top of page
11509 Nergo Em Cena I.jpg

O Negro Em Cena

11509 Nergo Em Cena I.jpg

MNC_5155_edited.jpg

Foto sobre arte de Helenice Dornelles

MNC_7424 - cópia_edited.jpg

Editorial: Último Estadista do Brasil.

É com muito trabalho e dedicação que chegamos na revista de número 13, um número cabalístico e uma feliz coincidência, pois é o mesmo número do candidato à presidência da República que é o último e o maior estadista que já conhecemos em nosso país.

​

Um nordestino, retirante que virou torneiro mecânico e sindicalista e mesmo com pouco estudo, ganhou em sua primeira diplomação, o título de Presidente da República Federativa do Brasil. Com esse título nas mãos conquistou corações e mentes, mas também um bando de inimigos dos seus projetos, por estes serem a favor da classe mais importante na engrenagem do nosso país, a classe trabalhadora. E foi pensando na classe trabalhadora que o presidente Lula, como é carinhosamente chamado, criou com sua equipe os programas: Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), Pé-de-Meia, Farmácia Popular, Mais Médicos, Desenrola Brasil, Programa de Aquisição de Alimentos, construiu várias Universidades e Institutos Federais que ajudaram milhares de jovens a encontrar um caminho de ascensão na vida. Ele também conseguiu, por duas vezes, tirar o Brasil do mapa da fome. E para além das fronteiras do Brasil, Lula vem se destacando como uma grande liderança contra as guerras que só trazem destruição, pobreza e infelicidade.

Hoje com 80 anos, Lula disputa sua última eleição presidencial e enfrenta a oposição mais cruel de toda a sua vida política.

Lula recebeu o título de Estadista Global do Fórum Econômico Mundial e mantém agendas de destaque em assembleias internacionais, como a participação na ONU.

Por isso tudo , por esta revista, por você e por nós é Lula 13. Que brilhe junto com ele a nossa estrela.

Texto e fotos: Ierê Ferreira

Foto: Reinaldo Hinge

Nesta edição trazemos também:

A bença, Tia Nanci

Por: Angélica Basthi

 

Dez anos de Menino 23

Por: Vitor Dassie

 

África Brasil a 24 quadros

A fotografia de Edinho Alves

 

19° Encontro de Cinema Negro

Brasil, África, Caribe e Outras Diásporas

Zózimo Bulbul.

Texto e fotos : Ierê Ferreira

 

Equipe editorial:

Editor e fotógrafo: Ierê Ferreira

Colunista e revisora: Sylvia Arcuri

Colunista: Iara Brandão Ferreira

Colunista nesta edição: Angélica Basthi e Vitor Dassie

Consultor Editorial: Augusto Lima

Produtora: Daniele da Silva Araújo

Essa revista é para você!

"Era só mais um Silva com a estrela que brilha. Ele é brasileiro, trabalhador e família".

Apoie este trabalho independente pelo

Pix: 12.141.088/0001-40

www.revistaonegroemcena.com.br

O Negro Em Cena

A bença, Tia Nanci

Por: Angélica Basthi

 

Prestes a completar 82 anos, Nanci Rosa refaz o caminho que a levou dos bailes do Renascença Clube à militância das mulheres negras.

Antes de qualquer palavra, ela pede a bença aos mais velhos e às mais velhas, como manda a tradição e também aos mais jovens e às mais jovens. “Através da ancestralidade de vocês eu me fortaleço”, explica.

E é por um salão de baile que ela começa a própria história. Nos anos 1970, Nanci frequentou os grandes bailes do Renascença Clube, no Andaraí, Zona Norte do Rio. Ingressar no clube era uma espécie de ascensão social, e ela não titubeia em dizer que foi ali que construiu a sua negritude. Mas notem: só casais podiam frequentá-lo. Ninguém entrava sozinho, de sandálias ou de bermuda.

A regra tinha razões históricas. O Renascença nasceu em 1951, no Méier, criado por famílias negras de classe média que não eram aceitas nos clubes da cidade. A socióloga Sonia Maria Giacomini, autora de A alma da festa (2006), mostra que a primeira geração apostava na respeitabilidade: a família negra exibida como resposta a quem insistia em descrevê-la como desorganizada.​

Rosane Romão, Rita Dirr, Lia Vieira,

Vilma Piedade  e Nanci Rosa

Fotos do acervo pessoal

“Existiam as famílias nos clubes de branco. Por que o nosso seria diferente?”, pergunta Nanci, que chegou ao Rena em 1970 com o então marido, Araquém. Foi ali, entre concursos de beleza negra e salões de cabelo crespo, que viu despertar “a presença negra da mulher”. “Doía. Nós não tínhamos beleza, a sociedade considerava bonito apenas o cabelo esticado”, recorda.

