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Atenção Brasil, tentemos nos concentrar nesse instante histórico: Nós somos o FAROFA CARIOCA.

Por: Ierê Ferreira

 

​“A emoção foi geral”Quando as mãos dos Mestres de bateria se tornam a batuta no samba.

Por: Sylvia Arcuri e Wallace Lopes Silva ​

 

Malandro Maneiro e Onipresente

Por: Ierê Ferreira​

 

O desfile das escolas de samba de 2026 como altar da memória e resistência das mulheres negras.

Por: Iara Brandão Ferreira​

 

As soprosas criações doMaestro Paulo Moura

Por: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

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Foto: Reinaldo Hinge

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Editorial: 2026 e o ano começa no fim do carnaval mais controverso, no verão mais chuvoso no Brasil e com guerras agravadas por homens brancos de extrema direita que se acham os donos do mundo. “Alguma coisa está fora da ordem”, já dizia Caetano Veloso. 

E nesta disputa da extrema direita e da esquerda em nosso pais, nós continuaremos negros e a revista O Negro Em Cena reafirma o compromisso de entregar aos nossos leitores o que há de melhor na cultura afrobrasileira.

Abrimos a edição nº 10 com o chamado da banda Farofa Carioca: “Atenção Brasil, tentemos nos concentrar nesse instante histórico”.

“A emoção foi geral” quando as mãos dos mestres de bateria se tornaram a batuta no samba. Uma reflexão sobre os gestos dos mestres que conduzem o ritmo nos desfiles de carnaval, onde o malandro maneiro e onipresente Ivan Milanez sempre apresentava o seu gingado.

O desfile das escolas de samba de 2026 como altar da memória e resistência das mulheres negras.

E, por fim, nossa homenagem destaca as soprosas criações do Maestro Paulo Moura, capa desta edição tão especial.

Equipe editorial:

Editor e fotógrafo: Ierê Ferreira

Colunista e revisora: Sylvia Arcuri  Colunista nesta edição: Wallace Lopes Silva  e Iara Brandão Ferreira

Consultor Editorial: Augusto Lima

Produtora: Daniele da Silva Araújo

 

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Atenção Brasil, tentemos nos concentrar nesse instante histórico: nós somos o FAROFA CARIOCA.

Texo e fotos: Ierê Ferreira

Grupo musical brasileiro, radicado no Rio de Janeiro e formado na década de 1990, com estilo variado devido à combinação de ritmos como rock, pop, rap, reggae, samba e funk. Algumas apresentações em concertos tiveram participações de números circenses e de dança, isso porque Seu Jorge, ao conhecer Gabriel Moura, passou a frequentar e participar do grupo de teatro social da UERJ, o TUERJ, que montava peças e esquetes teatrais e apresentavam na Concha Acústica da universidade. Ali eles se desenvolvem artisticamente, compondo e atuando juntos. As músicas “Moro no Brasil”, “Menino da Central do Brasil” e “Rap do Negão” são escritas nessa época.

Também naquele momento, o flautista francês Bertrand Doussain chega ao Brasil e, após dar uma “canja” no show do maestro Paulo Moura,  conhece Seu Jorge e eles ficam muito amigos, apesar das dificuldades da língua um do outro. Bertrand insiste para que montem uma banda que une Seu Jorge nos vocais, Gabriel Moura também nos vocais, Bertrand Doussain na flauta, Wellington Coelho e Sandro Márcio nas percussões, Carlos Moura no trombone, Valmir Ribeiro no cavaquinho, Sérgio Granha no baixo e DJ Mohamed nas pickups.

Bertrand Doussain, Sérgio Granha, Valmir Ribeiro, Wellington Coelho, Sandro Márcio, Carlos Moura, Gabriel Moura e DJ Mohamed

Foto: Ierê Ferreira

Uma das primeiras apresentações da banda aconteceu no Teatro Dulcina, em um espetáculo intitulado Show Média e Farofa Carioca, onde a banda fazia um baile após vários esquetes de teatro. Na sequência, a banda explode no cenário underground carioca com shows na Zona Sul do Rio, Lapa e Santa Teresa, liderando a cena musical da época. Um desses shows lotou o antigo Asa Branca, famosa casa do empresário Chico Recarey, e teve a presença dos Paralamas do Sucesso.

Em 1998, a banda decide se reunir de forma acústica às segundas-feiras de janeiro, no Posto 9 em Ipanema e cria o Farofa na Praia, chamando a atenção dos jornais e da TV, que fazem matérias sobre esses encontros musicais nas areias.

