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22º edição do Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras

Por: Jorge Ferreira

 

Uma história de saudade.

Seu nome é Écio Salles

 

Conexões Urbanas: Uma revolução cultural nas favelas

“O artista tem que ir onde o povo está.”

 

Da Taquara à Salamanca

Por: Ierê Ferreira

 

Exposição: Do Cais à Serrinha, da Serrinha ao Samba

Anderson Sá, um dos vocalistas da Banda Afroreggae

Foto: Ierê Ferreira

Editorial:

É fim de inverno e o maior El Niño de todos os tempos chegou com ventos de mais de 100 quilômetros por hora no Sul e Sudeste do Brasil, acompanhado de extremo calor e incêndios devastadores nas matas ao redor do mundo. Sem contar que esse fenômeno, causado pelo aquecimento global e agravado pelas guerras insensatas, trouxe terremotos e destruição a diversos países.

​Os senhores da guerra continuam acumulando milhões de dólares, enquanto milhões de mortos e deslocados se somam às estatísticas da barbárie. Diante de tantos absurdos, seguimos construindo nossas memórias, na esperança de que, em num futuro próximo, a justiça prevaleça e que a educação e a cultura vençam essas batalhas.

Foto: Reinaldo Hinge

O Negro Em Cena

Na 12ª edição da nossa revista, a cultura musical se faz presente com a 22ª edição do Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras, que neste ano prestou uma grande homenagem ao maior guitarrista de todos os tempos, Jimi Hendrix, nos mágicos acordes de outro gigante da guitarra, Stanley Jordan.

Artigo escrito pelo fotógrafo

Jorge Ferreira.

 

Trazemos também uma história de saudade: a lembrança de um grande ativista da cultura, poeta, escritor e operário das conexões literárias. Seu nome é Écio Salles.

 

Conexões Urbanas: uma revolução cultural nas favelas

“O artista tem que ir onde o povo está.” 

 

E, por fim, vamos conhecer melhor o fotógrafo Carlos Alberto da Silva Júnior, que levará seu belíssimo trabalho intitulado Orixá – Um Sopro de Vida, da Taquara à Universidade de Salamanca, na Espanha. Por: Ierê Ferreira

 

Exposição: Do Cais à Serrinha, da Serrinha ao Samba

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Equipe editorial:

Editor e fotógrafo: Ierê Ferreira

Colunista e revisora: Sylvia Arcuri

Colunista: Iara Brandão Ferreira

Consultor Editorial: Augusto Lima

Produtora: Daniele da Silva Araújo

Essa revista é para você!

 

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22ª edição do Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras.

Por: Jorge Ferreira

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No festival aconteceu uma homenagem que deixou o público estatelado e emocionado. O protagonista foi James Marshall Hendrix, ou simplesmente Jimi Hendrix — o maior guitarrista de todos os tempos!

Essa merecidíssima homenagem foi conduzida por um dos maiores guitarristas da atualidade, o americano Stanley Jordan, que presenteou o público com o espetáculo especial “Stanley Jordan Plays Jimi”.

Ele esteve acompanhado por Duda Lima, magistral baixista, e Leandro Scio, grandioso baterista, numa releitura intimista e ao mesmo tempo vibrante e criativa das canções de Hendrix. Misturando blues, rock e jazz fusion, Stanley utilizou inclusive sua famosa touch technique, marca registrada de sua carreira.

Nascido em Chicago, em 31 de maio de 1959, Stanley Jordan é guitarrista e pianista de jazz/fusion, considerado um dos músicos que mais contribuíram técnica e musicalmente para o instrumento. Bacharel em composição de música digital pela Universidade de Princeton, iniciou sua trajetória aos 6 anos no piano e, aos 11, passou para a guitarra, sem abandonar o piano como ferramenta de composição.

Em 1976, recebeu um prêmio no Reno Jazz Festival, em Nevada, o que abriu portas para apresentações em diversos festivais, como o Cool Jazz Festival (1984), o Concord Jazz Festival (1985) e o lendário Montreux Jazz Festival (1985). 

Durante os anos 1980, tocou ao lado de grandes nomes como Quincy Jones, Michal Urbaniak e Richie Cole.