 

Abrindo as portas

Filha de Dona Vivi, que repetia “tem que estudar para ser gente”, Nanci cresceu em casa de cômodo, a mais velha de três irmãos. A consciência de ser mulher negra veio por volta dos 30 anos, e não de uma vez. Ao acúmulo das noites no Rena somou-se um encontro no Hospital Central do Exército, onde trabalhava: Iraci Braga Reis, mulher negra chamada para chefiar a enfermagem numa instituição comandada por coronéis. “Eu vi a potência dessa mulher e enxerguei um caminho para mim também.” Nanci se formou em Administração e, anos depois, em Direito.

A virada para a militância tem data: 2001. A Conferência Mundial contra o Racismo, em Durban, sacudiu o movimento negro, e Nanci, que acompanhou à distância, entrou para a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. No mesmo ano, o Renascença completava meio século com o salão mais vazio. Foi quando ela decidiu, nas palavras dela, cair de cabeça.

Sou um parágrafo. Clique aqui para adicionar e editar seu próprio texto. É fácil.

Em 2007, voltou ao clube como diretora cultural. Depois, foi vice-presidente e, em 2013, tornou-se sócia benemérita. Sob sua coordenação, o Rena virou plataforma de formação, com projetos como o RenaCine, que segue até hoje. Quando a Rede de Mulheres Negras precisou de um lugar para se organizar, encontrou as portas abertas. “Tia Nanci tá lá”, resume ela. Em toda fala, cita as mulheres através das quais caminha, como Sebastiana Arruda, Néia Daniel e Vanda Ferreira. “Elas são a memória.”

 

Respeitar o ontem

Hoje, Nanci lamenta mais do que celebra. Incomoda-a quem age como se tivesse inventado a roda e ignora quem abriu o caminho. A preocupação maior é com a juventude negra: “Até quando a polícia só mata os nossos?”. A resposta em que aposta é a mesma da mãe: a educação.

Por isso insiste na bença, mesmo quando os jovens respondem com um “oi”. “Olha o axé positivo que está indo pra você”, ensina. Respeitar o ontem, aprender e passar adiante. A bença, Tia Nanci.

Claudia Martins, Mestre Manoel Dionísio e Nanci Rosa

fotos do acervo pessoal

O Negro Em Cena

O Negro Em Cena

Dez anos de Menino 23

Por: Vitor Dassie

 

Há dez anos foi lançado um documentário que colocou em evidência um aspecto até então muito pouco falado da vida social e política brasileira. Dirigido por Belisário Franca, Menino 23 trouxe à discussão antigos projetos, desejos e ações que, com a derrota dos países do Eixo, viraram tabus aparentemente condenados a ficar no esquecimento, apesar de nunca terem sido esquecidos na esfera acadêmica. No entanto, a ideia de supremacia de uma autonomeada raça superior voltou à tona, conduzindo uma grande mobilização social. E voltou de forma escancarada desde alguns anos. Promovido por grupos conservadores em escala mundial, tal fenômeno mostrou que o conteúdo daquilo que parecia relegado ao esquecimento, na verdade era brasa dormida esperando para incendiar. O que tornou evidente a atualidade de muitos destes projetos e especialmente do sentimento racista que os alimentava e segue alimentando.

O ano era 2016, crise e tensão política marcaram o período do início ao fim. A presidenta Dilma sofrera impeachment em um golpe de estado perpetrado pelo congresso no auge da Lava Jato, maior crise de lawfare conhecida; o vírus da Zika se espalha e o atentado à boate gay de Orlando deu os primeiros sinais da ascensão da extrema direita,  seguidos de marcha nazista na Suécia e do pavoroso caso do estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro; além do Brexit mostrando a força manipuladora das redes sociais.

Tijolo com bandeira do Brasil e suástica

Sr. Aloísio Menino 23

Seu Argemiro e Menino 2

Fotos  divulgação

Foi ano também de Olimpíadas, de crescimento das fakenews, de eleições municipais no Brasil e finalmente da primeira ascensão de Donald Trump. E o ano ainda terminaria com guerra na Síria e a queda do avião da Chapecoense.