O álbum Moro no Brasil sai em agosto do mesmo ano pela PolyGram, reunindo composições como “Moro no Brasil”, “São Gonça”, “Doidinha”, “Bebel” e “A Carne”, marcando a estreia da banda no cenário nacional. O CD traz participações de Fagner, Sivuca e do maestro Paulo Moura.

As letras da banda fazem críticas sociais e temas de combate ao racismo, como é o caso da canção A Carne, composta pelo então vocalista da época, Seu Jorge, e os parceiros Marcelo Yuka e Ulisses Cappelletti. Também foi gravada em 2002 pela cantora Elza Soares, numa interpretação dessas que fazem a gente chorar de emoção.

 

Em 2002, Seu Jorge se afasta da banda para seguir carreira solo e, com sua espetacular participação no filme Cidade de Deus, ganha status e se consolida não só como grande cantor, mas também como grande ator na cena mundial, fazendo valer toda a experiência teatral e musical do início da carreira.

O Negro Em Cena

Farofa Carioca no ônibus para a gravação do clip Moro no Brasil, no Teatro Dulcina, no Asa Branca e  na praia, Valmir Ribeiro e Seu Jorge.

Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

No mesmo ano, o vocalista Gabriel Moura também se afasta da banda para voltar a se dedicar ao teatro. Ele recebe um convite do Grupo Nós do Morro e o espetáculo Noites do Vidigal, sob sua direção musical, ganha o Prêmio Shell de Melhor Música naquele ano.

O flautista francês Bertrand Doussain volta para Paris e também se afasta do grupo. Sob protestos e descontentamento, a banda faz uma pausa, deixando os fãs com uma enorme saudade.

Em 2004, Mário Broder, ex-vocalista do da banda Funk’n’Lata, passa a integrar oficialmente a banda, com simpatia e leveza, enriquecendo ainda mais o repertório com canções autorais e com sua voz e presença marcante. A banda volta a se apresentar pelo Brasil em grandes festivais nacionais e internacionais, como: Festival João Rock, Festival da Lua Cheia, Festival de Inverno de Ouro Preto, Festival de Inverno de São João Del Rei, Festival de Curitiba, Virada Cultural de São Paulo, Aracaju Folia, Festival de Verão de Helsinque, Festival Tropical de Estocolmo. O grupo volta a ganhar visibilidade e faz uma turnê pelo Brasil e Europa com a diva Elza Soares, que torna-se madrinha da banda em 2008.

Em 2010, a banda grava o DVD Ao Vivo, com ingressos esgotados no Circo Voador, RJ, e participações de Elza Soares, Seu Jorge, Gabriel Moura e Bertrand Doussain, que vem de Paris especialmente para este reencontro.

Naipe de metais liderado por Carlos Moura, Mário Broder e o saxofonista, fotos: Ierê Ferreira.

Grafite DJ Mohamed foto divulgação

A gigante Elza Soares e Mario Broder. Banda Farofa Carioca, Gabriel Moura e Seu Jorge.

Fotos: Ierê Ferreira

É a primeira vez que todos os integrantes se encontram com o novo vocalista Mário Broder. A química é perfeita, a energia contagiante, o público vai ao delírio e o registro é dirigido por Gustavo Acioli, produzido pela Ativo Humano Produções e lançado apenas em formato físico pela gravadora Biscoito Fino.

Em 2013, e pela segunda vez, a banda paralisa os trabalhos, desta vez por mais de dez anos, deixando os fãs com uma profunda saudade da irreverência nos shows, cheios de swing, onde nós cantávamos em vozes uníssonas todas as músicas e dançávamos com a alegria de foliões nesses bailes cheios de farofeiros e farofeiras.

Em 2024, depois de conversas individuais com cada integrante da banda, o vocalista Gabriel Moura convence a todos a dar uma nova chance ao projeto, que coleciona fãs espalhados pelo Brasil e pelo mundo. A volta do grupo aos palcos acontece a convite do empresário Peck Mecenas, para participar do primeiro 90’s Festival, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, com participação especial de Seu Jorge, que faz o show inteiro com a banda e marca definitivamente o início da nova fase. Muita emoção nesse reencontro e a promessa de não parar novamente.