No Rio de Janeiro, sua história também é marcante. Em 1986, realizou um concerto histórico no Parque da Catacumba, na Lagoa, para cerca de 12 mil pessoas. Eu, fotógrafo que vos fala, ainda muito jovem, estava lá. O virtuosismo de Stanley Jordan, sua técnica aliada a uma sensibilidade absurda, deixou todos incrédulos. O impacto foi tão grande que o projeto “Jazz na Catacumba” precisou ser interrompido por falta de infraestrutura.

A carreira de Jordan é tão singular quanto sua técnica. Apesar de formado em teoria musical e composição, escolheu viver a experiência como músico de rua em Nova York e outras cidades americanas. 

Essa decisão o levou a ser descoberto por Bruce Lundvall, da Blue Note Records. Seu álbum Magic Touch (1985) ficou em primeiro lugar na lista de jazz da revista Billboard por 51 semanas, rendeu duas indicações ao Grammy e conquistou disco de ouro nos EUA e Japão.

Entre suas interpretações memoráveis estão Round Midnight, clássico do jazz, e Eleanor Rigby, dos Beatles, que se tornaram parte essencial de seu repertório mundial.

Fotografar Stanley Jordan no 22º Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, junto a uma equipe extremamente profissional, foi como reviver a energia do lendário trio The Jimi Hendrix Experience. A guitarra de Hendrix, que se transformou em arma contra o sistema e contra a guerra do Vietnã, ecoou novamente através da releitura de Stanley Jordan — um momento histórico e inesquecível.

Fotos: Jorge Ferreira

O Negro Em Cena

Uma história de saudade.

Seu nome é Écio Salles

Texto e fotos: Ierê Ferreira

 

Como escrever sobre a saudade de um grande amigo, cujo primeiro contato foi uma cortada numa partida de voleibol encarada como agressão? Um momento de lazer que terminou em discussão, mas que logo foi contornado e transformado em uma amizade gigante.

Hoje, restam a saudade e a memória de uma forte parceria que produziu história e abriu caminhos, conduzindo-nos às letras de canções e à poesia. Conexões de reggae, MPB, rock, rap e soul. Nossa amizade foi música, foi festa, além de construções políticas e culturais.

Dos acampamentos na Praia do Meio, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a instituições como AfroReggae, CUFA e FLUP — esta última criada pelo personagem desta história de saudade.

Seu nome é Écio Salles: um importante poeta, escritor, gestor público, produtor cultural e, para mim, um irmão. Ele foi um dos criadores da Festa Literária das Periferias (FLUP) e dedicou sua vida e carreira a democratizar o acesso à literatura, dando visibilidade à produção cultural das favelas e periferias do Rio de Janeiro.

Antes disso, porém, quando ainda cursava a faculdade de Letras na UERJ, Écio criou um veículo em Olaria: o jornal Aqui!. Foi nesse espaço que publiquei algumas fotos e ajudei a dar identidade ao zine. O jornal Aqui! Era o lugar onde a cultura, o comércio e os moradores do nosso bairro ganhavam destaque. Crescemos nas proximidades do Complexo do Alemão, onde dividimos nosso tempo entre bailes, festas, futebol, skate, patins e muita música. Na casa do Écio, e com o consentimento de sua querida mãe, Dona Mariá — que sempre nos acolheu —, nós nos reuníamos com outros amigos para comer, beber, tramar e sonhar com um mundo melhor. Écio transformou sua própria vivência urbana em potência literária. Na década de 1990, ele atuou como um dos coordenadores gerais do Grupo Cultural AfroReggae na favela de Vigário Geral, fortalecendo projetos de inclusão social pela arte e estendendo esse trabalho para outras comunidades. Mais uma vez, estávamos atuando juntos em vários projetos e pela democratização da cultura popular.