Em meio a esse caos, Menino 23 veio nos lembrar que aqueles fatos não são novidade, que são parte do projeto fundador do Brasil e que seguem vigentes até hoje.

Tudo começa quando um fazendeiro de Campina do Monte Alegre, no estado de São Paulo, trabalhando em sua propriedade, encontra antigos tijolos com uma inscrição muito peculiar. Todos eles trazem um losango encrustado em suas laterais retangulares com a suástica nazista em seu interior. Tatão leva seu achado ao historiador Sidney Aguilar Filho que passa a investigar a descoberta. Um antigo funcionário reporta a transferência de meninos negros do Orfanato Romão de Mattos Duarte, no Rio de Janeiro, para a antiga propriedade. A coincidência da profusão de suásticas ocultas com a informação sobre a transferência dos meninos desperta a atenção do professor e o leva a investigar quem foram os antigos proprietários da estância e chegar à família Rocha Miranda.

Quem seriam os Rocha Miranda e em que tipo de atividades estiveram envolvidos na Era Vargas e antes dela? Imagino que o sobrenome cause curiosidade aos moradores de Campina do Monte Alegre, mas também aos moradores dos subúrbios cariocas, especialmente do bairro que recebeu o nome da família. Mas vou deixar a tarefa de esmiuçar quem foram eles ao documentário que espero que todos assistam. Me chama a atenção o reincidente desejo de retorno ao passado que o episódio representa. 

É inevitável imaginar, ao longo do filme, que tipo de atrocidades um grupo nazista planejava perpetrar contra aqueles meninos indefesos em uma espécie de campo de concentração brasileiro. O sequestro daquelas crianças poderia ter como fim algum tipo de laboratório em que se pretendia comprovar teorias eugenistas? Seria um campo de concentração destinado a eliminar as raças tidas como inferiores ou outros grupos indesejáveis e inconvenientes aos projetos de nação das elites? A grande revelação que o documentário promove é fazer perceber que não existia nenhuma outra pretensão por parte daquelas pessoas além de restaurar, em pleno século XX, o regime escravocrata do qual eram herdeiros. Do grupo de 50 meninos órfãos conduzidos ao trabalho forçado na propriedade, dois foram localizados e puderam dar seus depoimentos. O Sr. Argemiro dos Santos e o Sr. Aluísio Silva, o Menino 23. Além de mencionar o falecido Menino 2, forçado ao trabalho doméstico.

De que forma a tentativa dos descendentes dos Rocha Miranda de reestabelecer um regime escravocrata, ainda que de forma discreta, se conecta com presente? Uma criança nascida em 1888 tinha 42 anos em 1930. Na Era Vargas ainda existiam muitos resquícios do sistema escravista, quando as populações negras deixaram o status de escravizados, passaram a representar o grande inconveniente para o projeto de nação destas elites. Primeiro na forma de prejuízo financeiro por representarem uma grande perda material para os grandes fazendeiros da época. Depois como uma grande massa de gente para a qual esta mesma elite nunca teve outro projeto além da marginalização, gerando um grande e contraditório entrave para seus próprios projetos de progresso. Eliminar um contingente tão grande de pessoas, à moda dos nazistas, é um projeto inviável até para os piores cenários de pós-Segunda Guerra. Resta às nossas elites, ontem e hoje, sonhar saudosamente com a restauração dos bons tempos da escravidão enquanto sustenta seu eterno projeto de marginalização de uma massa cada vez maior de indesejáveis.

O Negro Em Cena

África Brasil a 24 quadros

A fotografia de Edinho Alves

 

Fotografar é um ato de amor é a capacidade de eternizar aquele momento único que te mobiliza, afeta, emociona e também te fortalece.

A imagem captada pelo olhar humano nos faz conscientes do lugar onde estamos, do mundo que nos cerca, da dor que causamos, dos dramas que superamos, das alegrias que nos permitimos celebrar...

A fotografia de Edinho Alves é um ato de amor. Dos mais genuínos. Capta a potência humana onde ninguém ousou antes enxergar: pretos e pretas de países africanos, embebidos de amor, alegria, beleza, confiança, brilhantismo, vigor, coragem e autoestima. Senegal, Nigéria, Mali eternizados no ano de 1988.