O Negro Em Cena

Em 2025, Gabriel Moura passa a empresariar a banda e viabiliza com a Universal Music o lançamento de Moro no Brasil em versão remixada, remasterizada e com áudio especial, até então inédito nas plataformas de streaming. O álbum digital saiu em 13 de junho, um dia antes do show no Festival João Rock. A apresentação foi transmitida ao vivo pelos canais BIS e Multishow e pelo YouTube do festival e da Rádio 89,9 FM, com participações especiais de Seu Jorge, Paula Lima e Hyldon que cantaram para uma plateia envolvida e emocionada. Em outubro, a Universal lançou uma caprichada edição do icônico álbum em vinil duplo e, na véspera do Dia da Consciência Negra, o grupo lançou Rap do Negão, composta por Seu Jorge, Gabriel Moura e Wallace Jefferson, com citações de Upa Neguinho, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, e Negro não sabe o que é dor, canção de domínio público.

Nós, os fãs, agradecemos e esperamos novos encontros com o surdo e o tan-tan grave e preciso de Sandrinho Carioca, as congas frenéticas e cheias de slap’s de Wellington Coelho, o cavaquinho plugado e com pedais de modulação de Valmir Ribeiro, as intervenções e inserções do DJ Mohamed, o groove certeiro do baixo de Sérgio Granha, o swing e a alegria nos vocais de Mário Broder, o timbre suingado e silvery da flauta de Bertrand e o vocal harmonizado com o violão e a competência de Gabriel Moura. E, quem sabe, seremos premiados com a presença marcante do nosso, Seu Jorge.

Vida longa sucesso e AXÉ GRANDÃO ao Farofa Carioca.

 

Texto e fotos: Ierê Ferreira. Fonte da pesquisa: https://www.bandafarofacarioca.com/#ouca e https://pt.wikipedia.org/wiki/Farofa_Carioca

O Negro Em Cena

O Negro Em Cena

“A emoção foi geral”

Quando as mãos dos Mestres de bateria se tornam a batuta no samba.

Por: Sylvia Arcuri e Wallace Lopes Silva

 

Ficamos intrigados e hipnotizados com os gestos sincronizados que os Mestres de

bateria fazem com as mãos diante dos ritmistas que os recebem com uma displicência atenta e poética. Eles riscam o espaço que se transforma em receptáculo de poesis que conecta com

harmonia os diversos sons que saem das batidas dos instrumentos e se aliam em unicidade com as batidas do coração de quem desenha o som no espaço e com aqueles que o codifica e o recebe, promovendo o baile da música em movimento, o samba nos gestuais dos Mestres que evocam a sutileza precisa do som da atmosfera que os cerca. Poesia pura, entoada, desmitificada e mística ao mesmo tempo. A maestria sozinha não existiria sem esses elementos complementares que são despertados na avenida, na afectosfera daquele momento mágico, único, encantado e encantador. Desenhar o samba no ar é conversar com o invisível da música, do ritmo, do coração, da intimidade construída durante os ensaios e que explode como cumplicidade na avenida no dia principal do espetáculo, o desfile das escolas de samba que afeta e contagia o espectador e vira mandinga, mironga das boas.

ão é à toa que sentimos e entendemos a bateria como o coração da escola. A linguagem que é criada é de coração para coração, Mestre, Ritmistas e Público, a tríade completa que determina o tom das magias que surgem e, como mágica, embriaga a alma e nos faz sentir especiais.

O sambailado dos Mestres entoa sentimentos que estão guardados e se abrem tal qual caixa de Pandora. O que nos leva a pensar em todos os Mestres que já fizeram e fazem história. Assistir a bateria de qualquer escola na avenida e os seus Mestres é pensar em Sonosfera conceito elaborado pelas mãos de Wallace Lopez que complementa o nosso sentimento de espectadores atentos.

O Mestre de Bateria atua como um modulador de entropia. Diante do caos urbano, seu gesto — o silêncio que precede o impacto — é o ponto zero da criação. Ao reger a massa sonora, ele não apenas marca o tempo cronológico, mas altera a densidade molecular do ambiente. O couro do tambor, em contato com as mãos, torna-se uma membrana de interface entre a ancestralidade e a matéria bruta, onde a energia cinética se converte em alfabetização afetiva.

Portanto, a batucada não é apenas folclore; é uma tecnologia dos Orixás tocada na

avenida em forma de um convite para beleza e para entrega do ebó final.

