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Abril 2024 edição Nº 3 - Foto de capa: Ierê Ferreira

Teatro Experimental do Negro – TEN

O Quilombo de Abdias Nascimento

Por: Sylvia Arcuri e Ierê Ferreira

Dona Ivone Lara,

Joia rara no cantar e no compor.

Por: Dorina Guimarães

A artista Bianca Branco e sua obra Terra.

A filosofia da música de Gilberto Gil

Por: Renato Noguera

Editorial

Sankofa é um ideograma africano representado por um pássaro com a cabeça voltada para trás ou também pela forma de duas voltas justapostas, espelhadas, lembrando um coração. A etimologia da palavra, em ganês, inclui os termos san (voltar, retornar), ko (ir) e fa (olhar e buscar).

Na edição de abril de 2024 pisamos firmes no solo fértil da ancestralidade e da emoção, para recarregar nossas energias e revitalizar nossos pensamentos e assim contribuir para luta contra o racismo do presente instável em que vivemos. Acreditamos que é reconectando os saberes que vamos projetar melhor o futuro. Por isso, nossa revista O Negro Em Cena “TEN” o Quilombo de Abdias Nascimento, o lá rá ia nas músicas de Dona Ivone Lara e Gilberto Gil e as tintas que preenchem as telas da artista plástica Bianca Branco.

 

Sejam muito bem-vindos e façam uma boa viagem.

Editor e fotógrafo: Ierê Ferreira

Colunista e revisora: Sylvia Arcuri

Colunista: Iara Brandão Ferreira

Colaboradora: Daniele da Silva Araújo

Colunistas nesta edição: Dorina Guimarães e Renato Noguera

Revista O Negro Em Cena

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O ator Hilton Cobra diante das fotos do TEN

na exposição de Abdias Nascimento

Foto: Ierê Ferreira

A escritora Lia Vieira, a atriz Léa Garcia,

e o jovem Lincoln na exposição de Abdias Nascimento

diante das fotos do TEN.

Fotos: Ierê Ferreira.

Teatro Experimental do Negro – TEN

O Quilombo de Abdias Nascimento

 

Por: Sylvia Arcuri e Ierê Ferreira

Uma peça assistida no Peru, personagens com black face, uma indignação e que apontou uma trajetória e construiu um Quilombo que atravessou o século XX e chegou nos dias atuais com outras companhias que se aquilombaram no colo e no afeto artístico de Abdias Nascimento. Como os dilemas internos, os conflitos externos, a dor e as feridas existenciais da pessoa de origem africana na sociedade racista das Américas poderia ser interpretada por um homem branco com um rosto falso? Inconcebível. Não, isso não poderia seguir, e o ativista resolveu que escreveria e determinaria espaços para que os negros mostrassem seus rostos e contassem suas próprias histórias.

Por que pensamos TEN como um Quilombo que se projeta e se espalha dando vida a outros grupos? Além de ser um espaço de reconhecimento, espelho e cura, o lugar vivenciou a tecnologia ancestral da palavra oral, do “griorismo”. Mostrou e ainda evidencia a valorização social do negro no Brasil através da educação, cultura e arte. Abdias, em si mesmo era um Quilombo e não desejava que o TEN fosse um espaço meramente artístico, mas que fosse experimentado como ambiente de terreiro que tem alimento para todos, sustento espiritual, emocional e intelectual. Do que adiantaria encenar se os autores e atores, todos negros, não soubessem ler? Por isso, espaço de cura, de milagre, de entrega, de disposição e luta diária, como disse o próprio Abdias em um dos seus textos: 

[...] como um fórum de ideias, debates, propostas, e ação visando à transformação das estruturas de dominação, opressão e exploração raciais implícitas na sociedade brasileira dominante, nos campos de sua cultura, economia, educação, política, meios de comunicação, justiça, administração pública, empresas particulares, vida social, e assim por diante.

Um teatro que ajudasse a construir um Brasil melhor, efetivamente justo e democrático, onde todas as raças e culturas fossem respeitadas em suas diferenças, mas iguais em direitos e oportunidades.

Abdias Nascimento e seu filho  Oziris Larkin  Nascimento

Fotos: Ierê Ferreira

Abdias Nascimento a quem os brancos chamavam de negro ingrato, aquilombou o teatro onde cresceram Mercedes, Léas e Rutes, Bandos e Companhias de Comuns, que, hoje, fazem valer a pena a cena e o esquema da oralidade africana, reverberando em nós por nós. Nesse artigo damos início a uma série que pretende versar sobre este Quilombo que, a cada peça que assistimos, nos alimenta a alma, corpo e espírito e emocionados avançamos com os nossos em múltiplas criações descolonizadas.