Do Brasil, este país co-irmão, vislumbramos pretos e pretas no eixo Rio-Salvador, representando este território negro, afro, nosso. A beleza emerge da potência do humano, dos corpos em simetria, dos elos construídos, das experiências verdadeiras vividas em comunidade... São registros de parte da história do movimento negro brasileiro, captados no cotidiano e singularizados na essência de cada momento.

O olhar de perto, Menina Zairense e Renato Pachoal

África Brasil a 24 quadros é a terceira exposição individual deste brilhante técnico de cinema, cuja carreira completou 40 anos em julho de 2018. O namoro com a fotografia vem desde 1978, mas a primeira exposição só chegou aos olhos do público em 1992, época em que lançou a 1ª Agenda Afro-brasileira, um marco na história do movimento negro deste país.

Menina e menino da Ilha de Goré,

cumplices. Zozimo, Elisa Lucinda e Zilmar Basilio

O Negro Em Cena

MNC_9340.jpeg

Edinho Alves

Foto: Ierê Ferreira

​

​

Nelson Mandela e Leonel Brizol

 

Darcy Ribeiro e Marcia Moreira

 

Vai Nascer Ebla Mahin

África Brasil a 24 quadros traz outra vez a público o olhar atento deste fotógrafo, embebido de amor por sua arte e por seu povo.

Para Edinho, fotografar é como se fosse fazer um filme...

O filme destes momentos únicos na vida...

...a 24 quadros.

Luta Senegalesa, Sorriso Nigerian

 

Yousou N`Dour

 

Familia Griot 

 

 

*Angélica Basthi é jornalista, escritora, mestre em comunicação e cultura pela UFRJ e amiga de Edinho Alves há mais de 20 anos.

O Negro Em Cena

Sou um parágrafo. Clique aqui para adicionar e editar seu próprio texto. É fácil.

O Negro Em Cena

19° Encontro de Cinema Negro

Brasil, África, Caribe e Outras Diásporas Zózimo Bulbul.

Texto e fotos: Ierê Ferreira

 

Este ano foi especial para o cinema negro aqui no Rio de Janeiro, pois tivemos dois encontro no mesmo ano, um de 09 a 17 de abril e o segundo encontro dentro da programação oficial da Semana de Arte do Rio, que aconteceu de 21 a 25 de setembro. Este último trouxe uma programação cheia de filmes que ao longo desses quase vinte anos de realização do encontro fizeram a gente cantar, sorrir e chorar de emoção como: Otelo o Grande do cineasta Lucas Rossi, O Papel e o Mar de Luiz Antônio Pilar, Kabela de Yasmin Thayná.

Mas também tivemos muitas novidades, a começar pelo evento de abertura no salão Assírios do Teatro Municipal que contou com a participação das deputadas Dani Balbi e Jandira Feghali e do secretário municipal de cultura Lucas Wosgrau Padilha. Também tivemos um mini concerto de piano e voz dos músicos Tenor - Geílson Santos e a

Pianista - Sulamita Lage.

Seguido de um cortejo do Teatro Municipal até o Cine Odeon, a meca do cinema Carioca e onde a cineasta Sabrina Fidalgo fez a estreia do seu primeiro longa metragem "O Projeto" (2026), co dirigido com o fotógrafo suíço Yvan Rodic

Ainda dentro da programação, que foi dividida entre o Cine Odeon e o Centro Cultural da Justiça Federal, além de filmes diversos, tivemos debates importantes e os lançamentos de dos livros “Cinema de Favela e Racismo e Antirracismo no Cinema e Na Fotografia dos séculos 20 e 21. 

 

Agora já estamos dando a largada para a comemoração do 20° Encontro em 2027, onde vamos celebrar muito o nome Zózimo Bulbul este farol de milha do cinema negro que tem mostrado ao mundo a importância das produções cinematográficas Afro diaspóricas.

 

Zózimo Bulbul PRESENTE.

O Negro Em Cena

 

Conheci Zózimo Bulbul no início dos anos 90 quando frequentava a rua Álvaro Alvim, que na época era onde se reuniam os artistas da música, teatro e cinema. Pela proximidade da Câmara de Vereadores alguns políticos também frequentavam

esta rua, no centro cultural do Rio de janeiro. Os bares eram os pontos de encontros antes e depois

dos shows, onde anônimos e famosos brindavam com cerveja, cachaça ou batidas de gengibre do bar Carlitos que ficava bem em frente ao teatro Rival.

