top of page

Nº 02 FEVEREIRO-2024

Edição especial de carnaval -Foto de capa Ierê Ferreira

Por enquanto, estamos ganhando a luta contra o extermínio”.

Nei Lopes conversa sobre temas que cortam a realidade do negro brasileiro.

Por: Leonardo Lichote

O Momo é o único Rei que amei.”

Um ensaio fotográfico sobre o carnaval

Ana Maria Gonçalves e o legado de Luiza Mahin através de “Um defeito de cor”.

Por: Iara Brandão Ferreira

Editorial

"O carnaval do Rio de Janeiro é sempre um banquete para nós fotógrafos!

Uma catarse, a expurgação de tudo que reprime o nosso povo, é uma revolução em ambientes de extrema alegria, é zoação, fantasia de Deus e do diabo, heróis, vilões, fantasmas e barões. No carnaval, até a morte enganada se deixa levar na folia, no giro das baianas, na beleza rítmica da passista  onde se revelam os falsos pudores, a nudez das donzelas, a bunda cabeluda dos caretas e as tretas são logo abafadas pela mola mestra que nos guia, o SAMBA...

Por tudo isso, aqui reunimos alguns fotógrafos foliões, apresentamos um pouco de suas obras de carnaval e parafraseando o Mestre Moacir Luz; “O Momo é o único Rei que amei.”

 

Ainda nesta edição: O Mestre Nei Lopes responde as parguntas do jornalista Leonardo Lichote.

 

E vamos conhecer um pouco mais a escritora Ana Maria Gonçalves e o legado de Luiza Mahin através de “Um defeito de cor”.

Por: Iara Brandão Ferreira

Essa REVISTA é pra você!

Apoie este trabalho pelo

PIX: 21-984237151

Editor: Iere Ferreira

Colaboradores: Daniele da S. Araújo, Sylvia Arcuri, Iara Brandão Ferreira e Leonardo Lichote

Fotos: Ierê Ferreira

Por enquanto, estamos ganhando a luta contra o extermínio”

Nei Lopes conversa sobre temas que cortam a realidade do negro brasileiro, como mestiçagem, identidade, carnaval, colorismo e representatividade na televisão

Leonardo Lichote.

Nei Lopes é um cultor da memória. Seja como escritor, compositor, poeta, dicionarista, intelectual, seu trabalho é marcado por uma profunda relação com o que e quem veio antes. Mas seu olhar para o passado se manifesta em sua produção não como mera nostalgia do “tempo que Dondon jogava no Andaraí”. Ele determina sua compreensão do presente e sua ação nele. Porque falamos como falamos, porque sambamos como sambamos, porque lutamos como lutamos e porque devemos defender a fala, o samba, a luta.

 

Nesta entrevista, Nei olha para o passado do Brasil, mais especialmente do negro brasileiro (ou “afronegro-descendente”, como ele prefere chamar), para falar do país de hoje. Seu pensamento atravessa temas como mestiçagem, carnaval e televisão, respeitando o mistério do futuro, entregue ao saber ancestral: “Quem sabe (do futuro) é Ifá, o milenar oráculo do povo iorubá”

Há hoje no Brasil uma série de discussões a respeito da mestiçagem que se deu em nosso processo histórico. Há quem afirme que pardos são negros, mas também há quem clame por uma "identidade parda", assim como há quem argumente que o entendimento de pardos como sendo negros invisibiliza a presença do indígena nessa parcela miscigenada da população. Como se resolve o nó (os nós) desse aspecto do Brasil, a mestiçagem, que já foi visto como um mito, uma bênção incontestável, e hoje é visto como uma nódoa ou, na melhor das hipóteses, uma esfinge?

 

Antes de tudo, não acho que a mestiçagem seja mito, benção, nódoa ou esfinge. Vejo-a apenas como um fenômeno da Natureza, que ocorre em todo o reino animal e também no vegetal. E quando falo Natureza me refiro a uma Força pré-existente e incriada, que tanto pode ser chamada de Olodumare quanto Zâmbi, Criador, Deus, etc. Quanto a questão da identidade, acho que cada grupo da sociedade deve afirmar a sua. E com relação a nós, descendentes de negro-africanos, entendo que devemos defender esta origem, talvez a designando na forma “afronegro-descendente”, que exclui os africanos não negros e congrega todos os outros de diversos matizes e aparências fenotípicas. A propósito, lembro de um livro da época do colonialismo português na África que consigna a cor dos moçambicanos como “castanho-carregada”. E toda vez que me lembro disso dou boas gargalhadas.

