo-imperatriz-leopoldinense-2025


Fotos: Carlos Junior
O samba-enredo da Viradouro em 2025 celebrou uma figura histórica e mítica no nordeste brasileiro, Malunguinho: O Mensageiro de Três Mundos. Líder quilombola, ele também é considerado uma entidade espiritual, que simboliza a luta contra a opressão e a tirania. Campeã do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro de 2024, a Escola trouxe para a avenida um verdadeiro canto de cura e libertação, que exaltava elementos para compreendermos a essência do povo brasileiro, em especial o nordestino.

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A ideia foi celebrar a figura de João Batista, conhecido como Malunguinho, entidade afro-indígena reconhecida como Caboclo, Mestre e Exu Trunqueiro, além de simbolizar a revolta dos oprimidos e a proteção daqueles que buscam a justiça acima de tudo.
Fonte: https://www.letras.mus.br/blog/samba-enredo-viradouro-2025/
Destaque, passista e a Rainha de bateria do Salgueiro Viviana Araujo. Fotos: Ierê Ferreira
O Negro Em Cena
Poucas escolas de samba carregam uma trajetória tão rica quanto a Azul e Branca de Madureira, a maior campeã do Carnaval carioca, com nada menos que 22 títulos e uma identidade marcada por sambas-enredo inesquecíveis. Com “Cantar será buscar o caminho que vai dar no sol - Uma homenagem a Milton Nascimento”, a Escola prestou tributo, ainda em vida, ao artista e um dos maiores ícones da música brasileira, foi um feito inédito na história da Portela, com um desfile repleto de poesia e emoção. Nascido no Rio de Janeiro, mas criado em Minas Gerais, Milton Nascimento construiu uma identidade musical enraizada na sonoridade e na poesia das montanhas mineiras, despontando como uma das figuras mais importantes da MPB. Desde a década de 1960, o cantor e compositor se tornou conhecido pela fusão de ritmos e pela profundidade de suas letras, sempre carregadas de humanidade e emoção, com influências que vão do jazz ao folclore brasileiro. Clássicos como Maria, Maria, Travessia, Canção da América e Cais estão imortalizados na história da música brasileira e continuam emocionando gerações, como mostrou a bem-sucedida turnê de despedida do artista, em 2022. A Portela foi a última escola a cruzar a Sapucaí, encerrando as apresentações do Grupo Especial e apresentou um espetáculo memorável para celebrar a vida e obra do artista, como uma procissão, um cortejo repleto de emoção e devoção à música e à arte. Cada ala, carro alegórico e fantasia representaram uma parte da trajetória de Bituca como é carinhosamente conhecido, transformando o sambódromo em um verdadeiro altar do sol. O desfile também teve momentos marcantes de sua trajetória, como a sua consagração internacional e sua influência na música mundial.




Fotos: Carlos Junior




O samba enredo da Mangueira enaltece as manifestações culturais de matriz africana que sobrevivem no Brasil, como o jongo, a capoeira e os tambores do Congo, exaltando a presença e a contribuição do povo Bantu. O enredo apresenta a escola como uma “matriarca” resgata a ideia das mulheres negras como pilares da comunidade, seja na história, seja na religião, seja no próprio samba. O canto invoca essas potentes figuras, estabelecendo a conexão entre espiritualidade, ancestralidade e cultura afro-brasileira e exaltando o samba como herdeiro e transmissor dessa história. Outro momento impactante do samba é a alusão à trajetória dos negros africanos trazidos ao Brasil, lembrando a dolorosa travessia atlântica e a luta constante dos povos Bantu para manter viva sua identidade.
Ê malungo, que bate tambor de Congo
Faz macumba, dança jongo, ginga na capoeira
Ê malungo, o samba estancou teu sangue
De verde e rosa, renasce a nação de Zambi
A palavra “malungo”, usada pelos negros escravizados para se referir a seus irmãos de dor, reforça a irmandade e a luta compartilhada.
O samba também denuncia o racismo e a marginalização da cultura negra.
Evelyn Bastos Rainha de bateria da Mangueira, Leci Brandão, Ministra Anielle Franco, a escritora Conceição Evaristo e a Ministra Macaé Evaristo.






Carro da Mangueira, show de abertura, Ivete Sangalo, Leci Brandão e Iza, destaque, o cuiqueiro e os atabaques,
Evelyn Bastos, Rainha de bateria da Mangueira.
Fotos: Carlos Junior

O Negro Em Cena
Como havíamos dito no início, as nossas Escolas de Samba estão de parabéns e precisamos cada vez mais fortalecer as nossas raízes e colocar luz naquilo que é a nossa essência, por isso estamos aqui para ser mais um repositório das nossas histórias contadas, exibidas com muito respeito e beleza através de imagens da cultura e ancestralidade do nosso povo.
Que Exu, Olorum e todos os Orixás estejam sempre em nossos caminhos para nos proteger. AXÉ
O Negro Em Cena
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O Negro Em Cena
Revista de Arte e Cultura
Foto: Ierê Ferreira














