 

Ele, por sua vez, é o físico que compreende que, para reorientar uma cidade cegada pelo racismo estético, é preciso primeiro reorganizar a frequência de seus átomos através do espanto e da precisão do ritmo.

Na avenida, o que se presencia não é apenas um desfile, mas a criação de uma Singularidade Sônica: um ponto de densidade infinita onde o tempo linear se curva até encontrar o ancestral. Nesta Física do Batuque, os ritmistas não são meros executores, mas partículas elementares em um estado de alta excitação. O bloco sônico opera como um Acelerador de Partículas de Axé, onde o impacto do baque no couro gera uma colisão de alta energia entre átomos de memória e elétrons de resistência. Essa colisão não destrói; ela transmuta a matéria bruta da favela em matéria radiante.

A Sonosfera é, portanto, o campo de força gerado por essa ressonância de afetos.

Quando os corpos difusos são comprimidos em espaços mínimos, a física clássica cederia ao

caos, mas a Física da Umbigada gera uma Superfluidez: os afetos fluem sem viscosidade, penetrando as cavidades da alma da cidade. O gesto do Maestro é o vetor de toque que orienta o spin de milhares de corações, alinhando-os em uma magnetização coletiva que Pixinguinha prescreveria como a cura para a desordem do espírito.

A Sonosfera do samba não é apenas um espaço acústico; é uma topologia de resistência. Ela se manifesta como uma esfera sônica, onde toda a energia radiante emitida pela bateria (o núcleo estelar) é capturada e reprocessada pela multidão. O batuque gera uma frente de onda de alta pressão que empurra o som, desenhando mandalas geométricas e som no asfalto. A multidão não apenas ouve; ela habita as cristas dessas ondas transversais.

O Negro Em Cena

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Assim a Sonosfera torna-se um radiador perfeito: ela emite uma luz estética que os

ouvidos da cidade tentam decifrar, mas que só é compreendida pela escrita primordial do couro e do Mestre.

O corpo negro, acumulando esse som ancestral, funciona como um supercapacitor que descarrega séculos de história em um único compasso.

Os gestos do Mestre organizam o tumulto em uma sincronização de osciladores acoplados.

Quando o tamborim, o repique e o surdo entram em fase de encanto, ocorre uma

transição de fase da matéria: o que era um aglomerado de indivíduos torna-se um superátomo social — um condensado de UMA ROMA NEGRA SÔNICA, onde todos os corpos vibram na mesma frequência em prol da LIBERDADE. Neste espaço-tempo, o corpo negro deixa de ser objeto do racismo para ser um ressonador da LIBERDADE. O povo em si, ele armazena o eco do Big Bang do tambor primordial, revelando que a matéria só existe enquanto o som permitir que ela vibre. A Sonosfera é o lugar onde a física se rende à metafísica: onde o atrito do racismo estético é substituído pela lubrificação do afeto, permitindo que a Romaria Negra deslize para a eternidade.

Consequentemente, a Apoteose é o momento em que a frequência da bateria atinge a frequência de ressonância da liberdade, desintegrando o racismo estético através da pura pressão acústica da beleza.

Mestre Gilmar do Império Serrano e a

Bateria da Paraíso do Tuiuti.

Fotos: Ierê Ferreira

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Por fim, o encontro do som com a esfera gera uma ressonância de corpo inteiro. A

multidão, ao ser tomada pela emoção, entra em um estado de emaranhamento quântico: o que o surdo sente no centro da bateria, o espectador sente na última arquibancada, instantaneamente, sem perda de sinal.

Sentimos que não é fácil desviar o olhar da gestualística poética dos Mestres, o apito

que era protagonista, virou coadjuvante, pois o som dos sinais vão além do som produzido

pelo apito, pois é som composto no ar, na energia astral, na solidariedade do encontro, na empatia dos corpos, no carinho dos pensamentos que reforçam essa escrita como samba bordado no infinito de cada Mestre, de cada componente que extrapola e chega em todos os que desfilam e assistem um espetáculo sonoro que diz a todo instante: fazemos cultura de alta qualidade, somos felizes e vivemos para celebrar a vida junto com o samba que desenha o ar da existência. E só podemos dizer Saravá a todos os Mestres!

 

“A Emoção Foi Geral”: primeiro verso do samba, Silêncio de um bamba, escrito por Ney Lopes e Wilson Moreira.