Nei Lopes, Ivan Milanez, Zé  Luiz do Império Toninho Gerais e Nelson Rufino

Rubens Confete, Neguinho Joia, Cláudio Jorge,

Jorge, Dr Bigu, Nei Lopes, Zé Luiz do Império e Wilson Moreira

Serginho Meriti, Claudio Jorge e Tantinho da Mangueira.

Fotos: Ierê Ferreira

Quanto a ser negro hoje no Brasil, acho que é bem melhor que no pós-abolição (c.1889-1930), quando alguns governos republicanos seguiam políticas no sentido do apagamento da presença africana no Brasil até o ano 2000. Por enquanto, estamos ganhando a luta contra o extermínio. O que, infelizmente, não podemos dizer dos nossos “primos” aborígenes, donos originais da maior parte do território brasileiro.

 

Como você vê os debates sobre colorismo?

Sobre colorismo, vale a pena dizer que, na África do Sul, os povos Koi-Sã, outrora referidos como “bosquímanos e hotentotes” têm, em alguns casos, peles mais claras que a dos diversos “bantus”, e nem por isso têm melhor status social. A luta contra o racismo não admite esse tipo de diferenciação, que estabelece separação a partir da tonalidade da pele.

 

Você acompanha o programa "Big Brother Brasil"? Pergunto porque muitas questões raciais e de classe de nossa sociedade aparecem refletidas ali — sob mil camadas de espetacularização. Se assiste ou se acompanha o noticiário sobre o programa, você poderia tecer algum comentário sobre essas dinâmicas de raça e classe ali? Falo, por exemplo, do fato de que é muito mais frequente que o público seja condescendente com os erros de um participante branco, enquanto que os negros que cometem algum ato moralmente condenável são facilmente demonizados.

Quanto a esse programa, não vejo e não sei como funciona. E o que tenho admirado na programação da Rede Globo é a estratégia da inclusão do nosso povo afronegro-descendente, sobretudo no jornalismo. E torço muito para que a experiência dê certo, do ponto de vista comercial e a nosso favor.

 

Recentemente a ministra Anielle Franco foi criticada em tom de deboche por militantes da oposição por ter usado o termo "racismo ambiental". O que essas críticas refletem do cenário político brasileiro e da desinformação sobre a desigualdade de nossa sociedade?

 

Na adolescência, tive um professor com quem aprendi a seguinte lição: “Não discuta com o ignorante, pois a vitória não traz louros e a derrota é vergonhosa”.

Há pouco mais de 20 anos o carnaval de rua foi remodelado em várias capitais brasileiras, com jovens de classe média assumindo o protagonismo. Como você avalia esse movimento?

Carnaval hoje é moda. E quem dita as regras é a sociedade de consumo. É claro que a alegria da moçada é salutar. Mas não me conformo é ver chamar camiseta de bloco de “abadá”. Na elegância africana do povo nagô (iorubá) esse nome designa uma veste bacana, de cerimónia.

Avançando no tema carnaval: você participou da fundação do G.R.A.N.E.S. Quilombo, que criticava a maneira como as escolas de samba estavam se desenvolvendo então. Como você vê hoje, com o distanciamento do tempo, as propostas que vocês colocavam ali? E como avalia o carnaval das escolas atualmente?

 

Não participei da fundação do Quilombo e, sim, dos primórdios, após o primeiro carnaval. Naquele momento, década de 1970, eu me revoltei contra o estilo “luxo e riqueza” que as escolas abraçavam. E fui pro Quilombo, que tinha propostas politicamente viáveis, em termos de “arte negra”. Mas o tempo passou e as escolas de um modo geral – apesar de alguns enredos escancaradamente mercadológicos – hoje mostram enredos importantes.

