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Revista O Negro Em Cena

Manifesto:

Pelas Mulheres Que Entregaram Suas Vidas ao Patriarcado Por Nós
 

Patrick Hernandes Anastácio

“Nunca Deixe de Lembrar”
 

Cláudio Jorge

Kota, A Cor da Pele
 

Antônio Pitanga

Um Menino do Pelourinho

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EDITORIAL

Apesar da extrema direita avançar pela força, sem moral, sem respeito e tentando impor suas pautas conservadoras e estúpidas a muitas nações, a luta do povo negro se mantém firme e indissolúvel em muitas frentes, e é na cultura que enxergamos a barreira resistente que formamos diante dos ataques constantes e da ganância dos poderosos senhores das guerras.

 

E é neste cenário que a nossa revista tem trazido aos nossos leitores histórias consolidadas de grandes personagens que representam a força, fé e a sabedoria ancestral trazidas nos Tumbeiros da escravização.

Nesta edição Manifesto:

Pelas mulheres que entregaram suas vidas ao patriarcado por nós.

Temos também o jovem artista Patrick Hernandes Anastácio afirmando em suas obras toda a força da frase  “Nunca deixe de lembrar”.

 

O cantor, compositor, arranjador e instrumentista Cláudio Jorge com o disco recém lançado e intitulado “Kota, A Cor da Pele”.

 

Antônio Pitanga

Uma alma, uma matéria, um menino do Pelourinho, um capoeira, um guerreiro, uma estrela, um caminho.

 

Tudo isso é legado, consciência e tecnologia ancestral

Equipe editorial:

Editor e fotógrafo: Ierê Ferreira

Colunista e revisora: Sylvia Arcuri

Colunista Iara Brandão Ferreira

Consultor Editorial: Augusto Lima

Produtora: Daniele da Silva Araújo

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Manifesto:

Pelas Mulheres Que Entregaram Suas Vidas ao Patriarcado Por Nós.

 

A situação das mulheres no Brasil do século XXI precisa ser analisada com lentes de proteção, reestruturação e respeito.

 

A violência de gênero é uma chaga aberta desde a colonização, pois há relatos de que os povos indígenas que habitavam estas terras não maltratavam as mulheres.

 

Por isso, acredito que nós, homens — que também somos filhos, netos e bisnetos de mulheres que entregaram suas vidas ao patriarcado por nós, pelas nossas existências e para que pudéssemos crescer e nos tornar pais de outras mulheres e homens — devemos descolonizar nossos pensamentos e repensar nossas atitudes. As atitudes de homens sem argumentos, mas cheios de razão; frágeis nas ideias, que brutalmente gritam, xingam, ofendem, espancam e matam uma companheira, uma mãe, nunca podem ser normalizadas.

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O Negro Em Cena

Patrick Hernandes Anastacio

“Nunca Deixe de Lembrar”

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atrick Hernandes Anastácio é um artista visual cria de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, cuja prática pulsa na intersecção entre o desenho, o design e a criação de vestuários e figurinos autorais. Com uma sólida vivência no asfalto e background técnico em processos gráficos, ele utiliza a rua como seu principal ateliê e espaço de diálogo com o povo. Desde 2019, atua de forma independente em feiras e circuitos culturais, tendo estabelecido seu ponto de convergência criativa e ativismo no Largo da Prainha, território histórico da Pequena África carioca.

Sua obra é uma manifestação de arte preta e periférica que tensiona a realidade social através de manifestos visuais, críticas e homenagens históricas. Patrick desenvolve um trabalho minucioso com técnicas manuais sobre papel e tecido, trazendo para a superfície temas que vão da ancestralidade — inspirada em ícones como Yusuke e Exu — às urgências ambientais, territoriais e políticas da sua vivência.

O processo criativo de Patrick é guiado pela ação concreta e pela preservação da memória, reflexo de suas buscas internas e vivências. Ele sintetiza sua ética de trabalho e de resistência em duas marcas fortes:

“Eu durmo com muitas ideias e busco acordar com atitudes” – O lema que move sua produção diária e sua postura autoral e independente nas ruas.