 

Por: Sylvia Arcuri: Doutora em Literatura Hispano-americana pela UFRJ e revisora desta revista

Wallace Lopes da Silva: Doutor em Espaçologia pelo IPPUR/UFRJ

Fotos: Ierê Ferreira

Mestre Celso Alvim do Mono Bloco

Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Malandro Maneiro e Onipresente

Por: Ierê Ferreira

Era assim que eu o via em quase todos os sambas e bares da cidade, ou em uma esquina qualquer da Lapa, região portuária ou de Madureira, a qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada, ostentando seus dreads embaixo do chapéu ou da boina e, às vezes, com o pandeiro na mão e o copo de cerveja na outra. Às vezes, ao lado de Dona Romana, amiga e companheira nas rodas da vida.

Ivan Milanez era cantor, compositor, percussionista e membro da Velha Guarda do Império Serrano. Mas, mesmo sendo da Velha Guarda e com mais de setenta anos, às vezes ficava meio puto da vida quando eu o chamava de “meu preto velho de plantão” e dizia: “Veja aqui se eu tenho cabelos brancos”, ostentando os dreads tingidos com tabletes de Santo Antônio.

Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Filho de fundadores do Império Serrano, criado na comunidade da Serrinha, Ivan Milanez, quando criança, ajudava sua mãe a produzir as fantasias da escola. Foi aprendendo a tocar e cantar com antigos mestres do samba, como Dona Ivone Lara, Mestre Fuleiro e Mano Décio.

Aos 18 anos, começou a desfilar pela escola. Passou pela ala dos passistas e, com 25 anos, já como músico profissional, entrou para a ala de compositores.

Em 1993, Milanez fez sucesso ao lado de Zeca Pagodinho com a música “Cada um no seu cada um”.

Lançou seu primeiro CD em 2012, com o título Ivan Milanez Maneiro.

Ivan era extrovertido e, às vezes, nos fazia dar muitas risadas com suas histórias de vida. Ele nos deixou no dia 17/07/2019, aos 73 anos, mas cumpriu com louvor sua missão e, como preto velho, continua fazendo plantão em nossos corações.

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O Negro Em Cena

O desfile das escolas de samba de 2026 como altar da memória e resistência das mulheres negras.

 

Os desfiles das escolas de samba, para além do impacto visual que cativa as massas, se configuram como uma tecnologia ancestral de ativação de memória, tanto coletiva quanto individual. Como diz a professora Helena Theodoro, as escolas de samba são terreiros na avenida, pois carregam as filosofias trazidas pelos nossos ancestrais, ao valorizarem o território, produzirem identidades, reproduzirem dinâmicas familiares e de comunidades, e resistirem através da festa e da alegria. A oralidade e a arte de contar histórias sempre foi um recurso utilizado por povos africanos como forma de transmissão de saberes, ideias e valores.

Dessa forma, através de enredos, sambas, alas, fantasias, alegorias, adereços e de seus componentes, as escolas de samba educam não só as comunidades, mas a todos aos que assistem os desfiles. Ao desfilar, a comunidade não apenas celebra; ela constrói um suporte físico e espiritual para a preservação de sua própria identidade. O ato de ocupar a avenida é, portanto, um exercício de reconstrução memorialística que devolve ao negro a autoria de sua narrativa. Como bem sinaliza a missão da nossa revista, trata-se de informar e preservar histórias e personagens, garantindo que as pessoas negras se vejam, finalmente, como o protagonista absoluto de sua trajetória.

Dra: Helena Theodoro e Iara Brandão Ferreira.

Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

O Negro Em Cena

Nesse ano de 2026, algumas escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo contaram com maestria o legado de mulheres negras que, em muitos contextos, foram silenciadas e sofreram diversas tentativas de apagamento do que muitos chamam de “história oficial” e das grandes mídias.

No Rio, a Unidos da Tijuca escolheu como enredo “Carolina Maria de Jesus”, dedicando seu desfile à escritora que transformou a fome, a favela e o cotidiano da exclusão em literatura. Nascida em 1914, no interior de Minas Gerais, filha de ex-escravizados e criada em extrema pobreza. Mesmo tendo estudado apenas por 2 anos e criado os filhos na favela do Canindé em São Paulo, trabalhando como catadora de papel, Carolina se tornou uma leitora e escritora autodidata. Ela registrava, em cadernos recolhidos do lixo, o cotidiano da fome e da exclusão social, escritos que deram origem à obra Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada. Escritos estes descobertos por um jornalista nos anos 1950, que levou a publicar o livro em 1960, hoje traduzido para diversos idiomas. Apesar de ter lançado outras obras — como Casa de Alvenaria, Pedaços de Fome e Provérbios —, nenhuma repercutiu tanto quanto o primeiro livro.