Entretanto, penso que carnaval só não é o bastante. As excelentes acomodações das atuais sedes deveriam ser ocupadas o ano todo, com promoções e atrações que justifiquem a qualificação “Grêmio Recreativo” hoje comum a todas as escolas. E isto, inclusive, para abrigar todas as formas de samba (de terreiro, de salão, partido-alto etc.), com a mesma importância que dão ao samba de enredo, que é, no Rio, o da Sapucaí.

Você é otimista ou pessimista com as perspectivas para o povo negro no Brasil nas próximas décadas? Por quê?

Quanto às perspectivas, quem sabe é Ifá, o milenar oráculo do povo iorubá, cuja importância como orientador de destinos vem crescendo exponencialmente, em todas as Américas, inclusive nos EUA.

Nei Lopes, Wanderlei Monteiro, Negão da Abolição, Juliana Diniz, Claudio Camunguelo e Ruy Quaresma, Luiz Carlos da Vila e Claudio Jorge.

Que homens e mulheres negras foram suas grandes referências?

 

No livro “Afro-Brasil reluzente” (Ed. Nova Fronteira, 2019) publiquei 100 perfis biográficos de  importantes personalidades brasileiras no século XX. Lá estão alguns homens e mulheres que admirei ou admiro. (Entre as personalidades biografadas no livro estão Abdias Nascimento, Conceição Evaristo, Didi, Carolina Maria de Jesus, Marielle Franco, Lázaro Ramos, Pelé, Elza Soares e Clementina de Jesus)

 

Você se arrepende de algum posicionamento público que tenha tomado ao longo da vida? Se sim, qual?

 

Tenho alguns arrependimentos. Um deles foi repudiar a guitarra elétrica na música brasileira do tempo da “Jovem Guarda”. Mas quando descobri Zé Menezes, Bola Sete, Laurindo de Almeida, Manuel da Conceição e outros do mesmo naipe, e fiquei sabendo que nas gafieiras e dancings cariocas ouvia-se há muito tempo o chamado “samba-jazz”, vi que nem tudo estava perdido e me acalmei.

Você é conhecido por ser um trabalhador incansável, sempre com novos projetos. Em que está trabalhando agora?

Estou concluindo um Dicionário de Direitos Humanos, retomando um outro de Africanismo nas Américas e Europa e me preparando para lançar, ainda este ano, um livro meio ficcional sobre o universo da legendária Tia Ciata, com ilustrações maravilhosas de Rui Oliveira, dono da ideia. Tenho ainda em preparação um livro sobre os Acadêmicos do Salgueiro, parceria com o jornalista Leonardo Bruno, para o Acervo do Samba da UERJ, a 2ª. edição aumentada de “Kitabu: o livro do saber e do espírito negro-africanos” e provavelmente outras reedições.

O Negro Em Cena

Leonardo Lichote é Editor na empresa Cadernos de Música e Apresentador na empresa Cria.

`Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Fotos: Carlos Junior

Foto: Ierê Ferreira

Ana Maria Gonçalves e o legado de Luiza Mahin através de “Um defeito de cor”

Fotos: Ierê Ferreira

Na nossa edição de fevereiro, resolvemos falar da autora que teve a sua maior obra como tema do enredo de uma escola de samba centenária do Rio de Janeiro: Ana Maria Gonçalves. Nascida em 1970 na cidade de Ibiá (Minas Gerais) a autora possui uma paixão pela literatura desde a sua infância, que era rodeada de jornais, revistas e livros. Se formou em Publicidade, residiu em São Paulo, onde atuou na profissão por treze anos, mas acabou trocando a vida publicitária pela literatura e a cidade grande pela calmaria da ilha de Itaparica, na Bahia.

Foi na Bahia que a escritora começou a se dedicar de forma integral as pesquisas sobre a história e a cultura da diáspora africana, tendo como resultado dessas pesquisas, suas obras literárias. Seu primeiro livro, publicado de forma independente, em 2002, foi “Ao lado e à margem do que sentes por mim”.

Ana Maria Gonçalves foi a oitava mulher negra a publicar um romance no Brasil. Esse dado nos mostra como as mulheres negras seguem sendo invisibilizadas silenciadas, inclusive na área da literatura, visto que o primeiro romance publicado por uma mulher negra no Brasil – a obra “Úrsula” –, escrito por Maria Firmina dos Reis, é datado de 1859.