Eu gostava de conversar com as pessoas mais experientes do que eu. Um dia, fui apresentado a um jovem senhor chamado Wilton Cobra, que na época era fotógrafo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um negro alto e elegante que sempre andava com colete, bolsa e caixa de fotografias embaixo do braço. Como já estava fotografando alguns eventos e era recém-formado em fotografia pelo Senac, eu e o Sr. Wilton conversávamos muito. Um dia ele me apresentou o Zózimo. Depois desse encontro virei fã, amigo e aluno. Sim, aluno! Pois ele sempre tinha muito para ensinar sobre negritude, sociedade, música e principalmente sobre cinema e fazia isso da forma mais lúdica possível.

Zózimo era um homem alto e tinha além da beleza, um porte de guerreiro nobre e fazer justiça era seu objetivo. Ele costumava dizer que “o Tarzan não o representava", "que em frente ao Maracanã a estátua erguida tinha que ser a do Pelé e não a do Bellini" e que o "Simonal era muito melhor que o Roberto Carlos”. Quando ele e a sua companheira Biza Vianna inauguraram o Centro Afrocarioca de Cinema foi como se um portal afrodiaspórico abrisse para mim. E lá estavam as filosofias africanas, as conquistas, as invenções e as bases civilizatórias e eram todas pretas. Não eram como nos livros didáticos da minha época de estudante, nem eram como a TV mostrava, era a ÁFRICA o continente mãe. Sem contar com o fato de que no Centro Afrocarioca sempre se reunia a nata da cultura negra da cidade, para comemorar e discutir possibilidades em jantares fartos ou simples coquetéis. Assim formamos um grupo de trabalho que duas ou mais vezes por semana se encontravam para falar de projetos e atividades no espaço.

O meu dia no Centro Afro começava com o Zózimo pedindo para ler o caderno de cinema. Após a leitura, nossas conversas fluíam sobre as matérias e críticas dos filmes.

Na sala de cinema, assistíamos aos filmes africanos que Zózimo fazia questão de exibir. Muitas vezes, o filme não estava nem legendado, mas, ainda assim, curtíamos muito esse momento. Um desse filmes, sem legenda, contava a história de um jovem africano que saiu

de um vilarejo para estudar nos Estados Unidos. Esse jovem se apaixonou pelo cinema e quando retornou levou na bagagem fantasias de “cowboy”, armas de espoleta e uma câmera Super 8. Reuniu seus amigos e foi fazer filme de“cowboy” em plena Savana Africana, uma metalinguagem que não esqueço jamais. Depois dos filmes, nós ficávamos conversando sobre como eram as coisas nos países africanos e o meu desejo de ver a África de perto ia ficando cada vez maior. Com muito esforço e trabalho, principalmente da Coordenadora e esposa do Zózimo, Biza Vianna, o projeto do Encontro de Cinema Negro foi realizado e já nasceu grande. Com filmes internacionais e a presença de cineastas consagrados como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, o nigeriano Olá Balogum, entre outros. A partir deste encontro, o portal afrodiaspórico ficou ainda maior, pois nunca tinha visto tantos filmes produzidos, dirigidos e interpretados por pessoas da minha cor. Minha empolgação era tanta que eu fotografava tudo e todos ao redor e a magia do cinema ia me enfeitiçado cada vez mais. Eram filmes nacionais e de diversos países africanos, Cuba, Estados Unidos, França e Caribe. Uma profusão de sentimentos me fez  entender o GIGANTE que era o Zózimo e suas ideias. Percebi que todo aquele processo de trabalho já configurava o Encontro de Cinema e que, no futuro, deveria contar essa história a minha maneira com os meus retratos. Muitos outros eventos vieram e eu estava lá para registrar cada montagem, cada aperto de mão, cada abraço, cada sorriso e cada momento de emoção que meus olhos viram. Em 2010, o Brasil

foi o país homenageado no FESMAN. Um festival de arte negra no Senegal que comemorou os 50 anos da independência do país e a inauguração do Monumento ao Renascimento Africano. Zózimo e a equipe do Centro Afrocarioca foram convidados a integrar a delegação brasileira que seguiria para o Senegal. Eram muitos grupos e artistas ligados à cultura negra que foram representar o Brasil no FESMAN. Quando eu soube que também iria, vibrei de felicidade e empolgação, corri para renovar meu passaporte e me organizar para viver uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu pisei em solo africano, foi como se todos os pedaços de ÁFRICA que me acompanhavam encontravam o seu lugar e se encaixavam. Dando forma aos meus pensamentos e desfazendo os mistérios. O céu azul