“O quilombo é um avanço, é produzir ou reproduzir um momento de paz. Quilombo é um guerreiro quando precisa ser um guerreiro. E também é o recuo se a luta não é necessária. É uma sapiência, uma sabedoria. A continuidade de vida, o ato de criar um momento feliz, mesmo quando o inimigo é poderoso, e mesmo quando ele quer matar você. A resistência. Uma possibilidade nos dias da destruição”. 

NASCIMENTO, Maria Beatriz: Beatriz Nascimento, Quilombola e intelectual: Possibilidades nos dias da destruição. Diáspora africana: Editora Filhos da África, 2018, pg.18. 1ª Edição

Elisa Larkin, Léa Garcia, com seus filhos e neta. A atriz Ruth de Souza e o Governador Leonel Brizola, Eu, Maria e Luiz Carlos Gá comemorando os 90 anos de Abdias Nascimento

Fotos: Ierê Ferreira

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Abdias e Elisa Larkin Nascimento com o produtor Wavá de Carvalho e o diretor e ator de teatro Hilton Cobra. 

Foto: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

O Negro Em Cena

Abdias também era artista plástico, aqui ele está em frente a uma de suas obras.

O Negro Em  Cena

Dona Ivone Lara, Joia rara no cantar e no compor.

Por: Dorina Guimarães

Foto: Berg Silva

Minha história com Dona Ivone começa por minha mãe, eu, a nona de 11 filhos, fui carregada na barriga por uma mulher que queria estudar para ser técnica de enfermagem e assim aconteceu, se formou. Imperiana, trouxe seu respeito por Dona Ivone para a família, tinha todos os seus discos.

Infelizmente, ela, a minha mãe, não pode ouvir e nem ver o meu segundo CD: Samba, onde, no encarte, faço uma homenagem a ela, a minha vó e claro a Dona Ivone Lara. Além disso, pude dividir uma faixa com a Grande Dama do Samba:  Se o Caminho é meu. Mamãe nem sequer pode ver todos os shows com quem compartilhei o palco, sua grande inspiração.

Escrever agora, sobre esse ícone, Dona Ivone, me deixa emotiva, pois ela me ensinou muito.

Ela começou tocando cavaquinho por causa do tio, mas só tocava choro, samba não podia, o tio não viu a tremenda compositora que ela se tornou, contava estas histórias sorrindo, inclusive porque compunha chorinho com ele. Dizia ela que era o seu gravador para lembrá-lo do que tinha composto.

Estive em sua casa, através do querido Alfredo Galhões. Nos recebeu com guaraná e bolo no seu apartamento em Inhaúma, do lado do Conjunto dos Músicos onde morei.  Ela cantou uma música linda no cavaquinho, tocando com um palito.

Carmem Costa, Zezé Mota, Aurea Martins e Dona Ivone Lara no show Divas do Samba.

Eu ia gravar, mas a música foi apresentada por Delcio Carvalho, seu grande parceiro, ao Zeca Pagodinho e ele a gravou, foi aí que ela aceitou dividir uma faixa comigo no meu CD. Daí por diante, fizemos vários shows, um deles foi no seu aniversário no teatro Municipal de Niterói. Foi lindo, no final cantamos parabéns e pétalas de rosas caíram sobre ela, que ficou muito emocionada, foi magnífico.

Adorava quando nos apresentávamos e ela caia no samba.

Dona Ivone foi responsável por eu fazer o projeto Pixinguinha uma única vez. Ela não poderia fazê-lo e me indicou, foi assim que me apresentei nesse projeto maravilhoso, com Joel Nascimento Bandolim, Josimar Carneiro e Paulino Dias.

 

Ela foi meu Norte.

Outros shows emocionantes aconteceram no teatro Rival e no Parque da Catacumba. Fizemos também o Réveillon do Flamengo. E vê-la nos shows era uma aula de samba e alegria. Como dizia o poeta Luiz Carlos da Vila, meu grande amigo: “Lara, o seu la ra ia é lindo”, era poesia em notas musicais, canto de Rainha, Joia rara no cantar e no compor.

No Clube Lagoinha estava chovendo e ela logo começou a cantar: “mas o samba não pode parar não, não pode parar” e aquele lugar lindo se iluminou com a luz daquela mulher e de seus ancestrais que passaram pela vida, amando. Como é gostoso cantar, como é importante essas reuniões para se ouvir o samba. De maneiras que... quando começo a falar de D. Ivone, não quero parar.