Após a publicação de seus livros, Ana Maria Gonçalves morou por sete anos em Nova Orleans, nos Estados Unidos, onde atuou ministrando palestras e cursos em diversas instituições sobre as questões étnico-raciais, sobretudo no que tange as questões históricas que levam à permanência e a perpetuação do racismo. A escritora sempre participa de inúmeros debates, tanto no Brasil quanto no exterior sobre essa temática, e utiliza as redes sociais também para falar disso, além de ter as pautas raciais e a história/cultura das populações afro-diaspóricas como eixo de sua produção literária. Não são apenas os livros que fazem parte dessa produção, Ana Maria também escreve peças de teatro, como as peças “Tchau, querida!” e “Diversos”, e atualmente é colunista do jornal The Intercept Brasil.

 

Sua maior obra é o livro de mais de novecentas páginas, publicado em 2006, intitulado “Um defeito de cor”. Esse livro é resultado de uma pesquisa e de um processo de escrita extenso – de cinco anos – no qual a autora se dedicou a pesquisar em arquivos (jornais, revistas e documentos) alguns fragmentos sobre a sociedade brasileira do século XIX e de como a cultura africana e afrodiaspórica está presente nessa construção social. A obra entrelaça historiografia e ficção, ao relatar as rotas diaspóricas da vida de Luiza Mahin - uma das líderes da Revolta dos Malês, que ocorreu em Salvador em 1835 - e dos movimentos de resistência da população negra ao sistema de escravização e suas violências, fruto da dominação colonial.

Em uma entrevista concedida ao programa Roda Viva (do canal TV Cultura), que foi ao ar em julho de 2023, a autora fala de como esse processo de pesquisa e escrita faz parte da construção de sua própria identidade:

 

Escrever “Um defeito de cor”, eu acho que ele atendeu a uma necessidade minha de me entender como mulher negra no Brasil. Eu sou filha de uma mãe negra, de um pai branco, e essa identidade mestiça no Brasil é uma identidade que é muito negociável e muito negociada. Dependendo de onde eu estivesse, de como eu estivesse me apresentando, as pessoas me classificavam como branca ou como negra. E eu precisava entender isso: onde é que está guardada essa identidade, que não seja uma identidade que durante muito tempo foi usada para negar racismo no Brasil. (YOUTUBE. Roda viva – Ana Maria Gonçalves, 2023)

Além de se descobrir como uma mulher negra, fruto de uma miscigenação característica da construção social desse país, que nos traz uma série de questões, ela ainda salienta que a escrita de “Um defeito de cor” a ajudou entender sua ancestralidade:

 

“Um defeito de cor foi um livro que, eu acho que primeiro, que eu queria ter lido e não achei – Parafraseando a Toni Morrison – e um livro que me ajudou a me entender ao estudar a história, de onde vem os ancestrais, de onde a gente vem, de onde vem essa população afrodiaspórica... Eu estava entendendo um pouquinho de mim ali também.

E entender que esse arquivo a gente traz no corpo, a gente não precisa de papel, a gente não precisa de oficialização para alguma coisa. Essa história, ela é contada no corpo. (YOUTUBE. Roda viva – Ana Maria Gonçalves, 2023)

 

O Romance “Um defeito de cor”, é uma narrativa construída na primeira pessoa, ou seja, a própria personagem principal – Kehinde (Luiza Mahin) – é quem conta a sua história desde a sua infância até a velhice. Para a autora, colocar o texto em primeira pessoa foi importante, porque segundo o relato que ela deu no Roda Viva:

 

Ao contar a nossa história, a partir do nosso ponto de vista, como protagonista, como narradora, o que a gente está fazendo, na verdade, é contar a história oficial do Brasil, ou seja é reivindicar esse lugar e esse papel que sempre foi assumido pelo homem branco, pelas pessoas que falavam sobre nós sem nos ouvir.

– Um defeito de cor é um monólogo no qual a fala é de uma mulher preta, e para autora isso é fundamental na sua obra literária, porque ouvir uma mulher preta é algo que o brasileiro não está acostumado a fazer. (YOUTUBE. Roda viva – Ana Maria Gonçalves, 2023)

Almoço de confraternização com jovens cineastas no Centro Afrocarioca de Cinema.