de lá era mais azul, as cores eram mais intensas e a pele muito mais negra e cheia de fé. Foram dias de muitas emoções e trocas potentes. Ver de perto o Monumento ao Renascimento Africano, conhece a Ilha de Gorée, o presídio de onde possivelmente vieram meus ancestrais escravizados e acompanhar o Zózimo na sua missão de representar o cinema negro brasileiro foi e sempre será uma marca profunda na minha vida. Quando meu mestre virou um encantado, eu sabia que ele continuaria a iluminar, como um farol super potente, nosso desejo de justiça contra o racismo e todos os tipos de preconceitos ainda existentes.

Zózimo Bulbul presente!

AGORA TAMBÉM RESTA UMA FOTO QUE O RETRATISTA DEIXOU

Mulheres negras sob o olhar, a lente e o foco de Ierê Ferreira.

Sylvia Helena de Carvalho Arcuri

Este trabalho tem como finalidade apresentar as fotografias, especialmente os retratos de algumas mulheres negras fotografadas por Ierê Ferreira e a partir dessas fotos, estudar a possibilidade da fotografia servir como ferramenta para ativar a memória, não só a memória individual, mas também a coletiva. As personalidades fotografadas são importantes no cenário cultural afro-brasileiro e junto com outras fotografias de Ferreira fazem parte do momento de criação da memória futura da preservação da identidade cultural desse grupo. Identidade, memória e representação foram temas que perpassaram todo esse trabalho e para abordá-los foram usados textos importantes que apresentam conceitos como o de Identidade abordado por Stuart Hall em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade; os conceitos de memória e representação tratados no livro: A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricouer; os textos, sobre a fotografia, de Sunsan Sontag do livro Sobre la Fotografía, além de textos de Márcio Seligmann-Silva e Siegfried Kracauer.

Pensar, questionar, problematizar questões relacionadas à cor da pele e à raça na sociedade brasileira é um desafio, pois o Brasil é uma nação que se diz miscigenada. Pode-se afirmar que, aqui ninguém é branco e nem negro? Que cor, que raça é essa que nos distingue? Quem somos, o que podemos ser, onde e por onde podemos transitar? A problemática se instaura com mais veemência e percorre os espaços históricos até hoje sem uma definição. Como se reconhecer como parte do todo se a sociedade cobra uma cor? Quando chegará o momento de preencher as lacunas?

Lutas sociais, políticas e econômicas foram travadas ao longo do processo de identidade de um povo híbrido. Os negros negligenciados conseguiram avançar e receber, de alguma maneira, o reconhecimento da nação como o povo que foi maltratado e usado durante a escravidão. Respeitar e viver as diferenças, ser tolerante é um desafio para humanidade atual. 

Os integrantes dessa sociedade vivem tão voltados para dentro, olhando para seu próprio eu interno que se esquecem, não percebem e não concebem a existência do “outro”. Esquecem que são, que possuem uma identidade porque existe um “outro” que dá a possibilidade da sua existência. Esse “eu” intolerante não percebe que a alteridade é a possibilidade da sua identidade.

Independente da cor da pele, das crenças e do gênero pensar arte, pensar fotografia, como forma artística, é pensar questões das minorias, que são a maioria nesse país. A proposta de Luiz Silva, conhecido como Cuti, é mostrar que: “nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. Afinal, assim como a literatura, a fotografia é uma grande possibilidade de se estar no lugar do outro e aprender-lhe a dimensão humana” 1 . Incapacidade de conviver com a diferença é discriminação, é preconceito, é ter do outro uma imagem distorcida e errada. Quando se fala do “outro”, fala-se de máscara, do outro rosto, dos excluídos, dos estranhos, dos bárbaros, dos ignorados, dos estigmatizados, dos vulneráveis, dos que estão alijados, daqueles que sofrem algum tipo de violência e preconceito, do medo que esse “outro” causa e do lugar e da posição desse “outro” no mundo. 1 SILVA, Luiz. O Leitor e o Texto Afro-brasileiro.

Disponível em: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm.

53288 Ipafro Sankofa.jpg
0125 Marina Miranda.jpg
69003 Afro dance - Cópia.jpg
34669 Contra luz Iara.jpg
994615 Zona Portuaria.jpg
20.jpg
21.jpg
22.jpg
bottom of page