Carolina morreu em 1977 e sua trajetória sintetiza a potência intelectual da mulher negra que transforma a própria sobrevivência em documento histórico e literatura de resistência.

Carolina Maria de Jesus fotos: Divulgação

O Negro Em Cena

Ao levar para a Marquês de Sapucaí a autora de Quarto de Despejo, a Tijuca realizou um gesto de enorme simbolismo: colocou no centro do espetáculo midiático uma mulher negra que escreveu a partir do lixo, da margem — e fez disso arquivo de memória. O que se viu foi a avenida convertida em página, o samba convertido em escrevivência, como proposto por Conceição Evaristo.

Falando em dona Conceição, a escritora, poetisa e professora, vinda de uma família pobre, que trabalhou como empregada doméstica antes de concluir os estudos e ser doutora em Literatura Comparada. Publicou romances, contos e poesias que abordam temas como racismo, desigualdade social, ancestralidade e resistência feminina, sendo Ponciá Vicêncio, Olhos d’Água e Macabéa: Flor de Mulungu algumas de suas obras mais conhecidas. Ao longo da carreira, recebeu diversos prêmios e, em 2024, foi eleita para a Academia Mineira de Letras. É a maior literata negra da atualidade e vem recebendo muitas homenagens. Uma delas ocorreu no carnaval, na Série Ouro, por uma das escolas de samba mais tradicionais da cidade maravilhosa, a Império Serrano. Escola herdeira de uma tradição que consagrou nomes como Dona Ivone Lara — primeira mulher a assinar um samba-enredo em uma grande escola — a Império Serrano entende que exaltar mulheres negras não é tendência, é fundamento.

Conceição Evaristo, Mestre Sala e Porta Bandeira da Império Serrano Dona Leci Brandão e Flavia Oliveira

Fotos: Ierê Ferreira

Com o enredo, intitulado “Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu”, a escola conquistou o vice-campeonato, levando para a avenida um desfile inspirado nas escrevivências da autora, termo criado por ela para descrever a escrita que surge das vivências pessoais e coletivas de mulheres negras. Para Conceição Evaristo, escrever é um ato político e de afirmação identitária, no qual a vida se mistura com a palavra, passando a ser uma forma de resistência e transformação social.

Outra homenageada no carnaval carioca este ano foi a cantora, compositora e deputada Leci Brandão. Leci teve a sua vida contada pela Unidos de Bangu, escola que assim como a Império Serrano, desfilou na Série Ouro, através do enredo “As coisas que mamãe me ensinou". Carioca, nascida em 1944 , começou a sua carreira na música na década de 1970, se dedicando até hoje ao samba. Ela foi a primeira mulher a integrar a ala de compositores da Escola de Samba carioca Mangueira. Dentro do campo das artes, também trabalhou como atriz em algumas produções, como a telenovela Xica da Silva, da TV Manchete. Na televisão, também trabalhou como comentarista dos desfiles das Escolas de Samba, para a rede Globo. A escola exaltou na avenida não só o legado musical de Leci, mas a sua atuação na esfera política, sobretudo no que concerne a defesa da igualdade racial, o respeito às religiões de matriz africana e os direitos da comunidade LGBTQIA+. Exaltar Leci é exaltar o samba em sua plenitude, coisa que a Unidos de Bangu fez com maestria.

Mestre Sala e Porta Bandeira da Unidos de Bangu com Dona Leci Brandão.

Fotos: Ierê Ferreira

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Em São Paulo, tivemos exemplos igualmente potentes. A Mocidade Unida da Mooca repetiu o feito de 2024, quando homenageou a professora Helena Theodoro com o enredo Oyá Helena, e estreou no Grupo Especial com o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, uma homenagem ao Geledés – Instituto da Mulher Negra. O instituto foi fundado em 1988, por Sueli Carneiro (filósofa, escritora e militante do movimento de mulheres negras). É uma organização da sociedade civil que se posiciona em defesa de mulheres negras, por entender que elas possuem vivências de desvantagens e discriminações no acesso às oportunidades sociais em função do racismo e do sexismo vigentes na sociedade brasileira. A Unida da Mooca, ao homenagear o instituto que invoca o termo iorubá que remete ao poder ancestral feminino, conectou a luta contemporânea por direitos à tradição africana que reconhece nas mulheres a força organizadora do mundo. Não era apenas um desfile; era uma aula pública sobre feminismo negro, ancestralidade e política institucional.A Mocidade Alegre, ganhadora do grupo especial do carnaval paulistano de 2026,  transformou seu desfile em uma poderosa celebração do protagonismo das mulheres negras ao levar para a avenida o enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”, uma homenagem à atriz Léa Garcia, que morreu em 2023 aos 90 anos, e foi uma das mais marcantes e pioneiras representantes da negritude nas artes brasileiras.