Titulo da obra: Nefertiti e Nasce o Heroico Black Jesus

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O ano de 2020 trouxe grandes desafios, mas também foco. Durante o isolamento, Patrick se dedicou diariamente a aprimorar seus desenhos, transformando sua paixão em um trabalho autoral, independente e consistente.

“Nunca deixe de lembrar” – Frase adotada pelo artista pelo seu profundo peso político de confronto ao esquecimento e apagamento histórico. Patrick assina e carimba o verso de cada obra que entrega ao público com essa promessa.

Titulo das obras: Juliano Moreira, Musica negra brasileira - Elza Soares, Exu - Saudação, Azedos, Crocancias, Solidão no Puerperio, Aquela paz - Flamboyant,

O Negro Em Cena

Kota, A Cor da Pele.

O compositor, violonista, arranjador e cantor Cláudio Jorge de Barros nasceu no bairro Boca do Mato, no Rio de Janeiro e é filho do jornalista e compositor Everaldo de Barros.

Nosso personagem é mais conhecido como Cláudio Jorge e ele chega aos 76 anos com muito para comemorar, lançando mais um disco cheio de responsabilidade, crítica social e racial, muito amor, belas melodias e poesias inspiradoras.

O disco se chama “Kota, A Cor da Pele”. O próprio me enviou a ficha técnica do novo disco e, como sempre, está muito bem acompanhado. Na percussão Marcelinho Moreira, André Siqueira, no contrabaixo Ivan Machado; flautas e arranjos de flautas PC Castilho e Humberto Araújo; violão de 7 cordas Carlinhos 7 Cordas, violino Pedro Franco; teclado Luiz Otávio; trompete Diogo Gomes e o nosso Cláudio Jorge nas vozes, guitarras e violões.

Na produção artística: Cláudio Jorge; gravação e mixagem: Lourival Franco; masterização Carlos Mills; designer da capa: Oliveira & Naccarato – d’après e Rubem Valentim.

O disco foi gravado no Estúdio Vale da Tijuca entre junho de 2025 e janeiro de 2026.

Como apresentar um trabalho tão forte e potente desses e não  querer saber mais do seu criador um gigante na arte da MPB “MÚSICA PRETA BRASILEIRA”?

O Mestre Cláudio Jorge

Fotos: Ierê Ferreira

O Mestre Cláudio Jorge, como eu acredito que ele deve ser chamado, tem uma trajetória linda e aqui vamos contar um pouco do caminho percorrido por ele, respeitando uma linha temporal cronológica de criação de sua obra.

 

1975: o músico conheceu Cartola, apresentado por João Nogueira. Neste mesmo ano, João Nogueira no LP “Vem quem tem”, gravou “Chorando pelos dedos”, “Samba da bandola” e “Pra fugir nunca mais”, três canções em parceria de ambos.

 

1977: compôs com Cartola a valsa “Fundo de quintal”, que anos mais tarde foi letrada por Hermínio Bello de Carvalho. Neste mesmo ano, Emílio Santiago interpretou “Descarrego” (João Nogueira). Ainda em 1977, no LP “Espelho”, João Nogueira interpretou “Pimenta no vatapá”, também parceria de ambos.

 

1978: durante uma temporada do Projeto Pixinguinha em Salvador, compôs com Cartola uma música cuja letra foi depois escrita pelo parceiro em um papel de cigarros e deixada sob sua porta no hotel onde ambos estavam hospedados. Tratava-se de “Dê-me graças, senhora”, incluída no quarto LP de Cartola. Neste mesmo ano, João Nogueira, no LP “Vida boêmia”, incluiu “Amor de fato”, mais uma parceria.