Ana Maria Gonçalves no exposição Um Defeito De Cor no

Museu de Artes do Rio e com o Coreógrafo e cineasta Zebrinha

Fotos Ierê Ferreira

Ao longo do livro, Ana Maria dá a voz a uma mulher negra dentro de uma sociedade colonial, racista e patriarcal que desumanizava corpos negros. Mesmo que essa obra seja, em grande parte, ficcional, existe nela muitos detalhes sobre o contexto político e econômico, bem como as relações sociais do Brasil do século XIX. No texto, são contados vários acontecimentos da história do Brasil e como a cultura negra influencia esses acontecimentos através da visão de uma mulher preta.

Assim, o romance narra a trajetória de Kehinde, uma mulher negra nascida em Savalu, no reino de Daomé (atual Benin – continente africano), que mudou-se para Uidá com oito anos, após a morte de sua mãe e seu irmão, onde foi capturada e colocada em um tumbeiro com destino ao Brasil. A menina foi capturada junto com a sua irmã e a sua avó, mas foi a única que sobreviveu a viagem. Tendo a sua humanidade roubada, Kehinde trabalhou como escravizada em uma fazenda na ilha de Itaparica. Na fazenda, ela passa a maior parte de sua infância e adolescência, tendo o seu corpo submetido a várias violências, inclusive à violência sexual, da qual ela tem o seu primeiro filho.

Depois de sair de Itaparica, a personagem se muda para Salvador, onde trabalha como escrava de ganho e consegue comprar a sua alforria. Na cidade, ela se casa com um comerciante português e tem um filho, que tempos depois, é vendido como escravizado pelo pai. Kehinde passa a maior parte da história percorrendo outros lugares para tentar encontrá-lo e, nessa busca, retorna ao continente Africano. De volta a Uidá, reinventa a sua vida, se casa de novo, tem mais filhos, vira empresária, mas não desiste de sua busca. Com oitenta anos, volta ao Brasil, em sua última viagem à procura desse filho perdido e, nessa viagem, resolve escrever a sua história, na esperança de que, caso não encontre o filho, ele encontre as suas memórias. Essas memórias foram costuradas dentro de vários processos afrodiaspóricos, que tem o Atlântico como uma das rotas principais, da trajetória de Luiza Mahin.

“Um defeito de cor” é uma das maiores obras literárias brasileiras voltadas para a valorização da cultura negra. Em 2007, conquistou o Prêmio Casa de Las Américas como melhor romance do ano.

De setembro de 2022 a agosto de 2023, o Museu de Arte do Rio teve como sua exposição principal, uma interpretação dessa obra. A finalidade era produzir uma revisão historiográfica da escravidão, abordando lutas, contextos sociais e culturais do século XIX, a partir de um recorte do livro, com partes da trajetória da personagem principal.

Na segunda de carnaval, 12 de fevereiro de 2024, a escola de samba Portela levou para a Sapucaí o enredo “Um defeito de cor”, também baseado na obra em questão. Entretanto, ao invés de trazer a história da mesma forma que ela foi contada pela autora, a Portela mostrou na avenida o caminho contrário: ao invés de Luiza Mahin procurar seu filho, Luiz Gama – um importante advogado abolicionista -, a proposta do desfile refaz os caminhos imaginados da história dela através do filho procurando a mãe. Na entrevista que Ana Maria concedeu para o programa Roda Viva, ela diz que o livro “Um defeito de cor” é uma grande carta da mãe para o filho, uma vez que a maior herança que ela pode deixar para ele é a sua própria história. A Portela apresentou em seu desfile a resposta que Luiz Gama daria a sua mãe sobre esse legado da memória que ela o deixou através do livro que ela escreveu. Segundo a sinopse do Enredo, esse desfile é uma homenagem a todas mães-pretas da história, às histórias de mulheres que nos deixam um legado de resistência e ancestralidade.