Foto: Ierê Ferreira e Divulgação

Léa Garcia olhando a vista do Morro do Vidigal Foto Ierê Ferreira

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Nascida em 1933, começou sua trajetória como atriz no Teatro Experimental do Negro (companhia de teatro criada por Abdias Nascimento), e estreou no espetáculo Rapsódia Negra do próprio Abdias, peça que é referência no título do enredo. No cinema, tornou-se referência internacional com Orfeu Negro (1957), obra vencedora do Oscar e do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 1960 e da Palma de Ouro, no festival de Cannes, pelo qual Léa recebeu indicação como melhor atriz. Além disso, foi muitas vezes premiada e ovacionada no Festival de Cinema de Gramado. Na televisão, foi inesquecível em dezenas de papéis. Ao destacar a trajetória de Garcia — cujo trabalho quebrou padrões e abriu caminhos para tantas outras artistas negras em cinema, teatro e televisão — a escola paulistana não apenas enalteceu sua obra, mas também reafirmou que a luta por reconhecimento e igualdade atravessa gerações. O que conecta todos esses enredos é algo maior do que homenagem, é a construção de uma identidade coletiva. Em um país onde o racismo operou historicamente pelo genocídio e pelo epistemicídio, esses desfiles se consolidam como uma tecnologia ancestral de memória. A avenida se torna o suporte físico e espiritual onde o corpo negro escreve “a história que a História não conta”, como bem afirma o samba da Mangueira em 2019. Ao homenagear mulheres negras, as escolas de samba não estão apenas corrigindo lacunas históricas; estão redefinindo o imaginário brasileiro. Estão dizendo que a mulher negra não é apenas vítima da escravidão ou da pobreza, é intelectual, estrategista, artista, líder política, sacerdotisa, educadora e tudo aquilo que ela quiser ser.

Ao escrever essas trajetórias na avenida, as escolas reafirmam que a mulher negra não esteve apenas nos bastidores da cultura nacional, mas foram e merecem ser reconhecidas como protagonistas. Quando Unidos da Tijuca canta Carolina Maria de Jesus, a Unida da Mooca invoca o Geledés, a Mocidade Alegre reverencia Léa Garcia, a Unidos de Bangu exalta Leci Brandão e a Império Serrano reafirma a importância de Conceição Evaristo, o que se vê é um país sendo reescrito em tempo real. Histórias que por décadas foram esquecidas tornam-se canto coletivo. Isso não é apenas Carnaval. É um ritual de reconstrução da história nacional.

 

POR: IARA BRANDÃO FERREIRA Doutoranda em Comunicação Social (PPGCOM/UFF) e em Filosofia (PPGF/ IFCS-UFRJ), mestra em Relações Étnico-Raciais (PPRER/CEFET-RJ) e graduada em História (UNIRIO).

As atrizes Zezé Motta, Sheron Menezzes e Léa Garcia.

O Cineasta Cubano Rigoberto Lopez, Léa, Eu e a cineasta Viviane Ferreira

As Atrizes Rut de Souza, Léa Garcia e Maria Ceiça com o cineasta Joel Zito Araújo

Fotos: Ierê Ferreira

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As soprosas criações do Maestro Paulo Moura

Texto e foto: Ierê Ferreira

 

Desde a infância eu ouvia meu pai escutando chorinhos de Pixinguinha, Altamiro Carrilho e Paulo Moura. O gosto musical dele era bem apurado e, na vitrola, também havia o Mestre Jamelão, Ângela Maria, Os Originais do Samba e os discos de vinil das escolas de samba, mas o encantamento pelas soprosas melodias do Maestro Paulo Moura sempre o fazia comentar sobre como gostaria de ter sido músico, como o Maestro que, na época, era vizinho do nosso bairro — nós morávamos em Olaria e ele em Ramos. Anos mais tarde, tive meu primeiro contato ao vivo com o Maestro Paulo Moura, que, na década de 1990, era produtor musical nas peças do TUERJ, grupo de teatro social da UERJ - Universidade Estadual do Rio de Janeiro. O segundo, foi durante as minhas andanças fotográficas pelo carnaval e tive o prazer de registrar o bloco De Mis a Mis, que saía do Museu da Imagem e do Som, na Praça XV, até a sede da Lapa, também liderado por ele. Já nos anos 2000, fotografei um show do Maestro no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico.