Kiko Horta, Cláudio Jorge e Ivan Machado

Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Nei Lopes, Luiz Carlos da Vila, Cláudio Jore e Arlindo Cruz

Foto: Ierê Ferreira

1982: participou do “Festival Horizonte 82” realizado em Berlim, integrando as bandas de Sivuca e Elba Ramalho. No ano seguinte, Roberto Ribeiro gravou “Tia Eulália na Xiba” (com Nei Lopes). Neste mesmo ano, com Joel Nascimento e Sebastião Tapajós, participou de uma excursão a Viena, Salzburg e mais 22 cidades da Alemanha, período no qual foi gravado um LP ao vivo pelo selo alemão Tropical Music.

 

1984: Roberto Ribeiro interpretou “Maculelê do tamanduá” (Nei Lopes). No ano seguinte, Roberto Ribeiro, no LP “Corrente de aço”, gravou “Coco sacudido”, em parceria com Nei Lopes. Ainda em 1985 Alcione interpretou “Ixé, maninha” (Nei Lopes).

 

1988: no carnaval, desfilou na Marquês de Sapucaí, na Unidos de Vila Isabel, acompanhando ao violão o samba campeão daquele ano, “Kizomba, Festa da Raça". Também participou do “Festival de Jazz de Montreux”, atuando na banda de Martinho da Vila. No ano seguinte, Leci Brandão, no LP “As coisas que mamãe me ensinou”, interpretou, de sua autoria, “Iguaizinhos, não”, em parceria com Nei Lopes. Nesse mesmo ano, fez as músicas com Nei Lopes, para o teatro de revista “Oh, que Delícia de Negras!”, de autoria de Nei Lopes e que ficou em cartaz durante alguns meses no Teatro Rival, no Rio de Janeiro.

Cláudio Jorge, Moacir Luz e Martinho da Vila

Foto: Ierê Ferreira

1990: excursionou pelo Japão acompanhando Johnny Alf, Dóris Monteiro e Mestre Marçal. No ano seguinte, participou da excursão com Martinho da Vila aos Estados Unidos e Angola. participou do “Free Jazz Festival" como músico integrante da Banda Banzai, de Luizão Maia, e gravou duas faixas no CD “Brasileiro”, de Sérgio Mendes, premiado com o Grammy.

1993: fez parte do Grupo Batacotô. Com esse grupo, gravou dois discos e neles algumas composições suas, como “Congada de São Benedito” e “Esse negro não se enxerga”, ambas em parceria com Nei Lopes. Ainda fazendo parte do grupo, viajou em turnê pela América Latina e Estados Unidos, apresentando-se no Festival de Santa Monica, em Los Angeles, O grupo foi apontado pela revista Billboard como o melhor lançamento latino naquele ano nos EUA e conquistou dois prêmios Sharp no Brasil e no ano seguinte, ainda integrando o grupo Batacotô, fez participação especial no CD “Aquarela do Brasil”, de Dionne Warwick, produzido por Téo Lima.

 

1996: Aldir Blanc, seu parceiro em “Lua sobre sangue”, gravou a composição no CD “50 Anos”. Também esteve na África com Martinho da Vila se apresentando em Angola.

1997: a BMG Ariola lançou o CD “Os grandes mestres da MPB – Cartola”, no qual foi incluída “Dê-me graças, senhora”.

1998 a 2000: atuou em shows, nos festivais de Montreux e Tubingen em Lisboa e Paris com Martinho da Vila, Gilberto Gil e Naná Vasconcelos. No final do ano 2000, seu parceiro Nei Lopes lançou o disco “De letra & música”. Neste CD, Alcione e Dona Ivone Lara interpretaram “Senhora da canção” (de Cláudio Jorge e Nei Lopes).