Mesmo com poucos registros de Luiza Mahin, como faz parte da história de todo escravizado, ouso dizer (como historiadora) que a autora conseguiu compor com maestria uma personagem numa riqueza de detalhes, utilizando fragmentos documentais de outras mulheres que viviam nas mesmas condições e no mesmo contexto que ela, além dos escritos do próprio Luiz Gama. O relato de sua trajetória, mesmo que seja uma ficção, deixa um legado não só para os seus descendentes, mas para todas as negras e negros que são frutos desses processos diaspóricos. Ao lançar “Um defeito de cor” para o mundo, a autora não apenas eleva as vozes das mulheres negras, mas ressignifica as histórias das populações negras, combatendo um discurso reducionista e racista, que nos coloca sempre à margem da História, que segue tentando nos invisibilizar e nos matar até hoje. Nós somos protagonistas das nossas próprias histórias e, pasmem, da História desse país.

Sagrado feminino ensinamento

Feito águia corta o tempo

Te encontro ao ver o mar

Inspiração a flor da pele preta

Tua voz, tinta e caneta

No azul que reina Iemanjá

Salve a lua de Bennin

Viva o povo de Benguela

Essa luz que brilha em mim

E habita a Portela

Tal a história de Mahin

Liberdade se rebela

Nasci quilombo e cresci favela!

 

(Samba-enredo Portela 2024)

O Negro Em Cena

IARA BRANDÃO FERREIRA

Colunista graduada em História, atua como professora voluntária dos pré-vestibulares comunitários Brota na Laje e Sintuperj (UERJ). Também atua como educadora em Museus desde 2012.

Mestra em Relações Étnico-raciais - PPRER (CEFET-RJ)

O Negro Em Cena

Fotos: Ierë Ferreira

Carnaval, o mercado da alegria

 

Escolhi este título porque é assim que vejo esta manifestação popular, onde tudo está para ser trocado, vendido, comprado ou simplesmente doado.

As pessoas trocam o dia pela noite, homens vestem-se de mulher, mulheres vestem poucas roupas, crianças viram heróis e vilões e o mercado da alegria gira. E a gira é de Exu! Digo isso porque uma vez vi o meu pai de santo fazendo um ritual de liberação do Exu em nosso barracão e era o primeiro dia de carnaval, a festa da carne. Anos mais tarde, entendi o carnaval como um grande mercado e é o mercado um dos lugares prediletos de Exu.

Aprecio o carnaval? Sim, aprecio, meu pai foi desses foliões que criou o primeiro bloco de carnaval no I.A.P.I de Del Castilho, pelos idos de 1958 do século passado. Faz tempo e a magia da festa continua, pois, hoje, pelas suas ruas sai o Bloco Fuzuê. Estive algumas vezes por lá com meus tios, primos herdeiros da festa.

Essa manifestação na rua, de rua, com a rua é um encontro potente com a essência de ser brincantes que somos e que deveríamos cultivá-la durante o ano todo, não apenas na semana do Rei Momo. Sempre, nesse período, relembro carnavais passados que fervilhavam as ruas do subúrbio e o que me chamava mais atenção eram as fantasias. Tinha medo, mais muito medo dos carrascos, que hoje entendo como alusão aos torturadores e aos membros da KKK (Ku, Klux, Klan). Na minha sensação infantil eles eram de arrepiar e perseguiam as crianças com maldade e insistência. Papai nos alertava: Cuidado! Não sabemos que está por trás das máscaras, fiquem atentos!

O Negro Em Cena

Fotos: Jorge Ferreira

Essa manifestação na rua, de rua, com a rua é um encontro potente com a essência de ser brincante que somos e que deveríamos cultivá-la durante o ano todo, não apenas na semana do Rei Momo.

O Negro Em Cena

A Turma do Sucesso de Rocha Miranda homenageou o cantor Marcelo D2. Agora, as meninas também, podem fazer parte desse grupo que antes só aceitava homens, mas uma luta vencida contra o machismo e a misoginia.