Escrevo estas linhas com saudade do meu pai porque recentemente assisti a um documentário lindo chamado Paulo Moura 1978, filmado no Morro da Mangueira, dirigido por Paulo Roberto Martins e produzido por Flávio Tambellini.

Nele, o saxofonista, clarinetista, maestro e arranjador Paulo Moura fala sobre música, sobre sua vida e apresenta alguns arranjos de clarineta em uma roda de sambistas. Em uma de suas falas, o maestro faz uma breve análise dos movimentos musicais em suas pesquisas:

“A evolução natural do samba teve seu ponto culminante na primeira fase da carreira de Jorge Ben. Depois dele, só os saudosistas e conservadores continuaram a fazer samba. Toda novidade é resultado da fusão de gêneros ou estilos musicais. É o caso da música de Milton Nascimento, que acrescenta às suas raízes mineiras e africanas toda informação possível a um músico popular do Ocidente. Para alguns críticos, um músico refinado é considerado americanizado; um exemplo é Egberto Gismonti, que, pela sua sensibilidade, não pode estar alheio ao que acontece no resto do mundo. Hermeto Pascoal é um caso à parte, porque consegue fazer música de vanguarda sem nem mesmo ter ouvido falar nos grandes compositores da atualidade. Ele próprio percorreu a trajetória da música nordestina, trazendo-a em estado bruto das feiras populares até um nível de elaboração aceito nos grandes centros urbanos. Minha primeira tentativa de realizar uma façanha foi solar Moto Perpétuo, de Paganini, na clarineta.”

O Negro Em Cena

Sua fala traz uma lúcida demonstração do conhecimento e domínio musical. O Maestro Paulo Moura foi um homem negro de uma família exemplar e destacou a nobreza da raiz africana nas músicas que compôs e arranjou. Uma raiz que queria dialogar com o solo para onde foi transplantada, mesmo tendo sido colonizada brutalmente na maioria das vezes. Para ele, o som dos negros não poderia ser apenas entendido como um batuque obediente que divertia ou alegrava a melancolia da elite branca, pois o som africano sempre teve voz própria.

Amarilho Ferreira meu saudoso pai  e o Maestro Paulo Moura Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Em Consertão, um projeto colaborativo de gigantes da música brasileira — Elomar, Arthur M. Lima, Paulo Moura e Heraldo Monte — unem-se para criar e trazer à cena musical uma obra que transita entre o regionalismo e a sofisticação sonora. O álbum é uma verdadeira mistura de ritmos e estilos, onde o violão e as cordas ganham destaque ao lado das soprosas criações de Paulo Moura e da afinação de Heraldo Monte. Juntos, eles criam uma sonoridade que une o sertão nordestino e a tradição da música erudita, deixando como legado um cenário auditivo ao mesmo tempo familiar e inovador.

O disco explora com maestria o encontro de dois mundos: a sonoridade forte, crua e profunda de Elomar e Arthur M. Lima, representando a alma do sertão, e os toques mais eruditos e elaborados trazidos por Moura e Monte, que enriquecem a música com uma grandeza complexa e profunda. Consertão não é apenas um álbum de fusões; é um manifesto sonoro que fala da brasilidade em toda sua diversidade, celebrando a riqueza cultural e as influências que formam a identidade musical do país. Com arranjos de beleza rara e letras que evocam tanto a simplicidade do campo quanto a complexidade da vida humana, o disco é um convite para um mergulho profundo na alma da música brasileira e foi lançado pela editora Kuarup em 1982.

Fazer essa pesquisa e poder apresentar aqui um pouco do perfil deste baobá gigante da MPB (Música Preta Brasileira), em homenagem ao meu saudoso pai, foi uma honra. Obrigado pela inspiração, Maestro Paulo Moura.

Fotos: Ierê Ferreira

Fonte: https://www.institutopaulomoura.com.br/sec_notas_list.php%3Fid=326.html

 

Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

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