Um desses projetos foi o Conexões Urbanas, no qual o Grupo Cultural Afroreggae do qual fazíamos parte levava grandes shows e artistas consagrados para as favelas do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense, com uma megaestrutura de palco, luz, som e muitas horas de festa.Nos anos 2000, Écio criou o selo Tramas Urbanas e lançou obras marcantes como Poesia Revoltada e História e Memória de Vigário Geral, registrando as narrativas dos próprios moradores da periferia. Entre 2009 e 2011, ele também foi secretário de Cultura do município de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.Em 2012, ao lado da sua esposa Daniele Salles e do jornalista Julio Ludemir, criou a FLUP. O evento tornou-se referência nacional e internacional ao levar oficinas, debates e saraus para dentro das comunidades fluminenses, revelando talentos como Geovani Martins, Ana Paula Lisboa, entre muitos outros escritores e escritoras.

Ecio com amigos e colegas de trabalho, no futebol, na 1° FLUP com os alunos da rede publica,  com o Raper MV BILL, Ariano Suassuna, ao lado de Moacir Luz, Luiz Carlos da Vila, Luiz Eduardo Soares, Heloísa Buarque de Hollanda,  João Ubaldo Ribeiro e com a banda O Rappa e membros do Afroreggae. Fotos: Ierê Ferreira

Na foto com os amigos Francisco Carlos, David Faustino, Marcelo Magalhães, Rinaldo Junior e Eu.

No dia 23 de julho de 2019, aos 50 anos, o jovem Écio Salles partiu para morar no Orum, deixando-nos um legado inestimável de amor pelas palavras. Após a sua passagem, a FLUP criou o Prêmio Écio Salles dentro de sua programação anual. Como homenagem póstuma ao seu impacto transformador na cultura carioca, a prefeitura do Rio inaugurou, em 2021, a Biblioteca Écio Salles, localizada no Planetário da Gávea, e sua esposa Daniele Salles criou o Instituto Écio Salles em memória e continuidade do seu legado.Suas histórias sempre serão lembradas nas rodas de conversa daqueles que tiveram o privilégio de sua amizade. Obrigado, irmão. Que os deuses acampem os anjos sempre ao seu redor para lhe festejar e até um dia se assim os Deuses desejarem.

Écio com sua esposa Dane Salles e suas lindas filhas. Fotos: Ierê Ferreira

O Negro Em Cena

Conexões Urbanas: uma revolução cultural nas favelas “O artista tem que ir onde o povo está.”

Texto e Fotos: Ierê Ferreira

O ano era 2001. O Grupo Cultural AfroReggae, em parceria com a CUFA (Central Única das Favelas), o Viva Rio e a Assessoria Especial de Eventos, encerrava mais uma corajosa campanha de desarmamento chamada “Mãe, Desarme Seu Filho”.Depois de passar por várias favelas do Rio, a campanha escolheu o Complexo do Alemão, mais precisamente a Grota, onde havia um entreposto da Comlurb — na prática, um lixão a céu aberto — para realizar o show de encerramento. Foi necessário que a prefeitura, na gestão do prefeito César Maia, solicitasse a retirada de todo o lixo do local. O interesse era também estratégico: ali seria construída uma vila olímpica.Assim que o lixão foi removido, entrou em cena uma megaestrutura de palco, luz e som. Em julho de 2001, o evento aconteceu com aproximadamente quatro mil pessoas, vindas tanto da favela quanto do asfalto, ocupando aquele espaço transformado.Participaram do show a banda AfroReggae, MV Bill, a escola de samba Imperatriz Leopoldinense, Cidade Negra, Gabriel o Pensador e, para fechar a noite, o baile da Furacão 2000 fez todo mundo dançar. 

Durante o ato simbólico no palco, armas como pistolas, revólveres e fuzis — entregues durante a campanha — foram destruídas, assim jamais cairiam em mãos erradas novamente.

Jorge João Silva, o Jorginho da Grota, presidente da associação de moradores, emocionado e em lágrimas, declarou:

“Aqui eu sempre senti cheiro de lixo. Hoje estou sentindo cheiro de gente! Muitos moradores contraíram câncer de pele e doenças respiratórias por causa do lixão. Para mim, isso era um crime pior que o tráfico de drogas!”

Esse grande evento foi o piloto do que viria a seguir: o projeto Conexões Urbanas.