Fotos Ricardo Beliel

Os meus figurinos carnavalescos eram simples, um ano, melindrosa, no outro, bailarina, pirata e até a que sabemos que não convém usar “de índio” com direito a cocar e saia de penas artificiais e coloridas, de algum modo, recebiam o aval do Bloco Cacique de Ramos. A fantasia preferida do meu irmão era a de Bate-bola, uma fantasia quente para o verão carioca, composta por uma máscara de ferro confeccionada com arames bem finos que quando transados recebia uma estampa tosca de cara de palhaço horroroso, cuja boca tinha um furo no meio para caber uma chupeta, o restante da cabeça era coberto com um tecido de malha preto. Lembro bem a manobra insana para comprar a bexiga de boi que servia como a bola e surrava o chão das ruas que apanhavam em silêncio. Papai saia de Todos os Santos até o matadouro de Santa Cruz para buscar a joia mais preciosa que compunha o figurino de muitos meninos do bairro. Essa bexiga fedia, deixava a casa sem ar, era uma mistura de putrefação com urina que posso sentir até hoje. Além da máscara e da “bexibola”, os moleques usavam um macacão de cetim, com golas e punhos de babados, não existiam muitas variedades de tecidos e as estampas se repetiam. Percebo que houve uma evolução, uma revolução pois, as famílias, os grupos de Bate-bolas, que cruzam as zonas periféricas da cidade, usam fantasias luxuosas e apresentam temas ou homenagens, esse ano vi que o grupo, A Turma do Sucesso de Rocha Miranda homenageou o cantor Marcelo DE2. Agora, as meninas também, podem fazer parte desse grupo que antes só aceitava homens, mas uma luta vencida contra o machismo e a misoginia.

E como têm blocos nessa cidade, mudou muito, mas tanto que introduziram manobras e elementos do carnaval baiano, trio e corda para afastar o povo. Antes, o Cordão da Bola Preta vinha com sua orquestra riscando o chão das avenidas do centro da cidade com a multidão atrás como cortejo. Esse ano, vi um trio afastado dos foliões e uma corda delimitando o espaço. Essa festa não e a do limite, mas da entrega fervorosa, onde coração, corpo, mente e espírito não se dividem, não se afastam, vivem uma catarse e se transformam juntos em um único espaço de folia coletiva que acessa a ancestralidade e teimam em brincar e serem felizes. Por que esse afastamento? Não consigo entender e nem conceber, só me resta aceitar que o capital é o que importa e muitos não percebem, graças a Deus ou ao Momo, vai saber.

E é nesse mercado da alegria que, os profissionais da fotografia, mergulham as lentes, em busca do ponto alto da manifestação popular. Onde a magia os atrai e guia os olhares, para as histórias instantâneas que foram e serão contadas a vocês.

Essas memórias foram escritas depois da leitura do texto do antropólogo Vagner Gonçalves da Silva e que deixamos para vocês refletirem e fazerem as conexões com o nosso carnaval.

O Negro Em Cena

Fotos: Erica Martins

“É no século XIX que aparece uma mitologia que o associa a isso. Na mitologia iorubá, o mundo foi criado por Olodumaré, que é um ser supremo que mandou dois tipos de entidade para criar o mundo: um grupo que se chama Igbalé, que são os orixás propriamente ditos, e outro que são os guardiões da natureza, que têm o conhecimento, chamado Irunmalé. Exu não é uma coisa nem outra. Em algumas mitologias, quando o mundo foi dividido assim, Exu ficou sem nada. Como era muito desordeiro, mandava o sol nascer à noite, a lua durante o dia, e confundiu toda a criação do mundo. Olodumaré, então, diz que Exu passa a ser o guardião do axé, da comunicação, a chave que une a todos, com o poder de falar de Olodumaré para os orixás, dos orixás para os homens e dos homens para os deuses. É assim que a mitologia de Exu passa a ser elaborada. E é por isso que, quando se vai fazer algo, é preciso primeiro saudar Exu. Ele é o mensageiro entre esses mundos e é por isso que o lugar preferencial dele é onde tem troca, como o mercado, a encruzilhada e as festas.”

 

(Vagner Gonçalves da Silva em entrevista para o site do EDUSP Editora da Universidade de São Paulo).

Laroyê, Exu Mojuba!

Ierê Ferreira e Sylvia Arcuri

O Negro Em Cena

Esta Revista é para você

E nós queremos anunciar a sua marca

O Negro Em Cena

Revista de arte e cultura

 

Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

53288 Ipafro Sankofa.jpg
0125 Marina Miranda.jpg
69003 Afro dance - Cópia.jpg
34669 Contra luz Iara.jpg
994615 Zona Portuaria.jpg
20.jpg
21.jpg
22.jpg
bottom of page