2001: com Paulinho Albuquerque, Marcelino Moreira e Wanderson Martins, fundou o selo Carioca Discos. Por esse selo, lançou o segundo disco “Coisa de chefe”. O CD ainda contou com a participação especial de Wilson das Neves em “E o vento levou”, parceria de ambos; Luiz Carlos da Vila em “Princípio do infinito”, (Luiz Carlos da Vila); Nei Lopes e Coreto Urbano em “Coco sacudido”, parceria com Nei Lopes e ainda, a participação do grupo Toque de Prima na faixa “Panela na pia”, parceria com Jamil Joanes. Nesse mesmo ano, produziu o disco “Samba vadio”, do cantor e compositor Agrião, para a gravadora Universal. Ainda neste ano apresentou-se no “Festival Cubadisco”, festival de música em Havana – Cuba, divulgando seu CD “Coisa de chefe”, e excursionou em Portugal integrando a banda de Martinho da Vila.

Cláudio Jorge e Wilson das Neves

Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Cláudio Jorge, Rubéns Confete, Preto Joia, Dr: Bigu, Nei Lopes, Zé Luiz do Império e Wilson Moreira

Fotos: Ierê Ferreira

2006: com Luiz Carlos da Vila, lançou pelo Selo Rádio MEC o CD “Matrizes”, disco no qual interpretaram composições próprias e de outros autores.

2010: lançou, pela gravadora Biscoito Fino, o CD “Amigo de Fé”.

2016: fez o show de lançamento do CD “Ismael Silva: uma escola de samba”, no Teatro Rival BR, no Rio de Janeiro. Disco feito em parceria com o cantor Augusto Martins.

2019: lançou o “Samba Jazz, de Raiz – Cláudio Jorge 70” pelo selo Mills Records, além disso, fez lançamento do CD em show no Teatro Rival Br, no qual contou com a participação especial da cantora Bia Aparecida.

2020: seu disco “Samba Jazz, de Raiz – Cláudio Jorge 70” foi o ganhador do prêmio “Grammy Latino” na categoria “Melhor Álbum de Samba/Pagode”. 2023: lançou, em parceria com Guinga, o CD “Farinha do mesmo saco”.

2024: montou com o violonista Guinga e o professor Rafael Mattoso o espetáculo “Nossa Alma Suburbana”, apresentado no Circuito SESC Rio de Janeiro.

2026: lançou, pela gravadora Mills Records, o single “O Tom do Vinícius”, composição em parceria com Joyce Moreno, feita em homenagem ao jogador Vinícius Júnior.

Claudio Jorge trilhou sua carreira sempre ao lado de nomes consagrados da MPB, como, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Cartola e Clementina de Jesus, João Nogueira, Aldir Blanc, Leci Brandão, grupo Toque de Prima, Emílio Santiago, Elymar Santos, Nei Lopes, Hermínio Bello de Carvalho, Ivan Wrigg, Ivor Lancellotti, Angela Maria, Joana, Elson do Forrogode, Alaíde Costa, Zeca Pagodinho, Elza Soares, Roberto Ribeiro, Zezé Motta, Jorge Aragão, Martinho da Vila, Joel Nascimento, Sivuca, Luiz Carlos da Vila, Wilson Das Neves, Arranco de Varsóvia e muitos outros bambas.

Entre seus trabalhos como produtor e arranjador constam os discos “A Luz do vencedor”, no qual o compositor Luiz Carlos da Vila interpreta composições de Candeia e “Sincopando o breque”, de Nei Lopes, apontado entre os cinco melhores discos de 1999 pelo jornal O Globo.

O single “Tom do Vinícius” integra o álbum “KOTA, A Cor da Pele”, lançado recentemente no palco do Centro de Referência da Música Carioca Arthur da Távola, e já está em todas as plataformas de música.

E como havia dito no início deste artigo, o novo disco é cheio de responsabilidade, crítica social e racial, muito amor, belas melodias e poesias inspiradoras.

Por: Ierê Ferreira

Fonte: https://dicionariompb.com.br/artista/claudio-jorge/

A companheira Renata Ahrendts e Cláudio Jorge

Foto: Ierê Ferreira

Algumas das capas dos discos

O Negro Em Cena

 

Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

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