E que satisfação de comemorar o dia da mulher sambista no seu aniversário. Vim trazer esse depoimento de uma mulher que admirava e amava como fã. Tudo que ela fez foi importante para todas nós. Leiam os livros que falam sobre seu trabalho e escutem suas músicas.

Axé, Ianga e obrigada aos ancestrais pela sua existência.

Para sempre Dona Ivone Lara.

Roda de samba do Renascença, Aniversário no Bom Sujeito com Mauricio Araujo, Bruno Castro, Xangô da Mangueira e Mart'nália

Dorina é cantora, tem dez CDs e dois DVDs lançados em uma carreira independente no samba. Foi radialista do programa - Dorina Ponto Samba - em parceria com mestre Rubem Confete. Com Mauro Diniz e Luiz Carlos da Vila criou o grupo Os Suburbanistas. Dorina também criou o bloco carnavalesco Mulheres de Zeca e há quinze anos faz parte do prêmio Estandarte de Ouro e é fundadora do Encontro Nacional e Internacional das Mulheres na Roda de Samba.

O Negro Em Cena

O Negro Em Cena

A artista Bianca Branco e sua obra Terra

Foto: Carolina DiBranco

Gerada em Ilhéus, Bahia, nasci na Glória, Rio de Janeiro e fui criada em Maricá. Ser artista em nosso país é para os fortes, e viver de arte é um desafio ainda maior. Sou uma artista plástica autodidata, inspirada pelas referências artísticas de meu pai desde cedo, mesmo que de forma inconsciente. Tenho orgulho de carregar traços dele em meu trabalho, mas também herdei muito de minha mãe, uma baiana determinada de Itabuna.

 

Venho de uma família de cinco filhos, com apenas um homem, o feminino sempre teve forte presença em minha vida, influenciando minha arte a retratar mulheres fortes, refletindo as poderosas figuras femininas. Minha avó materna, Vó Tonha sustentou seus filhos trabalhando em uma roça. Uma mulher resiliente que, assim como muitas, criou seus filhos sozinha. 

Meu avô era um mascate que passava longos períodos fora de casa. Por outro lado, minha avó paterna, Vó Dulce, professora em Belém do Pará, foi deixada pelo meu avô e criou sozinha seus cinco filhos.

 

A história de mulheres criando filhos sozinhas é uma constante em minha família, algo que não se aplicou à minha mãe, graças à presença constante de meu pai até o dia de sua morte. Contudo, essa realidade se repetiu comigo e com duasirmãs. Por isso, minha arte frequentemente celebra a figura da mulher, pois acredito que "A revolução será feminina".

 

Em 2008, mudei-me para o Rio. Morei inicialmente em Vila Isabel, depois na Escadaria Selarón, e finalmente em Santa Teresa, onde transformei uma garagem em ateliê. Foi neste espaço, que meu trabalho alcançou reconhecimento e minha arte foi para o mundo. Em 2017, devido à violência, fechei meu ateliê. Em 2021, reabri meu ateliê na Lapa, e alterno entre o Rio e Maricá, cidade onde voltei a morar.

Minha arte não se limita a um único estilo; pinto o que desejo. Atualmente, trabalho na coleção "TERRA", que ficará exposta no MPRJ, Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro do dia 5 de abril a 10 de maio de 2024. Realizei várias exposições, tanto coletivas quanto individuais, no Brasil e no exterior, incluindo Itália e México.

A arte flui naturalmente para mim, gosto de trabalhar com várias vertentes e materiais, principalmente a reutilização do que seria descartado.

 

Ter um ateliê aberto na Lapa expõe a pessoa a diversas experiências, nem todas positivas, mas me esforço para não me deixar afetar negativamente. Minha arte explora temas raciais, políticos, sexuais e religiosos, muitas vezes de forma sutil. Gosto de interagir com visitantes do meu ateliê, que é todo tipo de pessoa, cada um traz uma perspectiva única sobre o meu trabalho.