MV Bill, Gabriel O Pensador, Cidade Negra MC Pleyboy e Jorginho da Grota e Banda Afroreggae.

O Negro Em Cena

A ideia era levar às favelas mais conflituosas shows com artistas consagrados da cena musical da época.A primeira favela a receber o projeto foi o Morro da Formiga. A dificuldade, além dos conflitos constantes, era transportar a estrutura até a quadra no alto do morro. Os caminhões não conseguiam subir a ladeira estreita e sinuosa, e foi preciso transferir todo o equipamento para kombis de passageiros. Só assim foi possível realizar o primeiro Conexões Urbanas, que depois passou por Vila Cruzeiro, Complexo da Penha, Canitá, Complexo do Alemão, Vila Vintém, Cidade de Deus, Furquim Mendes, Vigário Geral, Vila Kennedy, Vila Aliança, Conjunto Liberdade em Santa Cruz, Bateau Mouche em Jacarepaguá, Palmeirinha em Honório Gurgel, Campo Belo em Campo Grande, Cocotá na Ilha do Governador, Vila dos Pinheiros no Complexo da Maré e Beira Rio no Jardim América.

A cantora Fernanda Abreu e a Banda Afroreggae

Foram 17 edições entre agosto de 2001 e dezembro de 2002. Em todas, os desafios eram enormes: levar para as favelas em conflito uma estrutura comparável à de um réveillon em Copacabana. Passamos por ruas esburacadas, fios baixos, terrenos desnivelados e muitas vezes alagados. Mas a satisfação de participar daquela revolução cultural era infinitamente maior que as dificuldades.Crianças e adultos aguardavam ansiosos para ver de perto seus ídolos — muitos jamais tinham ido a um show.Em todas as edições, os principais nomes da MPB subiram ao palco do Conexões, sempre em um dos domingos do mês.Artistas como Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Titãs, Gabriel O Pensador, Cidade Negra, Fernanda Abreu, Racionais MCs, O Rappa, Skank, Daniela Mercury, Lulu Santos, Gilberto Gil e Roberto Frejat abriram mão de seus cachês para estar junto ao projeto, pois sabiam da importância de ajudar naquela revolução, realizando o sonho do povo da favela — que também recebia pessoas de outras regiões da cidade e lotava a comunidade, onde muitos empreendedores montavam suas barraquinhas de comidas, bebidas e artesanatos, aproveitando para melhorar a renda da família.

O Negro Em Cena

esse contexto, conheci uma senhora lavadeira que levava para casa sacolas de roupas dos clientes para lavar e passar. Em um desses eventos, ela havia ganhado uma cesta básica da igreja e resolveu trocar tudo por feijão e temperos para preparar um grande panelão de caldo de feijão e vender no evento. Foi assim que essa senhora conseguiu financiar sua primeira máquina de lavar. Essa é só uma das muitas histórias de prosperidade por causa desses eventos.

O Conexões contava também com a participação da equipe de som Big Mix do DJ Marlboro, de MV Bill e da banda AfroReggae.

José Junior, coordenador do GCAR (Grupo Cultural AfroReggae), junto com sua equipe, a CUFA (Central Única Das Favelas), com Celso Athayde e MV Bill e equipe, além da Assessoria Especial de Eventos na figura de Ana Maria Maia e sua equipe, eram os responsáveis por pilotar o projeto.

Participavam também alguns subgrupos do AfroReggae, escolas de samba da região, e os eventos pela manhã eram estimulados pelo grande animador infantil Tio Carlos, que fazia crianças e adolescentes pularem, correrem e dançarem. Havia ainda farta distribuição de doces, brinquedos e medalhas. No início da noite era hora dos shows que só terminavam no início da madrugada para a felicidade geral da comunidade. 

Gostaria de citar aqui todas as pessoas que foram fundamentais para a realização de cada Conexões Urbanas, esse evento revolucionário que marcou uma geração. Mas corro o risco de não ser justo ao esquecer alguém. Por isso, quero deixar registrado o quanto cada pessoa que encontrei nesse projeto foi e sempre será importante para mim. Guardo até hoje cada sorriso, cada aperto de mão e cada abraço que pude registrar nesses caminhos.

Fonte: Livro Da Favela Para o Mundo, de José Junior

O Negro Em Cena

Da Taquara à Salamanca

Por: Ierê Ferreira

 

Carlos Alberto da Silva Júnior, mais conhecido como Carlos Júnior, é fotojornalista e documentarista de 58 anos, com quase 30 anos de experiência profissional. Foi selecionado para uma residência artística na Universidade de Salamanca e levará para a Europa a exposição Orixá – Um Sopro de Vida.Conheço o Carlos Júnior há mais de vinte anos, desde quando trabalhamos juntos na revista Black People. Mesmo após o fim da revista, continuamos trocando informações e possibilidades de trabalhos na nossa área. Nosso compromisso com a cultura afro-brasileira é latente, como vocês podem conferir nesta e em outras edições da nossa revista. Sempre nos encontramos em atividades culturais e coberturas jornalísticas, trocando impressões e ideias nas nossas áreas de atuação — e neste momento não poderia ser diferente.Carlos Júnior, personagem deste artigo, rompeu uma barreira gigantesca ao submeter seu trabalho a uma seleção internacional e ser aprovado entre tantos outros. Isso prova, principalmente para nós artistas visuais e profissionais negros e negras comprometidos com a cultura afrodescendente, que devemos continuar insistindo, mesmo diante das inúmeras dificuldades que enfrentamos.

Fotos: Carlos Júnior

Homem negro, Carlos Júnior já cobriu guerrilhas urbanas, cotidiano, movimentos culturais e religiões de matriz africana, criando projetos importantes para nossa comunidade, como Visões do Morro, que investigava as dificuldades das comunidades por onde passou. Durante a pandemia de Covid-19, esteve em Londres e registrou uma cidade vazia e bucólica, trabalho que resultou no livro Londres em Preto e Branco. Também criou o podcast Foco na Imagem, onde entrevistou fotógrafos e cinegrafistas, revelando a trajetória profissional de muitos de nós.A exposição Orixá – Um Sopro de Vida retrata os cultos das nações Ketu, Angola, Jeje e Efon, e será exibida entre os dias 11 de novembro e 22 de dezembro, na Universidade de Salamanca (USAL), na Espanha.Gostaria de pedir aqui a atenção das instituições governamentais e não governamentais comprometidas com as causas do povo negro, para que deem suporte a esse fotógrafo e ao seu trabalho, que representa resistência e luta contra os preconceitos, em um momento em que pessoas e terreiros de religiões de matriz africana no Brasil estão sendo brutalmente atacados.

Fotos: Carlos Júnior

O Negro Em Cena

O Negro Em Cena

Nós, fotógrafos, cinegrafistas e artistas visuais negros e negras comprometidos com as lutas contra os preconceitos raciais, também somos discriminados e empurrados para a margem. Mas temos consciência da importância do nosso trabalho e de nossos acervos no apoio às verdadeiras narrativas da nossa gente.Por isso, peço apoio a este e a outros trabalhos de grande relevância histórica e cultural.Parabéns, sucesso e AXÉ GRANDÃO, companheiro Carlos Júnior. Que os DEUSES nos iluminem.

Fotos: Carlos Junior

O Negro Em Cena

Boteco BabalotimInaugurado em março de 2023, o Boteco Babalotim está localizado no coração do vilarejo de São Pedro da Serra, distrito de Nova Friburgo.Sob o comando do sambista e cozinheiro Biro e de sua companheira, a produtora cultural Lucia Sá, o espaço — dedicado ao samba, à carne assada e ao futebol na TV — rapidamente conquistou os amantes da cultura popular e da cozinha tradicional dos botequins cariocas.O casal mudou-se para São Pedro da Serra em 2021, levando na bagagem uma vasta experiência na área cultural. Tendo o samba como fio condutor, os inquietos anfitriões transformaram a charmosa casinha da Praça do Coreto em um reconhecido espaço cultural, sempre em diálogo com a culinária, como princípio de convivência.Boteco Babalotim Praça João Heringer, 60 São Pedro da Serra – Nova Friburgo/RJ Tel: 22 999 333 606

 

Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

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