No início deste ano, comecei o projeto "Tabuleta Itinerante" com o fotógrafo e curador Marcelo Valle, uma galeria a céu aberto que promoveu uma intervenção artística na praia do Arpoador durante a festa de Iemanjá. Em março, realizamos uma exposição no Instituto Fernandes Figueira, abordando temas relacionados à mulher. O próximo será sobre a luta antimanicomial

Eu sou Bianca Branco, artista plástica autodidata de 55 anos, 40 anos de carreira, mãe de Pedro e Thiago, avó de Mirella e Melissa. Meu ateliê fica na Rua Joaquim Silva 67, Centro (Lapa), próximo à Escadaria Selarón. Acompanhe meu trabalho pelo Instagram @biancabrancoarts e @ateliedearts.

O Negro Em Cena

A filosofia da música de Gilberto Gil

Por: Renato Noguera

Foto: Ierê Ferreira

Na história da filosofia ocidental, diversos filósofos se debruçaram sobre a música. Platão (428 a.C- 347 a.C) ressaltou o seu papel na formação do cidadão e como ela produz estados emocionais, Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) argumentou que se trata de uma arte que “imita” as emoções. O filósofo alemão, Arthur Schopenhauer (1788-1860) destacou que, dentre todas as artes, apenas a música tem o poder de apresentar a natureza da vontade, a verdade em si. Theodor Adorno (1903-1969) argumentou que a música não apresentava a verdade, por se tratar de ideologia e encobrir a realidade. Na filosofia africana, Amenemope, filósofo do Kemet que viveu aproximadamente 10 séculos antes de Cristo, considerava que o coração é um órgão pensante. Ou seja, a fonte da razão também é a base das emoções.

De forma geral, a filosofia é uma área do saber humano que nos convida a fazer boas perguntas; não se ocupa de dar respostas taxativas. Mas, o que dizer sobre Gilberto Gil, laureado como imortal da Academia Brasileira de Letras, multiartista, baiano e que dispensa apresentações. Em certa medida, a discografia e a atuação política de Gil sempre estabeleceram diálogos íntimos com arte, ciência, tecnologia, educação, ancestralidade e novos mundos possíveis. Por um lado, a musicalidade em que as mais diversas camadas conversam respeitando as singularidades. Por outro, Gil iniciou apostando em letras visionárias. O primeiro álbum Louvação, lançado em 1967, trouxe a canção Lunik 9, trazendo a viagem espacial de uma nave russa. Em 1972, o álbum Expresso 2222 projetava o ano 2000. Em 1997, no álbum Quanta, Gil faz um polidiálogo (como ensina o filósofo sul-africano Mogobe Ramose, uma espécie de diálogo que conversa com o passado e o futuro). A partir de uma atmosfera comemorativa da gravação do 1º samba, “Pelo telefone”, o imortal Gilberto Gil canta “Pela internet”. Assim como o telefone foi uma invenção que impactou a vida social do início do século XX, a popularização da internet trouxe vantagens, facilidades e desafios para a vida social.

O Negro Em Cena

Gilberto Gil opera com a música uma espécie de magia que funciona nas interseções entre arte e ciência, fazendo uma composição, nas suas próprias palavras:

São ambos os campos de busca dessas maneiras de conhecer. É evidente que há outros campos, digamos assim, congêneres, eu não diria, mas ali associados, enfim, como as filosofias, as religiões e etc. que também são campos de busca de conhecimento e todo conhecimento, em última análise, é sobre nós mesmos. É a busca do conhecer-se a si mesmo, não é? Conhecer sobre o homem e tudo que o cerca, não é?

O que a filosofia da música de Gilberto Gil nos faz sentir-pensar sobre o viver? Gil faz o mesmo convite reiteradamente, conhecer a si mesmo. Uma pergunta milenar da filosofia. Gil nos convoca a refazê-la, uma espécie de Rafazenda, canção de 1975, em que uma espécie de conversação com o abacateiro, novamente o polidiálogo, dialogar com seres não humano. Gil supõe e propõe uma conexão com outros entes da natureza para que o refazer seja um constante abrir portas para o conhecimento profundo e íntimo de celebrar a vida, ontem, hoje e amanhã...

Renato Noguera é Professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro doutor em filosofia, professor, escritor, palestrante e consultor.

Fotos: Ierê Ferreira

No dia 13 de maio de 2023, O Mestre Gilberto Gil esteve na abertura da FLUP (Feira Literária das Periferias), num dialogo sobre filosofia, passado, presente e futuro.  Com participação do Mestre Haroldo Costa a escritora Eliana Alves Cruz e Daniele Salles.

Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

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Cena da peça  Cabaré da Raça , Bando de Teatro Olodum

O Negro Em Cena

Revista de arte e cultura

Cena da peça  Candaces: A Reconstrução do Fogo,

Cia dos Comuns.

 

Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

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